Juridiquinha do Norte e o Escândalo da Renúncia Individual
Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência
Na respeitável — embora conceitualmente elástica — cidade de Juridiquinha do Norte, onde a legalidade é sempre “interpretável” e a moralidade depende de maioria simples, instalou-se recentemente um escândalo sem precedentes: um secretário que ousou abrir mão de um benefício só para si.
O episódio começou quando o Secretário Municipal de Negócios Excessivamente Jurídicos, Dr. Ambrósio Retórico de Oliveira Neto, resolveu cometer um verdadeiro atentado à liturgia do cargo: apresentou um projeto de lei propondo deixar de receber pessoalmente os honorários de sucumbência, mantendo-os integralmente destinados aos procuradores do Município.
Não mexia no bolso alheio.
Não alterava direitos adquiridos.
Não tocava na tradição — só na vergonha.
Apenas… abria mão da própria parte.
O projeto foi protocolado sob o singelo nome de Projeto de Lei nº 101 — “Cada Um Com o Seu”, e chegou à Câmara Municipal como quem chega a um velório político: em silêncio, com olhares desconfiados e cochichos nervosos.
A Câmara era presidida pelo imponente Vereador Doutor Florêncio Regimental de Alvarenga, homem de fala firme, expressão grave e profundo compromisso com a estabilidade das vantagens existentes. Ao lado dele, compunham o plenário figuras ilustres da política juridiquinhense, entre elas:
Vereador Zé Parágrafo Único, especialista em votar “não” sem necessidade de explicação;
Vereador Tito Mutação Constitucional, capaz de enxergar inconstitucionalidade até em receita de bolo;
Vereadora Dona Cláusula Pétrea, para quem toda vantagem vigente é, por definição, imexível.
Ao ouvir a leitura do projeto, o presidente da Casa interrompeu a sessão por três minutos — oficialmente para “organização dos trabalhos”, extraoficialmente para entender onde exatamente estava o problema, já que o dinheiro continuaria indo para quem sempre foi.
— Senhores vereadores, retomou Florêncio,
— precisamos ter cautela. Hoje é o secretário que abre mão. Amanhã, quem sabe, pode ser outro.
O plenário compreendeu imediatamente o risco institucional.
Dr. Ambrósio tentou esclarecer:
— Excelências, não estou retirando direito algum dos procuradores. Apenas entendo que, no meu cargo político-administrativo, não é adequado receber honorários judiciais.
A reação foi imediata.
Um vereador pediu vista.
Outro pediu parecer.
Um terceiro pediu cautela “em nome da tradição”.
O presidente então proferiu a frase que entraria para os anais de Juridiquinha:
— Esta Casa não pode permitir precedentes perigosos.
Perigosos para quem, nunca ficou claro.
Porque, em Juridiquinha, ninguém confundia o sentido do projeto. Não havia dúvida semântica. Não se tratava de interpretar o texto, mas de calcular suas consequências. Se alguém pode abrir mão, alguém pode lembrar que poderia ter feito o mesmo. E coerência, como se sabe, é o sinal vermelho do patrimonialismo.
Após longos debates — nos quais ninguém conseguiu explicar, com clareza, por que alguém não poderia abrir mão de algo que é seu —, a conclusão foi unânime na confusão e majoritária na rejeição.
A cidade, afinal, não estava diante de um projeto de lei. Estava diante de um lembrete. E lembretes são sempre subversivos.
O projeto foi derrubado.
A justificativa oficial, registrada em ata com solenidade quase poética, dizia:
“Embora meritória, a proposta gera insegurança jurídica, administrativa, psicológica e cultural, podendo estimular comportamentos de renúncia incompatíveis com a estabilidade institucional.”
A justificativa foi redigida com o tipo de solenidade que não serve para explicar, mas para impedir perguntas.
Nos bastidores, a explicação era mais simples: se até quem pode receber resolve não receber, a narrativa começa a ficar feia.
A renúncia era um lembrete incômodo de que o limite pode ser virtude.
Ao deixar o plenário, o secretário limitou-se a um comentário breve, ouvido apenas por um estagiário atento:
— Em Juridiquinha, o problema nunca foi dividir. O problema é alguém lembrar que pode não pegar.
No dia seguinte, o jornal local estampou:
“CÂMARA DEFENDE COERÊNCIA E REJEITA PROJETO QUE ABRIA MÃO DE DINHEIRO”
Desde então, Juridiquinha segue firme. Os honorários continuam intactos. Os discursos continuam longos. E qualquer tentativa de virtude segue sendo tratada como risco institucional grave. Porque, afinal, como ensina a política local: Renunciar é ato individual. Mas deixar renunciar… isso já é demais.
*Artigo publicado originalmente no site da Lexum.
*Arthur Bezerra de Souza Junior – Advogado, Economista e Cientista Político. Doutor em Direito Político e Econômico pelo MACKENZIE com estágios de pós doutorado pela UERJ e USU. Professor na pós graduação Lato Sensu em Direito no MACKENZIE. É o atual Secretário de Assuntos Jurídicos de Araçatuba-SP. Autor da livro Brasil em Trânsito: entre dependência e liberdade econômica.



