Liberais devem sair de suas bolhas e dialogar com o resto do Brasil

A dedicação e o trabalho de alguns indivíduos e instituições, a crise econômica e institucional pela qual o Brasil vive desde 2013 e a internet fizeram o incipiente movimento liberal brasileiro progredir. No entanto, a despeito disso, nada garante que ele continuará crescendo a ponto de influenciar as massas, o que nos demanda um diagnóstico […]

A dedicação e o trabalho de alguns indivíduos e instituições, a crise econômica e institucional pela qual o Brasil vive desde 2013 e a internet fizeram o incipiente movimento liberal brasileiro progredir. No entanto, a despeito disso, nada garante que ele continuará crescendo a ponto de influenciar as massas, o que nos demanda um diagnóstico e proposições do que deve ser feito.

Nos últimos anos podemos listar entre as conquistas recentes do liberalismo:

  • a criação de centenas de grupos de estudos liberais pelo país afora;
  • a publicação de diversos livros de ciência política que se tornaram best-sellers;
  • a vitória de algumas chapas liberais em eleições para DCE em universidades brasileiras;
  • a organização de centenas de eventos e palestras com a promoção de debates com viés liberal;
  • a quebra do monopólio da esquerda nas manifestações de rua, influenciando no processo de impeachment de Dilma Rousseff;
  • o retorno da agenda de reformas com a aprovação da PEC do Teto dos Gastos e da Reforma Trabalhista, além de estar em trâmite a Reforma da Previdência e a Reforma Tributária;
  • o surgimento de partidos com viés liberal, como o Novo e o Livres, ala do PSL.

Todos esses eventos são importantes e fundamentais, devendo ser comemorados, mas os liberais devem sair de suas bolhas políticas, estimuladas pelas redes sociais, se quiserem dar os próximos passos.

Basicamente, algoritimos selecionam conteúdos conforme a atividade dos usuários, o que além de eventualmente limitar o debate de ideias na internet dão a falsa impressão de que todo mundo concorda com você. Assim, se vê na timeline um exacerbado otimismo com os rumos do movimento liberal.

Ao que parece, o pré-candidato a presidência pelo partido Novo, João Amoedo, é o nome mais “purista” dentre os que aspiram estar no Palácio do Planalto em 2019. Ter um candidato que defenda uma pauta liberal é um enorme avanço. Nas eleições de 2014 Pastor Everaldo, do PSC, afirmou em rede nacional que se eleito iria privatizar a Petrobrás. O discurso destoou da covardia de Geraldo Alckmin 8 anos antes, e colocou uma vaca sagrada em debate. Embora apenas um quarto dos brasileiros se declararam favoráveis a venda da estatal em 2015, o percentual aumentou com estimativas anteriormente realizadas.

Assim, estar no páreo alguém cuja proposta é privatizar todas as estatais, é animador. A depender do impacto da candidatura, essas ideias podem influenciar o debate público e forçar outros candidatos a incluírem algumas propostas em suas agendas.

Contudo, não me parece que será em 2018 que os liberais terão um candidato competitivo. Ao que tudo indica, o Novo não participará dos debates presidenciais e terá menor exposição que Levy Fidelix nas eleições passadas. Naquela oportunidade ele conseguiu aumentar em 8 vezes sua votação de 2010, mas ainda assim registrou menos de 500 mil votos. Amoedo fará mais de um milhão de votos? É possível. Chegará a 5% dos votos válidos? É bastante improvável.

É bom salientar que o maior desafio do Novo e do Livres em 2018 é conseguirem eleger uma bancada no parlamento a fim de mostrar trabalho e terem maior capilaridade nas eleições de 2020 e 2022. Ainda assim, para mim está claro que a apuração das urnas em 2018 evidenciará um descompasso das expectativas alimentadas por liberais desde 2014 e a realidade eleitoral. Paciência. Certas coisas são como vinho e uísque, levam tempo para ficarem boas.

Porém, mais do que essa desarmonia de expectativas, há um abismo entre o que os liberais vivem e seus discursos com as preocupações presentes no “Brasil real” – e isso é importante destacar pois ainda é possível reajustar isso.

Debater sobre reserva fracionária ser fraude ou não, sobre as aplicabilidades do Princípio da Não Agressão (PNA) e a volta da Monarquia, tudo isso são exercícios bastante interessantes, todavia essas temáticas não possuem qualquer eco fora dessa bolha. Ao produzirem conteúdo sobre isso, se dialoga apenas com um nicho, não com o Brasil.

O Brasil real é aquele em que metade dos domicílios sequer possui coleta de esgoto; é a nação em que um terço de seus habitantes ainda não possui acesso à internet, é aquele em que as classes populares que a utilizam sequer estão interessadas em mobilização política. As pessoas estão preocupadas se o posto de saúde ficará aberto o dia todo, se a rua será asfaltada, se haverá vagas na creche no ano que vem para a mãe poder voltar ao mercado de trabalho e ajudar no sustento da casa.

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Não significa que apenas os liberais estejam falhando nesse sentido: há muito tempo a esquerda está presa em sua própria bolha. O fracasso do PT em 2015 e 2016 em muito se deveu a isso.

A lição que fica é a de que liberais devem ocupar espaços e ser agentes de mudanças nesses ambientes, seja na iniciativa privada, em cargos públicos ou no terceiro setor. Mas, para isso, espera-se um discurso que vá muito além da privatização de estatais.

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