Entendo festejar a derrota de Le Pen, mas não comemorar tanto a vitória de Macron

Há uma espécie de “liberal” bem ingênuo, ou que, no fundo, se colocado contra a parede, assume sua inclinação esquerdista revolucionária. Esse tipo de “liberal”, um tanto distante do liberalismo clássico que defendo, que tem simpatia até pela sangrenta Revolução Francesa, ficou muito feliz com a vitória de Macron na França este domingo.

Eu até entendo um liberal festejar a derrota de Marine Le Pen, nacionalista demais, protecionista demais, apesar de compreender quem faz a opção por ela como uma escolha menos pior para os temas mais macros, como a própria soberania nacional frente a um projeto globalista de transferência de poder para “burocratas sem rosto” em Bruxelas. Mas ficar saltitante com a vitória de Macron? Prudence, messieurs!

Quem é esse jovem que surgiu do nada, saindo do mercado financeiro e das hostes socialistas? Tem mesmo credencial de liberal só porque adotou um discurso mais liberal na campanha? É mesmo um moderado só porque adotou fala mansa e recebeu o apoio de toda a mídia mainstream? Mais cautela não faria mal algum a esses “liberais”.

Nessa reportagem da Gazeta, há um resumo de quem é Macron, apesar de pouco se saber efetivamente dele e de suas ideias. Há mais dúvidas do que certezas acerca de quem ele realmente é. Mas basta lembrar que militou, em sua curta vida política, sempre à esquerda, ao lado de socialistas, e que resolveu chamar seu partido de “marcha”, dando ênfase ao seu aspecto revolucionário.

Por isso penso que textos como o do escritor Mario Vargas Llosa deveriam ser lidos com bem mais reserva.O prêmio Nobel de literatura e militante da causa “liberal” com cores globalistas parece encantado com Macron, e justamente com seu lado mais preocupante, que é o de revolucionário. Tomou como fato sua inclinação liberal, dando mais peso às palavras vazias de um político em campanha do que às ações de quem sempre foi socialista. Diz Vargas Llosa, em tom forçado que parece de um livro seu de ficção:

Apesar da previsão das pesquisas, o triunfo de Emmanuel Macron, ou, melhor dizendo, de tudo o que ele representa, é uma espécie de milagre na França dos nossos dias. Porque, não nos enganemos, a corrente universalista e libertária, a de Voltaire, a de Tocqueville, a de parte da Revolução Francesa, a dos Direitos do Homem, a de Raymond Aron, estava tremendamente debilitada pela ressurreição da outra, a tradicionalista e reacionária, a nacionalista e conservadora – da qual o Governo de Vichy foi genuíno representante, e a Frente Nacional é emblema e porta-estandarte –, que abomina a globalização, os mercados mundiais, a sociedade aberta e sem fronteiras, a grande revolução empresarial e tecnológica do nosso tempo, e que gostaria de fazer a cronologia retroceder e voltar à poderosa e imarcescível França da grandeur, uma ilusão à qual a contagiante vontade e a sedutora retórica do general De Gaulle deram vida fugaz.

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[…]

Tudo isso é o que Emmanuel Macron quer mudar e assim o disse com uma clareza quase suicida ao longo de toda a sua campanha, sem ter cedido em momento algum a concessões populistas, porque sabe muito bem que, se as fizer, no dia de amanhã, no poder, será impossível para ele levar adiante as reformas que tirem a França de sua inércia histórica e a transformem em um país moderno, em uma democracia operacional e, como já é a Alemanha, na outra locomotiva da União Europeia.

[…]

O europeísmo de Macron é uma de suas melhores credenciais. A União Europeia é o mais ambicioso e admirável projeto político da nossa época e já trouxe enormes benefícios para os 28 países que fazem parte dela. Todas as críticas que podem ser feitas a Bruxelas são suscetíveis de conduzir a reformas e adaptações às novas circunstâncias, mas, ainda assim, graças a essa união os países membros pela primeira vez em sua história têm desfrutado de uma coexistência pacífica tão longa, e todos eles estariam pior, economicamente falando, do que estão se não fosse pelos benefícios que a integração lhes trouxe. E não acredito que se passem muitos anos até que o Reino Unido descubra isso, quando as consequências do insensato Brexit se fizerem sentir.

Há controvérsias, muitas controvérsias! Essa visão de que foi a União Europeia que garantiu a paz na região é contestada por vários pensadores sérios, que lembram, inclusive, das intenções originais do projeto: domar a Alemanha e instituir um governo europeu centralizador. Eram, do lado francês mesmo, socialistas, como Jacques Delors.

