Como políticos usam a economia para ganhar eleições

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Os políticos, como mostra a teoria da Escolha Pública, não são santos nem heróis. Pelo contrário, são pessoas como qualquer outra, que respondem a incentivos e pensam nos próprios interesses. Para a surpresa de zero pessoas, o maior interesse de um político é se manter no poder.

O Ciclo Político-Econômico nasce dessa lógica. Ele aplica ferramentas da economia para entender como governos se comportam perto das eleições em democracias. A ideia básica é simples. Como políticas econômicas afetam a vida das pessoas, elas também afetam votos. Por isso, quando a eleição se aproxima, cresce o incentivo para adotar medidas que gerem alívio ou sensação de melhora no curto prazo, mesmo que criem custos no médio e longo prazo.

O sistema democrático recompensa políticos por comportamentos assim. Em ano eleitoral, é comum ver aumentos de gastos que estimulam a atividade e reduzem o desemprego no curto prazo. O problema é que esse tipo de estímulo tende a pressionar a inflação e piorar as contas públicas.

A teoria do ciclo político-econômico nos ensina que, perto das eleições, os políticos que estão ocupando cargos tendem a gastar mais. Esse gasto aparece em forma de obras, aumento ou criação de benefícios, eventos, concursos com a intenção de criar sensação de prosperidade e aumentar a aprovação do governo.

Isso acontece porque eleitores, na maioria das vezes, responsabilizam o governo quando as coisas vão mal. Quanto pior a economia, menor a aprovação e, consequentemente, menores as chances de vitória.

No fim, um governo acaba sendo formado por indivíduos auto interessados tentando encontrar a combinação de inflação e desemprego que rende o maior número de votos possível. Depois que a eleição passa, chega o momento de “apagar o fogo”. Gastos são cortados, juros sobem para conter a inflação, a economia esfria e a inflação cede, mas o desemprego volta a subir. O ciclo se repete porque o incentivo político continua o mesmo.

A democracia tem uma concentração de interesses heterogêneos. A própria população que vota se contradiz. Como pagadores de impostos, todos querem pagar pouco, mas, quando são beneficiários, a mesma população apoia qualquer tipo de privilégio.

Por conta dessa dinâmica, os políticos têm grandes incentivos para manipular a política fiscal com gastos em coisas inúteis – como estradas que não levam a lugar nenhum – ou transferências de renda que vão aumentar a demanda e aquecer a economia para instrumentalizar a votação ao seu favor.

Vamos analisar algumas eleições no Brasil:

Em 2002, a disputa foi entre Lula (PT) e José Serra (PSDB).


*Segundo turno: 27/10/2002

Em 2010, a disputa foi entre Dilma (PT) e José Serra (PSDB).


*Segundo turno: 31/10/2010 Fonte: Banco Central e IBGE

O governo é, em grande medida, responsável pela inflação e tem contribuído fortemente para a sua alta. Seus gastos influenciam o nível de atividade e o desemprego. Os impostos interferem diretamente nas decisões privadas de milhões de pessoas.

Basta lembrar que tributos mudam preços relativos, encarecendo alguns bens e barateando outros. Ao escolher quem paga mais e quem paga menos, o Estado usa o sistema tributário para manipular preços e distribuir vantagens. Tudo depende de qual setor garante mais votos.

O governo também interfere no comércio internacional, criando regras e barreiras para favorecer setores nacionais. O resultado disso é você pagando mais caro e o governo recebendo mais apoio dos grupos beneficiados.

No Brasil, a grande jogada é inaugurar obras. Como o político federal controla grande parte do orçamento, ele usa esse recurso para comprar apoio político local. Deputados e senadores conseguem direcionar dinheiro por meio de emendas parlamentares, seja individual, de bancada ou de comissão.

O parlamentar escolhe um município onde ele já tem uma base sólida ou onde quer construir uma. Quase sempre, isso depende de um aliado fundamental: o prefeito. É o prefeito quem tem as secretarias, a equipe e o poder de executar a verba. No fim, é ele quem transforma o orçamento em marketing, e o marketing em voto.

O vereador entra como a linha de frente. Ele faz a política de bairro, conhece as pessoas, visita as famílias, mobiliza a comunidade e organiza o evento de inauguração. É ele quem garante que a obra “tenha dono” na cabeça do eleitor.

A inauguração vira o grande momento eleitoral. O prefeito e os vereadores agradecem o deputado que mandou a verba e repetem o roteiro de sempre: “sem ele, isso não seria possível”. O deputado aparece como salvador da cidade, retribui os elogios e tira a foto que vai render votos.

Na prática, são indivíduos reagindo aos incentivos. Eles calculam o caminho mais eficiente para manter apoio, ganhar eleição e sustentar poder. Por isso, eleger “as pessoas certas” não resolve o problema de verdade. O sistema premia quem faz o processo político funcionar – e reformar a natureza humana é impossível.

Na próxima eleição, faça um experimento simples. Observe os indicadores alguns meses antes. Veja gastos, inflação, crédito, impostos e promessas. Depois, compare quais medidas o governo vai tomar após uma eleição vitoriosa.

Referências

DOWNS, Anthony. Uma Teoria Econômica da Democracia. Editora da Universidade de Sao Paulo.

NORDHAUS, William D. The political business cycle. Review of Economic Studies, Oxford, v. 42, n. 2, p. 169‑190, 1975.

Buchanan , James ; Tullock, Gordon . O Cálculo Do Consenso: Fundamentos Lógicos Da Democracia Constitucional. Rio de Janeiro: Instituto Liberal, 2021.

MUELLER, Dennis C. Public choice III. Cambridge: Cambridge University Press, 2003.

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Adriano Dorta

Adriano Dorta

É estudante de economia, com foco de pesquisa em escolha pública e economia política.

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