Como burocratas do governo prejudicaram o agronegócio

A carne “podre” não era podre. A “carne de papelão” não era de papelão. A carne podre não era podre. A culpa era do fiscal. Resumi nestas quatro freses acima a Operação Carne Fraca. Parece até um poeminha de versos livres. Fiscais corruptos de superintendências do Ministério da Agricultura corromperam funcionários de grandes frigoríficos. Mais […]

A carne “podre” não era podre.

A “carne de papelão” não era de papelão.

A carne podre não era podre.

A culpa era do fiscal.

Resumi nestas quatro freses acima a Operação Carne Fraca. Parece até um poeminha de versos livres. Fiscais corruptos de superintendências do Ministério da Agricultura corromperam funcionários de grandes frigoríficos. Mais um caso do velho conto do funcionário público que pede propina para “facilitar” as coisas. Rodrigo Constantino resumiu bem essa relação promíscua entre setor público corrupto que corrompe o setor privado:

Quando se criam regras demais, arbitrárias e muitas vezes inviáveis de serem cumpridas na íntegra, o caminho está aberto para os esquemas que favorecem os grandes, e matam os menores. O governo cria dificuldades legais, e vende facilidades ilegais depois. Quem pode pagar mais? Os grandões.

Um Estado hipertrofiado cria milhares de normas, portarias, leis, decretos, códigos etc. Para aplicar essa burocracia crescente, cresce também o poder dos fiscais, que teoricamente deveriam aplicar as normas criadas pelo governo. Com a burocracia ascendente, cresce a onipotência do burocrata. Ora, quem cria pedágios não pode reclamar de que se paga para transitar a estrada. O Estado faz justamente isso: deu a si mesmo poderes onipotentes e onipresentes, poderes que apenas a propina dos ricos vence. Não é aqui uma defesa da propina, mas é fato que quanto mais poderoso é o Estado, mais corrupto e corruptor ele se torna. Não é o empresário que suplica ao burocrata que este peça propina. É o burocrata que invariavelmente cobra os seus 10%. Quem cobra pela passagem é o pedágio, não o motorista, este apenas curva a cabeça, paga e passa. Quem pede propina é o burocrata e o político,  não o empresário que paga.

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O setor de carnes brasileiro é uma ilha de excelência que gera pelo menos 6 milhões de empregos. Dos 4.837 frigoríficos apenas três foram fechados por irregularidades. Há sim problemas, mas estes são pontuais. A imagem do agronegócio brasileiro, contudo, foi destruída num escândalo que proporções mundiais.

O estado hipertrofiado corrompe o produtor e depois vem acusá-lo de ser corrupto. Foi isto que aconteceu. 33 funcionários do governo foram afastados. O prejuízo, infelizmente, caiu na conta da iniciativa privada. Boa parte do mundo barrou a carne brasileira, as ações do setor despencaram e, o mais importante, empregos foram perdidos. Na semana seguinte ao “escândalo da carne podre” as filas de demitidos se juntavam na frente das empresas do setor. No Paraná 280 pessoas já perderam o emprego. Imaginem agora no resto do Brasil. Somem o efeito em cadeia: o frigorífico não compra mais, o pecuarista não vende seu gado, o exportador não exporta, o caminhoneiro não tem o que transportar etc. O estrago será de milhares de empregos, com prejuízo de bilhões à combalida economia nacional.

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O agronegócio e toda a indústria alimentícia brasileira tiveram sua imagem destruída por um exército de burocratas. Numa ponta pelos burocratas que corromperam ao pedir propina, e na outra ponta pelos burocratas que criaram um show midiático para punir.

Havia problemas na carne, mas eram mínimos, pontuais, diante da excelência do setor. Se há crimes, que sejam investigados, e os bandidos punidos, mas sem show. Faltou cautela nesta operação. O setor de carnes da economia envolve o emprego e o sustento de milhões de famílias. Isso é muito sério.

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Estamos diante de mais um caso em que o estado gigante depreda e destrói a economia. E fará isso sem ser punido. Contudo, os empresários e empregados foram punidos com velocidade supersônica, uns com prejuízos bilionários, outros com a tragédia do desemprego. Enquanto isso os aristocratas da máquina estatal passarão incólumes, indiferentes do alto de seu trono de privilégios.

Sobre o autor: Antonio Pinho é mestre em Letras pela UFSC e atua como professor.

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