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Chamar Macron de “milagre” para a França é um exagero. Como contraponto a Vargas Llosa, ofereço o artigo de hoje do professor português João Carlos Espada, bem mais maduro e realista em sua análise. Eis um trecho:

Os democratas franceses — bem como os europeus e, em geral, os do resto do mundo — terão suspirado de alívio com a derrota eleitoral de Marine Le Pen na segunda volta das presidenciais francesas de ontem. Foi certamente o meu caso.

Uma boa parte de todos esses democratas terá também celebrado com euforia a vitória de Emmanuel Macron. Lamento ter de dizer que não foi o meu caso. Celebrei, certamente, mas sem euforia.

Não tenho nada de especial contra Emmanuel Macron (a não ser talvez o facto de o seu livro, que ainda não li, se intitular “Révolution”, e de ter fundado um partido com as suas iniciais). Mas tenho sérias reservas sobre o que se está a passar em França (bem como em vários outros países europeus).

[…]

Lamento ter de dizer que esses motivos de regozijo para tantos dos meus amigos são razões de apreensão para mim. Não sou admirador da juventude de Napoleão (nem mesmo do Napoleão mais maduro). Também não vejo como sintoma de bom gosto a criação de um partido com as iniciais do seu fundador. E não vejo razões empíricas para sustentar a opinião de que mudanças de fundo têm de, ou devem, ser feitas contra os partidos ou as instituições tradicionais. Em regra, são as revoluções, não as reformas de fundo, que costumam ser feitas contra ou à margem dos partidos e das instituições tradicionais.

Lamento ainda ter de acrescentar que não sou admirador de revoluções: em regra sabemos onde começam, mas nunca sabemos onde acabam.

[…]

Por outras palavras, não vejo qualquer razão empiricamente testável para dizer que o sentimento nacional se opõe necessariamente ao comércio livre e à globalização. Mas há razões para temer essa infeliz dicotomia entre “nacionalismo versus globalismo”: se as pessoas que sentem um legítimo orgulho nacional continuarem a ser confrontadas com essa dicotomia enganadora, podem acabar por escolher o protecionismo — pensando que estão a optar pelo sentimento nacional.

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Concordo com os alertas e a apreensão do professor, profundo admirador de Churchill e do legado cultural britânico, aquele mais cético e conservador. Ou seja, mais Burke, menos Paine. Ficar empolgado com revolucionários, ainda mais que até ontem eram socialistas, parece-me um disparate para um liberal genuíno.

O já mencionado Burke era um liberal Whig, mas “pariu” o conservadorismo moderno quando viu a empolgação infantil e utópica de revolucionários jacobinos na Revolução Francesa. Liberal algum deveria defender essa mancha negra da história francesa, que levou diretamente ao Terror e a Napoleão.

É muito cedo para dizer quem será Macron no poder, e esse é justamente o ponto: nenhum liberal deveria se animar muito, pois o que temos até aqui mostra que, na melhor das hipóteses, será uma espécie de Barack Hussein Obama francês. E algum liberal está mesmo disposto a defender o legado de Obama, um dos presidentes mais medíocres da América?

Repito: entendo um liberal festejar a derrota de Le Pen, mas não entendo um liberal saltitante com a vitória de Macron. Liberal fã de Le Pen é estranho, sem dúvida. Mas liberal fã de Macron é igualmente estranho. A única postura razoável que vejo para liberais clássicos no momento é aquela de apreensão pelo futuro da França, país que adora uma revolução e um governo dirigista, berço das ideias socialistas e das máfias sindicais. Acreditar que Macron será o sujeito a reformar isso tudo é um ato de esperança ou ingenuidade do qual não consigo participar…

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Rodrigo Constantino

Rodrigo Constantino

Presidente do Conselho do Instituto Liberal e membro-fundador do Instituto Millenium (IMIL). Rodrigo Constantino atua no setor financeiro desde 1997. Formado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ), com MBA de Finanças pelo IBMEC. Constantino foi colunista da Veja e é colunista de importantes meios de comunicação brasileiros como os jornais “Valor Econômico” e “O Globo”. Conquistou o Prêmio Libertas no XXII Fórum da Liberdade, realizado em 2009. Tem vários livros publicados, entre eles: "Privatize Já!" e "Esquerda Caviar".