Como as ideologias autoritárias constrangem o diálogo com ideias liberais

“Toda ideologia que se preza é criada, mantida e aperfeiçoada como arma política e não como doutrina teórica.”  (Hannah Arendt)

Grandes nomes do pensamento humano já cometeram erros. Nós iremos cometê-los também. Entretanto, cientes disso, podemos tentar reduzi-los.

A ideologia é um destes enganos que ainda insistimos em cultivar. Ela estabelece um ‘filtro’ mental  de onde se processam mudanças na informação, enxertando-se no entendimento a ganga dos mais variados preconceitos.

Sua característica básica reside em fornecer um falso caráter de unidade ao sujeito (fazendo o mesmo sentir-se identificado com algum grupo), na medida em que ele divide, segrega, perde o senso acerca de si mesmo…

Observemos, neste caminho, quando pessoas se aglomeram em estádios de futebol para nobres fins de diversão ou prestigiar um esporte. Gente com diversos níveis de estudo, pacífica, termina por exercer gratuitamente condutas de ordem agressiva contra os adversários. Tão corriqueiro é o desatino que não conseguimos imaginar torcedores de times diferentes, os quais nunca se viram, chegando juntos ao jogo e convivendo lado a lado na arquibancada. Chama a atenção, além disso, o fenômeno da imitação automática, que redunda em cantos apaixonados, gritos de guerra e gestos sincronizados neste cenário impulsivo. Eis o grilhão da ideologia no futebol.

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Reparemos também nas mais variadas doutrinas religiosas que deveriam servir à condução saudável da coletividade, pois a esta foram chamadas para o exercício de paz e da concórdia social. Quantas, por conveniências egoicas, terminam por adotar a simonia e a interpretação literal dos textos sagrados. Distorções que emanam justamente das tentativas do homem em conjugar fé não-raciocinada ao pântano de seus vícios e ímpetos materialistas. Colocam-se as algemas da ideologia na religião.

Lancemos, ainda, um olhar sobre as tristes figuras humanas que saem às ruas para defender bandidos da seara eleitoral. Homens e mulheres, financeiramente bem-sucedidos, detentores de títulos acadêmicos, fazendo manifestações públicas em favor dum político vigarista. Assumem o papel das massas mais ignaras, olvidando provas criminais contra seu protegido, permitindo-se manipularem por discursos vitimistas e pela idolatria cega.

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Tornam-se indiferentes ao criminoso comum, recluso no cárcere por furtar comida enquanto glamourizam a persona do delinquente político, ‘guerreiro do povo brasileiro’, que lhes desperta estima e obediência. Evidencia-se o jugo da ideologia na política.

Nosso Brasil atual está impregnado de ideologia. Herança de movimentos autoritários, sua presença constrange o diálogo com ideias liberais, evita o respeito a diferentes ângulos de visão e coloca muros para o exercício da autoanálise. Ela aprisiona exatamente por fazer acreditar que, por intermédio dela, haurimos cada vez mais libertação.

Mas, afinal, já não seria hora de conquistarmos a verdadeira liberdade?

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Sobre o autor: Márcio Andrade – professor de escola pública estadual e municipal em Pelotas/RS.

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