Carlos III: O Ocaso dos Reis Britânicos, o fim da Liberdade Britânica

Um filme que muitos deveriam ver, e mesmo rever, durante suas férias de janeiro é o “recente” Rei Carlos III, uma adaptação de uma peça de teatro homônima, produzida pela BBC no ano passado. Este filme reflete o estado atual do poder e do imaginário político, no mundo ocidental, pois embora a trama se passe […]

Um filme que muitos deveriam ver, e mesmo rever, durante suas férias de janeiro é o “recente” Rei Carlos III, uma adaptação de uma peça de teatro homônima, produzida pela BBC no ano passado. Este filme reflete o estado atual do poder e do imaginário político, no mundo ocidental, pois embora a trama se passe exclusivamente dentro da política e do solo da Grã-Bretanha, é um reflexo das duras transformações na cultura política contemporânea na mente ocidental.

Após a morte da rainha Elizabeth II, o Príncipe Charles assume o trono. Ainda que a coroação oficial não ocorra, a cerimônia é apenas um símbolo do poder já consolidado de Charles, que, na realidade, se torna rei assim que sua mãe vem a falecer.

No início de seu reinado, o monarca se depara com uma lei vinda do Primeiro Ministro: uma lei que regulamenta a imprensa. Jornalistas e afins poderão ir para a prisão, se burlarem a lei. Tal medida visa o resguardo da privacidade, mas tem um efeito colateral: os políticos serão protegidos. Com a lei de privacidade, poderão tecer seus acordos por debaixo dos panos, o jornalismo investigativo iria para o ralo e as notícias sobre corrupção e jogos sujos e indevidos em toda a política britânica, seja em qualquer esfera, iria ser censurada pelo poder legal.

O rei é um dos que mais foi afetado pela perseguição vinda da imprensa. A princesa Diana, sua ex-esposa, morreu por causa de uma perseguição empreendida por paparazzis, que pretendiam fisgar cada pequeno detalhe de sua vida pessoal e vender para revistas de fofoca. A monarquia britânica, no tempo da morte de Diana, foi a que mais se impactou por isso – William e Henry, filhos de Charles e Diana, sofreram diretamente com o acidente que matou sua mãe.

Com todo este peso na consciência, o rei britânico não assina a lei. O Primeiro Ministro não dá ouvidos ao seu rei. A lei já está votada, a imprensa seria censurada (regulamentada, em uma linguagem mais polida e menos ácida, mascarando a realidade) pelo peso do legislativo, e nada mais poderia ser feito… mas o rei não assina a lei. A atitude de Carlos III provoca uma polêmica na nação. Metade dos seus súditos aprova sua atitude, e o parlamento se vê envergonhado, ultrajado e ameaçado pelo poder real.

Por causa das atitudes do monarca, os parlamentares votam uma lei para não ser mais necessária a assinatura cerimonial do rei, na aprovação de leis novas. Carlos III, no meio da votação, entra no parlamento e o destitui – com poderes reais, ele pode fechar o parlamento e convocar novas eleições, caso os políticos eleitos mostrem alguma traição e incompetência generalizada.

Em nome da liberdade de expressão de seus súditos, em defesa da tradição, o rei tem seu direito garantido. Carlos III não constituiu apoio popular para tal, não moveu as massas, não organizou a metade do país para apoia-lo, para rechaçar as leis contrárias a liberdade, e pagou caro por isso.

Nas semanas seguintes ao fechamento do parlamento, revoltas estouraram em todo o país. O rei manda guardas do exército e um tanque para proteger seu palácio da multidão enfurecida. Cartazes clamando o fim da monarquia se espalham pelas ruas, bonecos do rei são queimados, assim como a bandeira – o poder do rei se vê minado.

Pressionado por seus próprios filhos, Carlos III se vê obrigado a abdicar. William, em segredo, se mostra a favor do parlamento, toma o controle das forças armadas, acalma o povo. No fim, um novo rei e uma nova rainha são coroados, e Carlos III se vê sem trono, sem coroa. A cena final é: o rei toma a coroa das mãos do bispo de Westminster e coroa seu próprio filho.

O mecanismo que é a realeza britânica, salvaguardando o povo de seu próprio parlamento, é quebrado. A própria população é a culpada, assim como os restantes membros da família real, que não dão apoio ao seu rei. Carlos III se questiona: “para que eu sirvo?”; se ele apenas pode aprovar todas as leis que aparecem em sua frente, sem poder questiona-las, sem exercer poder algum.

Após seu brevíssimo reinado, o que restava do poder real britânico está em cacos. Mesmo William, como rei, será apenas um mero despachante de papéis. Não defenderá o povo, não será um escudo para a liberdade e contra uma provável tirania e corrupção do parlamento. A tensão tem seu ponto final: um mecanismo tradicional de contensão política é quebrado em nome do “novo”, os monarcas são apenas joias decorativas: de nada servem e, ao que tudo indica, terão um fim logo, uma vez que o questionamento da existência e do sustento de uma família real existe, no meio da população.

“Deus nos salve”, é o que Carlos III diz, no fim, seguido por um “Deus Salve o Rei!”, da multidão.

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