Loucuras da representatividade

Não foi apenas uma vez que eu, ou mesmo você, leitor, ouvi uma crítica a respeito da representatividade de algum grupo em alguma obra. Pode ser uma série, um livro, um jogo, uma peça de teatro… se existirem poucos personagens de acordo com as preferências de certos grupos políticos, a reclamação pela falta desse tipo de personagem virá com todo vapor.

Recentemente dois personagens mudaram drasticamente, por conta da representatividade. Nosso conhecido 007 agora é uma mulher negra e a Pequena Sereia, conhecida por ser branca e ruiva, também se tornou negra – e para a sorte de todos, não se tornou um homem –; para os árduos defensores dessas mudanças, ter mais negros e mulheres – e a combinação dessas duas características soa como um milagre para certos ouvidos… –, não importando o modo com o qual o grande público se identifica com o personagem, ou mesmo as regras claras sobre a criação e a manutenção de personagens ao longo dos anos, é uma qualidade indiscutível. Quem discordar, com um passe de mágica, se transforma no mais grotesco seguidor e disseminador do sexismo e do racismo. 

De um segundo para o outro o fã de 007 ou a fã da Pequena Sereia, que entendem esses personagens como foram mostrados desde as suas tenras infâncias, são equiparados ao mais cruel racista e ao homem mais boçal em seu sexismo. Parece até que começaram a acreditar que o lugar da mulher é na cozinha e o do negro é a rua – e é exatamente esse tipo de loucura que respalda a questão da representatividade. 

Como que da água pra o vinho, ou da água para o vinagre, uma pessoa normal se encontra imersa em um oceano do qual supostamente não pode sair: o mundo estrutural da sociedade machista e racista. Seja contra as mudanças citadas, não importando se utilizará argumentos condizentes com o mantimento necessário das características que podem identificar um personagem, e será rotulado como o ser mais abjeto que já existiu. 

É irrelevante se perguntar o porquê da necessidade de um autor ser obrigado a representar grupos A ou B. Se autor não o fizer, é um monstro. Não importa se a história é dele, ou até mesmo se ela foi criada ou se se passa em épocas distantes, como na Escandinávia do século XII ou na Grécia do IV a.C… se não existirem representações, você estará errado. Mesmo autores distantes, como Shakespeare, erraram em não colocar negros em suas tramas – detalhe: não basta por negros. Têm que ser fortes, ativos, importantes, heróis, não podem existir em uma ficção como uma minoria que só está lá por cota. Necessitam ser numericamente bem representados, precisam ser a média, a maioria, ou, de preferência, todos, pois assim os críticos ficarão alegres. 

Ir atrás de motivos concretos para essas interferências em uma obra é racismo. Com as mulheres, claro, é a mesma coisa, só mudando o prefixo do “ismo” – no fim, o trabalho autoral é posto em xeque por conta dessas críticas. Não interessa mais a qualidade da trama, o desenvolvimento dos personagens, mas sim se o expectador irá se sentir representado e, como é óbvio, essa preocupação não vale para todos os espectadores, não são todas as etnias. Não vemos ninguém lutando pela representatividade de esquimós e nativos das ilhas do Pacífico em grandes produções do cinema (e, se levarmos a sério a argumentação progressista, isso pode até ser um traço das estruturas racistas que os compõem…), ou seja, não temos grupos políticos com alguma consideração para com essas pessoas.

O que existe é a preocupação quase doentia de que as pessoas necessitam se sentir nas obras. Aqui vai a pergunta proibida: por que alguém precisa se sentir representando em qualquer obra? Por que um autor deveria ter a obrigação se ser inclusivo? O que um personagem, seja negro, gay, mulher, branco, etc., tem para servir de referência existencial para o consumidor da obra? 

Se escrevo um livro sobre um náufrago, o que muda se ele for negro ou branco? Se estou adaptando a Terra Média de Tolkien para as telas, por que deveria por personagens negros ao lado dos protagonistas? Se estou compondo um roteiro de cinema, qual é a importância de por mulheres fortes no enredo? É obrigatório a existência destas? Elas possuem uma necessidade existencial para existirem em toda e qualquer obra? 

Só de por as indagações na mesa, percebe-se o quão fraca é a defesa da inclusão pela inclusão. Contudo, infelizmente, o problema da busca pela representatividade não termina aí. 

A arma para a luta pela representação, como já dito, não é nada mais nada menos do que a difamação. Ela não busca conciliar, mas sim rebaixar e sujar quem pensa diferente. Não possuem uma crítica concreta, isto é, com um chão para se firmar. Ou você é a favor, ou é racista, por exemplo. Isso pode por toda uma sociedade em um conflito caótico. 

É tornando todos que discordam da inclusão racistas, sexistas e afins, que conseguem ter influência e poder, porém, se esquecem que, ao fazer isso, ofendem e mentem sobre a índole da grande parte da população que está acostumada com a identidade já estabelecida de muitos personagens. Criam uma barreira que, ao menos na primeira vista, é intransponível e brincam com assuntos sérios. 

Em nome da representatividade, insultam; em nome da inclusão, difamam; em nome de seus projetos, renegam toda e qualquer crítica racional que podem receber. Está mais do que no tempo de começarmos a rever a posição de críticos desses afetados. Merecem mesmo a influência que têm? Deveriam chamar meio mundo de sexista e racista sem maiores consequências? As obras que estragaram merecem ser consumidas? 

Creio que o leitor já saiba da resposta. 

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Hiago Rebello

Hiago Rebello

Graduando em História, Licenciatura, pela Universidade Federal Fluminense, colunista do Instituto Liberal.