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É preciso aceitar o resultado das eleições americanas

Nesse sábado, dia 7 de novembro, tivemos finalmente o resultado da eleição americana. A eleição que começou na terça dia 3 levou quatro dias para ter o seu resultado anunciado e o povo americano elegeu o democrata Joe Biden como o novo presidente dos Estados Unidos.

Antes de mais nada, deixo claro que não tenho a menor simpatia pelo Joe Biden ou pelo partido Democrata, jamais o apoiei e considero que essa foi uma eleição disputada entre dois candidatos que são a antítese do liberalismo: de um lado o protecionismo nacionalista de Donald Trump e do outro a social democracia expansionista e fiscalmente irresponsável do Biden, que inclusive sempre considerei o pior candidato nessa disputa. No entanto, Biden venceu e isso deve ser respeitado. Aparentemente isso não está sendo bem aceito pelo eleitorado de Donald Trump, que decidiu proliferar uma das maiores ondas de fake news já vista em uma eleição.

Antes mesmo do dia da eleição, já circulavam algumas teorias alegando fraudes eleitorais. Donald Trump já preparava o terreno para minimizar uma possível derrota. Devido à pandemia, a modalidade de votação via correio se tornou o principal método para evitar aglomerações e foi ela o principal alvo das primeiras teorias. Vale ressaltar que essa modalidade não é de agora; na eleição de 2016, por exemplo, 24% dos eleitores optaram por votar via correio e é um modelo considerado seguro.

No dia 16 de agosto, ocorria a primeira teoria: Donald Trump alertava sobre os supostos perigos de uma eleição realizada por meio da votação por correspondência, alegando que o serviço era mal administrado e que o processo seria propenso a fraudes. Em seguida, Trump tenta suprimir a modalidade de votação, segurando o repasse de recursos para os correios, um claro abuso de poder e uso indevido de poder do Estado para afetar um processo eleitoral.

Já no mês de setembro, quando começaram as votações antecipadas, Trump continuou com sua ofensiva contra a modalidade, alegando que isso geraria uma grande fraude eleitoral (obviamente não apresentou provas). Em comício na Carolina do Norte, o presidente chegou até mesmo a pedir que seus eleitores que decidiram votar pelos correios que votassem duas vezes, uma presencial e outra por correspondência, o que é crime.

Trump passou meses denunciando essa modalidade, incentivou eleitores a votarem presencialmente e na segunda, dia 2 de novembro, faltando um dia para a eleição, Trump alegou que o resultado eleitoral deveria ser anunciado no mesmo dia, antes da apuração dos votos por correspondência – uma clara tentativa de sabotar o processo eleitoral e anular a maior parte dos votos, já sabendo que a maior parte do eleitorado via correio votaria no democrata Joe Biden. Ou seja, o terreno já estava preparado para uma eventual derrota.

Chega o dia da eleição e, em uma apuração acirrada e disputada, no meio da contagem dos votos, começaram a surgir as primeiras teorias, todas propagadas pelo próprio presidente da República Donald Trump.

Já na madrugada do dia 4, ele já começa a publicar em seu twitter que coisas suspeitas estavam ocorrendo, que cédulas surpresas passaram a ser contadas. Quando os votos via correspondência começaram a ser contabilizados e Trump começou a ser ultrapassado em estados que antes liderava, o mesmo começou a alegar que estavam encontrando votos de Biden em todos os lugares, dando a entender que esses votos surgiam magicamente, além de alegar que “eles” estavam tentando fazer a vantagem dele na Pensilvânia e em Michigan desaparecer.

Tudo isso chegou no ápice quando no dia 5 de novembro Trump pediu em suas redes sociais para que a contagem dos votos fosse paralisada, para impedir que uma vitória do Biden ocorresse e que fosse ultrapassado nos estados em que ainda liderava. Um pedido claramente antidemocrático e iliberal. Além de alegar vitória em estados que não ganhou (como a Pensilvânia), ele também se autoproclamou o vencedor das eleições após ser confirmada a vitória de Joe Biden, dando a entender que não estaria disposto a aceitar o resultado.

Com isso, veio a enxurrada de teorias da conspiração propagadas pela alt-right e que obviamente chegaram aqui no Brasil também.

