Crivella e as benesses para evangélicos: a solução é menos Estado

Causou revolta generalizada a notícia de que o prefeito do Rio de Janeiro teria se comprometido a atender determinadas demandas de líderes religiosos em benefício dos adeptos de sua crença— tais como isenção de pagamento do IPTU para templos evangélicos, realização de melhorias urbanas em seu entorno e atendimento privilegiado a fiéis na rede de saúde pública municipal. Só […]

Causou revolta generalizada a notícia de que o prefeito do Rio de Janeiro teria se comprometido a atender determinadas demandas de líderes religiosos em benefício dos adeptos de sua crença— tais como isenção de pagamento do IPTU para templos evangélicos, realização de melhorias urbanas em seu entorno e atendimento privilegiado a fiéis na rede de saúde pública municipal.

Só que o problema aqui vai muito além de um suposto conluio entre pastores e gestores públicos: enquanto o Estado brasileiro seguir drenando mais de 40% da riqueza criada em nosso país, será prática corriqueira que os grupos com maior capacidade de influência sobre o governante da vez logrem obter vantagens, às custas de impostos cobrados daqueles incapazes de pressionar as autoridades estatais.

Este episódio, afinal, em nada difere de situações nas quais empresários de um determinado ramo fazem lobby junto ao Presidente do BNDES pela concessão de empréstimos a juros menores do que os praticados no mercado — sendo o déficit suportado pelos demais cidadãos.

O mesmo se observa quando uma entidade de classe qualquer demanda a legisladores, especialmente em função do alto desemprego, que criem exigências legais para o desempenho de certas atividades laborais — prejudicando indivíduos incapazes de atender a tais requisitos, bem como garantindo o trabalho e valorizando artificialmente a mão de obra daqueles protegidos pela legislação.

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A mesma lógica está contida na associação de bairros que pede reforço no patrulhamento policial em sua própria região, naquele que clama que sejam construídos uma creche ou um posto de saúde na frente de sua casa, ou quando caminhoneiros bloqueiam estradas exigindo tabelamento de fretes e combustíveis.

Inúmeros casos do gênero poderiam ser citados a título de exemplo, e todos são desdobramentos da mesma conjuntura: as pessoas enfrentam intermináveis agruras causadas pela alta carga tributária e pela indevida intervenção estatal na economia — que barra o desenvolvimento da nação e impede o enriquecimento da população; como consequência, vira hábito uma espécie de rent seeking social, onde cada um tenta lograr para si um maior retorno daquela enorme gama de recursos concentrada na administração pública, e procura obter favorecimentos de toda ordem.

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Quer dizer, a classe política cria dificuldades para vender facilidades— seja em troca de dinheiro ou apoio eleitoral — , e este fenômeno será tão mais acentuado quanto maior for o caos instaurado pelos próprios condutores da máquina estatal e menor for o grau de independência dos comuns em relação às instituições governamentais e serviços públicos.

Se alguém duvida, façamos o seguinte exercício de imaginação: supondo que Marcelo Freixo tivesse vencido a eleição em 2016, será mesmo que não haveria direcionamento de verbas da prefeitura para ONGs desarmamentistas e demais coletivos que advogam a impunidade de criminosos? Esse pessoal, no entanto, deve estar engrossando o coro pelo impeachment de Crivella. Indignação seletiva é a marca registrada dos psolistas e seus idiotas úteis.

Não tem jeito: a destinação do conteúdo dos cofres estatais sempre irá seguir a regra da pelada de futebol — isto é, a bola é de quem pegar primeiro ou gritar mais alto.

Por isso, antes de descer o malho nos crentes, pense que, enquanto você briga com eles, a mesmíssima coisa, na forma de inúmeras diferentes facetas, está acontecendo Brasil afora. Ou reduzimos a presença do Estado e o peso das decisões dos burocratas em nossas vidas, ou a velha máxima segundo a qual “quem não chora não mama” seguirá ditando o comportamento de nosso povo. À medida que cada um puder se virar por conta, esta cultura de bater à porta do gabinete do prefeito solicitando privilégios tende a perder força.

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Ninguém é santo a ponto de ter tanto poder e dinheiro em mãos e não pecar. Com políticos não é (nem um pouco) diferente.

Amém — e olha que não sou religioso, hein…

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