De novo o messianismo antiliberal da família Bolsonaro

Flávio Bolsonaro está enrolado na Justiça e decide acusar seus denunciantes de montarem um complô contra sua família.  Jornalistas estão sendo atacados violentamente por terem defendido Gustavo Bebianno em vez de Carlos Bolsonaro. Esses dois casos ilustram exemplarmente o comportamento antiliberal da família Bolsonaro e de seus eleitores.

No primeiro caso, o senador acusa seus acusadores em vez de se defender devidamente, se esquiva das denúncias de recebimento ilícito de dinheiro repetindo o mote lulopetista de “estou sofrendo perseguição política”. No segundo caso, uma polêmica obscura e duvidosa sobre Gustavo Bebianno e Carlos Bolsonaro atiçou os ânimos bolsonaristas contra jornalistas que, muito razoavelmente, se dispuseram a ouvir os dois lados da briga.

Um dos ícones do jornalismo independente e antissocialista, Felipe Moura Brasil foi acusado por bolsonaristas de ser, vejam só, falso e traidor da nação, porque convidou Gustavo Bebianno ao estúdio do programa Os Pingos nos Is para que o ex-ministro respondesse às acusações de Carlos Bolsonaro. Enquanto isso, o senador Flavio Bolsonaro se põe retoricamente acima do processo judicial, como um santo inatingível pelas leis mundanas dos homens mortais.

Note-se que não se trata de discutir se Bebianno traiu mesmo o governo ou se Flavio Bolsonaro é mesmo inocente e não tem nada a ver com as eventuais irregularidades de seus assessores. Tudo isto escapa à percepção sensível de todos nós e só pode ser tema de especulações. O que interessa aqui é o comportamento fanático dos bolsonaristas e a retórica vitimista do senador Flavio. Em relação à polêmica Bebianno, trata-se de um movimento bovino de agressão cega a presumíveis inimigos do governo. Sobre Flavio Bolsonaro, trata-se de um discurso antiliberal que põe em cheque a credibilidade do processo legal e mesmo da liberdade de imprensa.

Nos dois casos, o que vemos é um messianismo estúpido e antiliberal. A política é mundana, lida com homens sujos e pecadores. Nenhum deles está acima das leis ou imune a críticas e denúncias. Porém, Felipe Moura Brasil foi perseguido como um herege na religião civil do bolsonarismo, e o sacerdote Flavio Bolsonaro foi enaltecido pelos fiéis como inocente das acusações blasfemas que recebeu. Se a democracia liberal é fundada na autoridade impessoal e intransigente das leis, na secularização do poder político, então a família Bolsonaro e seus eleitores estão na contramão da História.

Minha primeira publicação no Instituto Liberal alertava para os perigos do messianismo em torno de Jair Bolsonaro. Meu argumento era simples e objetivo: o culto à personalidade do líder político é uma prática antiliberal. Ouvi de amigos próximos que meu texto seria publicado sem grande repercussão, porque, diziam eles, eu não estava dizendo nenhuma novidade. Argumento batido. De fato, espera-se de todo adulto que não caia de amores por nenhum político.

Mas eu percebi – como qualquer pessoa razoável perceberia – que Jair Bolsonaro poderia ser um bom presidente da República, desde que seus eleitores não o vissem como herói salvador da pátria ou como um segundo Messias enviado por Deus ao Brasil. Se os cidadãos o vissem como salvador da nação, eles logo se frustrariam ao perceber os sinais de humanidade em Bolsonaro, o que poderia dificultar sua governabilidade. Em outras palavras, se fosse louvado como ídolo, o presidente iria naturalmente decepcionar seus eleitores ao mostrar-se humano, falível e mortal.  Destaco o seguinte do meu texto:

“A história política do Brasil, segundo historiadores e cientistas sociais, é marcada pelo personalismo desde a transição atrapalhada da monarquia para a república. O povo comum do Brasil se acostumou a admirar a figura venerável de dois imperadores e, com a instalação da república, passou a enxergar nos presidentes as mesmas figuras carismáticas e magnéticas dos monarcas. É claro que é difícil nos desembaraçarmos das teias do personalismo, mas é uma tarefa urgente para o Brasil: fugir do messianismo e encarar a política como uma disputa mundana por poder, não como uma arena de lutas entre forças do bem e do mal”.

É verdade que o presidente da República merece nosso apoio e só deve ser criticado em caso de flagrante equívoco. Mas sua família não pode receber sua autoridade e prestígio como a lua que recebe o luz do sol. Além disso, jornalistas como Felipe Moura Brasil não tem nenhum compromisso partidário com a família Bolsonaro e não podem ser escorraçados publicamente por receber ex-membros do governo para fazer jornalismo.

O governo Bolsonaro está no começo e já tomou passos importantes em direção à modernização do Estado e à retomada do crescimento econômico. É preciso, no entanto, evitar a euforia e sempre pensar o presidente da República como o nosso funcionário, não como nosso deus. Como escreveu Flaubert em Madame Bovary, “não é bom tocar no ídolo; o dourado pode sair nos dedos”.

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