As fake news variam desde teorias de que 100 mil votos unânimes surgiram para Biden do dia para a noite, que existem estados com mais votos do que eleitores até chegar na tese esdrúxula de que pessoas mortas estariam votando.

Todas essas alegações podem ser facilmente refutadas e já foram devidamente checadas, mas vamos por partes.

Fake News #1 – Pessoas mortas votando

Uma das teorias mais bizarras é a de que haveria votos registrados de pessoas mortas, uma suposta fraude para garantir a maioria para Joe Biden. O famoso site alt-right Breitbart News chegou a alegar que 21 mil pessoas mortas teriam votado na Pensilvânia; já o Ítalo Lorenzon do canal Terça Livre publicou uma imagem que alegava que 2500 pessoas mortas teriam votado na cidade de Detroit e que haveria até mesmo um eleitor nascido em 1893.

Ambas as informações são obviamente falsas. Em checagem realizada pela Politifact (um dos principais institutos de checagem do mundo), foi constatado que a tal imagem que viralizou nas redes sobre a suposta fraude em Detroit na verdade não era uma imagem da eleição de 2020, mas sim uma imagem publicada no ano de 2019 relacionada a uma ação movida pela Public Interest Legal Foundation, uma instituição trumpista que alegava abrir processos para corrigir supostos problemas eleitorais na cidade, que no momento era acusada de não manter uma lista eleitoral precisa e atualizada. A Public Interest Legal Foundation entrou com ações similares em todos os estados no ano de 2019, apenas com o intuito de manter os cadernos eleitorais atualizados. No caso de Detroit, o processo não alegava em momento algum que humanos vivos se passavam por pessoas mortas para votar. Vale ressaltar também que o processo se encerrou muito antes da eleição, em 29 de junho deste ano, após ser constatado que os funcionários eleitorais conseguiram corrigir e atualizar o seu caderno eleitoral. Quanto ao suposto eleitor que nasceu no ano de 1893, ele jamais existiu, tratando-se somente de um erro tipográfico.

Quanto aos 21 mil mortos da Pensilvânia, esse foi talvez um dos boatos mais perigosos, chegando a ser compartilhado por mais de 11 milhões de pessoas; no entanto, mais uma vez, tudo isso era falso. A origem está mais uma vez em um processo movido em outubro deste ano pela Public Interest Legal Foundation, que acusava falsamente o estado de incluir 21 mil mortos na lista de eleitores, em uma tentativa de impedir o processo eleitoral nesse estado. O juiz John E. Jones respondeu no dia 20 de outubro que não poderia privar eleitores potencialmente elegíveis por conta de uma alegação de uma instituição privada, gerando assim mais uma derrota para a fundação. Um porta-voz do gabinete do procurador geral da Pensilvânia também disse: “O tribunal não encontrou nenhuma deficiência na forma como a Pensilvânia mantém seus cadernos eleitorais. Atualmente, não há provas de que qualquer pessoa falecida tenha votado nas eleições de 2020”.

Outras teorias alegavam também que pessoas mortas estariam votando em Michigan, algo também verificado e negado pelo próprio departamento de estado de Michigan.

Fake News #2 – Mais de 100 mil votos apareceram misteriosamente para Joe Biden no Michigan e eram todos unânimes

Essa teoria alega que Joe Biden recebeu do dia para a noite na contagem dos votos novos cerca de 138 mil votos e que todos os votos novos eram unânimes para o Biden, um suposto indício de fraude. No entanto, mais uma vez, isso não aconteceu. Essa teoria foi propagada pelo republicano Matt Mackowiak; no entanto, o mesmo apagou a sua postagem e se retratou no Twitter, admitindo que tinha cometido um engano e espalhado uma notícia falsa.
Infelizmente isso não foi o suficiente, pois o próprio presidente Donald Trump acabou compartilhando a notícia falsa.

Como explica Drew McCoy, porta voz do Decision Desk HQ, não houve votos misteriosamente revelados, votos unânimes ou fraude eleitoral, mas apenas um erro de dados momentâneo que foi tirado de contexto (e quem tirou assume o erro). Logo em seguida foi produzida uma contagem atualizada.

