Dilma, Cuba e o fantasma podre do Foro de São Paulo

Corria o ano de 1990 e o Partido dos Trabalhadores teve a brilhante ideia de reunir toda a escória política da América Latina que estava enlutada com a queda do Muro de Berlim. O Foro de São Paulo nasceu com os olhos vorazes para cima dos países mais expressivos da região, como Brasil e Argentina, e com os sonhos molhados voltados para a tirania cubana de Fidel Castro.

Muita coisa aconteceu depois disso: Hugo Chávez, Evo Morales, Rafael Correa, a Unasul e, principalmente, Lula. José Dirceu, mentor do lulopetismo, mostrava, em entrevista para a TV Cultura, o quanto tal exército de baluartes da naftalina “anti-imperialista” estava exultante com as perspectivas de seu, este sim, império de velhacaria e sordidez.

“Nós criamos o Foro de São Paulo, que lutava para isso”, e também o “Grupo de Marbella”, desdobramento da rede sinistra do qual, com algumas exceções, como Ciro Gomes – oxalá continue assim! -, todos os membros se tornaram presidentes da República em seus países. Surfando na onda das commodities e na ilusão das piruetas economicamente heterodoxas, alimentaram meio mundo de ditadores e reformistas mal-intencionados de Constituições, patrocinando todos os tipos de desastres e aparelhamentos de Estado.

Julho de 2018. O Foro de São Paulo está novamente reunido, como faz anualmente, desde aquele já distante 1990. O público está empertigado para ouvir uma ilustre oradora que, com seu andar tonto e expressão carrancuda, se preparava para um interminável discurso de quarenta minutos.

Era Dilma Rousseff. Para facilitar a tarefa quase super-humana de assistir à sua palestra, Dilma fez o favor de, ainda que com suas pausas nada aprazíveis e improvisações erráticas, ao menos trazer escrito o seu discurso. As ladainhas de sempre: a importância do Foro como reação aos governos “neoliberais”, de combater o terrível Consenso de Washington e a desigualdade social, o quanto o impeachment que sofreu foi um “golpe parlamentar” e, em especial, por que Lula é inocente, deveria estar solto e o PT insistirá em tê-lo como candidato.

Seguiram-se palmas estrepitosas e gritos de “Lula livre” por parte do público de zumbis e múmias – ou, antes disso, fantasmas, e fantasmas malcheirosos. Um odor de podre sentido à distância, como que vindo de algo que já virou carniça, que já está fora de lugar, fora de época; algo que alguém se esqueceu de enterrar. De fato, ressalvadas desde já as precauções que devemos ter antes da ousadia indevida de decretar que o fantasma não mais nos assombra, é alvissareiro que quem se reunia mais para comemorar os portos de Mariel, as assembleias constituintes, as eleições “sem direita” e a tinta vermelha sendo derramada sobre a maioria dos países do sofrido continente, agora se encontre para discutir como tirar bandidos da cadeia.

O que mais chamou a atenção no discurso de Dilma foi a referência ao fato de que o PT insistiria com Lula para a eleição de outubro, não por não conseguir encontrar nenhum outro líder com a mesma relevância, com o mesmo impacto, com a mesma repercussão eleitoral. Não; é porque, segundo ela, os petistas não podem ser “algozes” do ex-presidente. Não podem castigá-lo, fazendo o jogo dos “golpistas”.

Essa justificativa nada convincente é uma clara demonstração de fraqueza do petismo. Tivessem os petistas outro “herói” ainda não decaído e já o estariam usando. O golpe – palavra que eles adoram – que levaram nas fuças foi muito duro. As alegações a que ficaram reduzidos mostram isso. Perder o domínio do Brasil, com o impeachment e o fim do imposto sindical; perder os aliados kirchneristas na Argentina; assistir à ascensão de lideranças antibolivarianas nos países da América Latina e ver sua galinha (ou molusco) dos ovos de ouro atrás das grades não passou como se fosse nada. Eles sentiram.

Não nos iludamos, entretanto. O fantasma exala miasma – e, para usar uma metáfora empregada por Dilma, que se referiu aos liberais, conservadores e “golpistas” como exatamente uma praga a corroer de dentro o Brasil, sua fumaça, seu gás venenoso, suas teias permanecem onde eles as deixaram.

No Brasil, o governo Temer conseguiu segurar um país à beira do precipício, mas as recentes medidas do Congresso, podendo deixar para o próximo governo um problemão de R$ 100 bilhões de reais de prejuízo, parecem indicar que é muito real o risco de ter sido apenas um “enxuga-gelo” com grife. O Judiciário, particularmente o STF, é uma ameaça constante, repleto de petistas e peças de um jogo montado pela coalizão de políticos que compuseram com eles o esquema criminoso dentro da máquina pública que vinha vigorando nos últimos tempos. Estão a postos para, é bem possível, não deixar que se governe o país a contento.

Toda essa confluência de óbices pode explodir no colo de um presidente que, se for um Ciro Gomes da vida, tornará tudo pior ainda. Enquanto isso, é claro, o Foro ganha tempo. Os fantasmas são podres, cheiram pior que cadáveres, mas eles seguem rondando e têm muita, muita paciência. Quando acharmos que já seguiram seu caminho definitivo rumo ao além, eles não se escusarão de regressar para reinstalar seu império, ainda que sob novas bases.

O vaticínio de alguns de que o tempo do Foro de São Paulo e do bolivarianismo já passou corre o risco de ser precipitado. O México foi conquistado com a eleição de López Obrador, que terá seis anos para, se desejar, se tornar uma espécie de novo Lula para o esquema internacional da esquerda, na boca dos Estados Unidos.

A ditadura cubana segue, fazendo adaptações, mas preservando o regime do partido único. A notícia deste fim de semana é que uma reforma constitucional criará a figura do primeiro-ministro e reconhecerá – apenas agora – a propriedade privada. Repaginadas, retocadas em um velho mal: eles são bons nisso. Fizeram para parecer que representavam outra coisa, quando suas atas deixaram claro que queriam recuperar “o que foi perdido no Leste Europeu”. Não se espantem se conseguirem de novo.

As boas cabeças da América Latina precisam se unir. Não podemos acreditar que nosso continente esteja condenado à mediocridade, ao domínio dos patrimonialistas, dos tiranos e dos parasitas. Nós, brasileiros, começaríamos bem em outubro, não elegendo, em hipótese alguma, políticos que acham que a oposição venezuelana é nazista ou que manifestem qualquer sinal de simpatia por essa força cancerígena que queremos extirpar.

Gostou do texto? Ajude o Instituto Liberal no Patreon!
Leia também:  O voto impresso e o voto platônico