Juventude e extremismo: o quebra-quebra como um fim em si mesmo

Ontem (25/05) assistimos mais um lamentável episódio de arruaça e vandalismo que a Globo News insiste em chamar de “manifestação”. Não é de hoje que jovens “engajados” por um “mundo melhor” quebram tudo em favor da “democracia”; não é de agora que apaixonados políticos de rosto coberto enfrentam a polícia com a desculpa de agir em defesa do “povo”- que por sinal trabalhava enquanto os alienados por ideologias totalitárias brincavam de guerrinha nos arredores do Palácio do Planalto. Não confio nesse pessoal e nem estou aqui para defender o presidente Michel Temer, mas estou com H.L. Hencken quando ele escreve que “o desejo de salvar a humanidade é quase sempre um disfarce para o desejo de controlá-la”.

É preciso muita ingenuidade e uma falta de conhecimento completo a respeito da psicologia humana para acreditar que jovens encapuzados arremessando pedras, paus e incendiando prédios, estão realmente preocupados com o cenário político – bem, talvez seja aceitável afirmar que estejam preocupados em piorá-la. O que essa juventude quer, na verdade, é o enfrentamento, a agitação – alguns vivem disso – e a violência pura e simples. Até Santo Agostinho, em suas Confissões, escreveu sobre as transgressões cometidas por ele quando jovem. Diz ele a respeito do roubo que cometera:

 “…dirigimo-nos ao local, eu e alguns jovens malvados, com o fim de sacudi-la e colher-lhe os frutos. E levamos grande quantidade deles, não para saboreá-los, mas para jogá-los aos porcos, embora comêssemos alguns; nosso deleite era fazer o que nos agradava justamente pelo fato de ser coisa proibida.” [1]

Freud já não disse que “Onde há proibição, nasce o desejo”? A barbárie é antiga, mas hoje ela veste vermelho.

Mesmo quando flertei de perto com a esquerda, desconfiava desse comportamento “preocupado” da juventude vermelha – este foi um dos fatores que me levou a abandonar aquela “galerinha do bem”. Claro que nem todo jovem seja um imprudente, mas a própria condição imatura dessa fase facilita a imprudência. Citei Santo Agostinho, mas Aristóteles, séculos antes do santo católico, já havia escrito: Em termos de caráter, os jovens são propensos aos desejos passionais e inclinados a fazer o que desejam.” E mais: Em tudo pecam por excesso e violência, contrariamente à máxima de Quílon.” [2] O mesmo filósofo também ressalta que os jovens: tudo fazem em excesso; amam em excesso, odeiam em excesso e em tudo o resto são excessivos; acham que sabem tudo e são obstinados (isto é a causa do seu excesso em tudo). Cometem injustiças por insolência, não por maldade.” [3] O cenário desolador de ontem não foi exatamente isso? Quando a imaturidade se alia a uma desculpa para externá-la legitimamente, estamos a poucos passos do abismo.

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Por isso, como apontou Russell Kirk em sua obra A Política da Prudência, as ideologias radicais podem “atrair os entediados da classe culta, que se desligaram da religião e da comunidade, e que desejam exercer o poder”, e que, além disso, essas ideologias podem “encantar os jovens, parcamente educados, que, em sua solidão, se mostram prontos a projetar um entusiasmo latente em qualquer causa excitante e violenta.” [4] Não é por menos que tantos jovens compõem os chamados “movimentos sociais” de esquerda, que em sua maioria não passam de hordas prontas para a promoção da violência. Por isso o liberalismo e o conservadorismo, salvo exceções, não são muito atraentes para os que anseiam um pensamento único e totalizante. Em vez de alimentar o fetiche da paixão política, eles geralmente cortam o extremismo pela raiz, reprimindo o radicalismo potencializado pelo arrebatamento ideológico.

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Nas manifestações pró-impeachment nenhum trabalhador perdeu nada; transportes coletivos não foram vandalizados; pontos de ônibus não foram destruídos e policiais não foram feridos. Não importa a causa, o que esses bárbaros do século XXI querem é excitar quebra-quebras indiscriminados. E para isso as referências que explicam o radicalismo da juventude são várias. Podemos citar Émil Cioran, quando este, em Histoire et Utopie, registra: “Dê a eles a esperança ou a oportunidade de um massacre, eles os seguirão cegamente. No fim da adolescência, nós somos, por definição, fanáticos; eu mesmo o fui, e quase até o ridículo”. [5] É precisamente isso que quadrilhas como PT, PSTU, PSOL, PCdoB, UJC etc. fazem, lhes dão oportunidades para que fomentem a selvageria autenticada por uma abstração sinistra.

Nelson Rodrigues escreveu que “o jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um, o da imaturidade.” Além do mais, disse também: Eu amo a juventude como tal. O que eu abomino é o jovem idiota, o jovem inepto, que escreve nas paredes ‘É proibido proibir’ e carrega cartazes de Lênin, Mao, Guevara e Fidel, autores de proibições mais brutais.”[6] E não foi isso que observamos nas “manifestações” dessa semana em torno do Palácio do Planalto? Bandeiras do PT, PSTU, PCdoB, UJC, PSOL etc.? Em outras palavras, partidos que defendem uma ideologia macabra que dizimou milhões de vidas ao longo do século XX?

Claro que as hordas bárbaras não eram e não são compostas só por jovens. Mas o caso de velhos que se comportam como adolescentes já é outra história, é caso clínico.

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Finalmente, como bem sintetizou o romântico Goethe, “a juventude é a embriaguez sem vinho”. [7] Estou de acordo, e não tenho a menor dúvida de que mais vale uma juventude embriagada pelo vinho do que alterada pela alta graduação de radicalismo contida nessas ideologias extremistas que ela defende com unhas e dentes, ou melhor, com paus e pedras.

[1] Santo Agostinho. Confissões. Ed. Nova Cultural. 1996. Livro Segundo. Capítulo IV.

[2] Sábio espartano a quem se atribui a máxima “nada em demasia”, que segundo a tradição, figurava no santuário de Delfos.

[3] Aristóteles. Retórica. Obras Completas. Biblioteca de Autores Clássicos. Ed. Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2005.

[4] KIRK, Russell. A Política da Prudência. Tradução de Gustavo Santos e Márcia Xavier de Brito; apresentação à edição brasileira de Alex Catharino; introdução de Mark C. Henrie; estudos anexos de Bruce Frohen, Gerhart Niemeyer e Edward E. Ericson Jr. São Paulo: É Realizações , 2013.

[5] CIORAN, Émil. Histoire et Utopie. Éditions Gallimard. 1960. Página 12.

[6] RODRIGUES, Nelson. Flor de Obsessão. Companhia das Letras, 1997. Org. Ruy Castro. 1ª Edição. Página 94.

[7] MOMMSEN, Katharina. Goethe’s art of living. Translated by John Crosetto, John Whaley, and Renee M. Schell. Translation of: Goethe Die Kunst Des Lebens, by Katharina Mommsen Press, 2003. Página 58.

Imagem: Arte sobre foto de Marcelo Camargo/Agência Brasil

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