Fake News #3 – Alguns estados tiveram mais votos do que eleitores

Essa é literalmente a mais fácil de refutar, pois basta olhar os registros do próprio estado e abrir a apuração de votos para ver quantos votos esse estado teve, mas infelizmente muitos caíram nessa mentira e mais uma vez espalharam para milhões de pessoas.

O conservador Mike Coudrey ajudou a difundir essa fake news, alegando que no estado do Wisconsin houve mais votos do que eleitores e que o número total de eleitores registrados era de 3.129.000 enquanto o número total de votos expressos seria de 3.239.920. No entanto, mais uma vez uma afirmação falsa e facilmente verificável, pois o número atual de eleitores em Wisconsin é de 3.684.726, muito maior do que os 3.2M que votaram. Obviamente, o autor do post também o deletou logo depois.

Como podemos notar, são vastas as fake news acerca do pleito eleitoral; no entanto, todas já foram devidamente checadas e rebatidas. A Politifact também fez um ótimo trabalho checando todos os tweets e declarações feitos por Donald Trump durante o período eleitoral.

Outras alegações, como a de que o Biden teve uma vantagem esmagadora nos votos via correio, também podem ser facilmente explicadas. Enquanto Trump espalhava teorias conspiratórias e incentivava seu eleitor a votar presencialmente, Joe Biden apostou no voto via correspondência, incentivando seu eleitorado a votar nessa modalidade. Pesquisas realizadas em agosto já indicavam que Biden teria esmagadora vantagem no voto por correspondência, visto que quase 50% do eleitorado democrata estava disposto a votar por correio contra apenas 11% dos eleitores de Donald Trump.

Outros também alegam que Trump tem o direito de pedir a recontagem dos votos e recorrer na Suprema Corte, como fizeram Al Gore e Hillary Clinton. De fato, isso é verdade, ele possui esse direito, mas não situações comparáveis. Enquanto Gore e Clinton pediram recontagem somente após o término da apuração, Trump pedia uma paralisação da contagem de votos ainda no meio da apuração, com o intuito de paralisar um processo eleitoral. Trump também pedia recontagem em estados que sequer tinham terminado a sua apuração. Ou seja, situações bem distintas, embora Trump ainda tenha o direito de pedir a recontagem, direito esse que certamente será exercido.

Os fatos mostram o óbvio: Joe Biden foi eleito o presidente dos Estados Unidos. Enquanto isso, Trump e sua militância tentaram de todas as formas interferir, adulterar e paralisar o processo eleitoral, tudo isso por meio de uma onda de notícias falsas que tinham como intuito provocar a descrença nesse processo. Não só isso: podemos perceber que Trump preparava esse terreno há pelo menos um ano, desde os processos da Public Interest Legal Foundation em novembro, tudo com o intuito de já ter denúncias (falsas) preparadas para o caso de derrota. Os ataques constantes à votação via correio feitos durante o ano de 2020, em um momento em que todas as pesquisas indicavam a sua derrota, também mostram que ele já preparava uma narrativa de fraude muito antes da eleição, com o intuito de minimizar sua derrota e colocar asteriscos no próximo presidente eleito. Algo que ele também fez em 2016, quando, meses antes das eleições, ele já preparava o terreno, alegando que os democratas preparavam uma fraude eleitoral, tudo isso para fomentar a sua guerra de narrativas.

Joe Biden definitivamente não é um liberal, mas é sim o presidente legítimo dos Estados Unidos e não há nada mais vergonhoso do que liberais e direitistas brasileiros abraçando uma narrativa antiliberal produzida pela alt-right dos Estados Unidos.

Lucas Sampaio

Lucas Sampaio

É um liberal radicalmente pragmático, defensor da polarização e adepto dos métodos da Guerra Política de David Horowitz e Saul Alinsky. Estudante de Direito e Presidente da Juventude Libertária de Sergipe, membro da Rede Liberdade. Faz análises políticas sob um viés liberal/libertário e escreve sobre realpolitik, Guerra Política, Guerra de Narrativas, táticas de persuasão, como debater e como difundir as ideias de liberdade de maneira prática e sem ideologismos.