Brasília e a blindagem do poder

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Poucos países materializaram de forma tão visível a distância entre povo e poder quanto o Brasil. Entre nós, essa distância não foi apenas produzida por leis, ritos, cargos e privilégios. Ela também foi desenhada em concreto. Brasília não é somente a sede administrativa da República. É a forma espacial de uma cultura política que se habituou a governar de longe, a decidir de cima e a transformar a vida nacional em objeto de administração por um centro que se vê cada vez mais separado da realidade que pretende conduzir.

É preciso fazer a ressalva correta desde o início. Brasília não criou sozinha o divórcio entre governantes e governados. O Brasil já possuía longa tradição de centralização, patrimonialismo e hipertrofia estatal antes da inauguração da nova capital. Mas Brasília aprofundou esse processo, deu-lhe forma simbólica e o revestiu de monumentalidade. A cidade não inventou o vício do distanciamento. Ela o consolidou como cenário permanente da vida política nacional.

A promessa original da mudança da capital era grandiosa. Tratava-se de integrar o território, interiorizar o desenvolvimento, projetar modernidade e construir um novo marco da nacionalidade. Havia, nesse projeto, ambição histórica legítima. Brasília foi concebida como símbolo de um Brasil que deixava de olhar apenas para o litoral e passava a se imaginar como potência continental. O problema é que, junto com essa promessa modernizadora, a nova capital também cristalizou uma arquitetura do poder excessivamente coerente com a velha tentação brasileira de concentrar decisões em um núcleo distante da vida concreta do país.

A capital foi desenhada para o Estado. Essa é uma chave interpretativa decisiva. Seu eixo monumental, a separação funcional dos espaços, a amplitude dos vazios urbanos, a grandiosidade dos edifícios públicos e a organização racionalizada do centro político fizeram de Brasília não apenas uma cidade administrativa, mas uma cidade que encena institucionalmente a superioridade do centro decisório. A paisagem comunica autoridade, ordem e escala. Mas comunica também distância. O espaço diz, silenciosamente, que o poder não está misturado à sociedade. Está acima dela, adiante dela, protegido dela.

A geografia do poder nunca é neutra. O ambiente em que o poder vive influencia a forma como o poder se percebe. Governantes instalados em palácios, esplanadas, anexos, tribunais monumentais e ministérios alinhados por eixos grandiosos tendem a naturalizar uma visão abstrata da sociedade. O cidadão deixa de aparecer como pessoa concreta, inserida em território, comunidade, vocação econômica e contexto local, e passa a surgir como categoria administrativa, como estatística, como contribuinte genérico, como destinatário uniforme de decisões centralizadas. Em vez da nação viva, plural e contraditória, passa a prevalecer a visão do país como desenho regulável.

Esse é o ponto em que Brasília ultrapassa a condição de capital e se torna metáfora. Ela representa a crença de que o Brasil pode ser conduzido adequadamente a partir de um centro político monumental, como se a inteligência institucional concentrada em poucos quilômetros quadrados fosse capaz de compreender melhor a realidade nacional do que os próprios brasileiros espalhados por municípios, regiões e economias diversas. Sob essa lógica, a federação se enfraquece, a experiência local perde valor e a sociedade passa a ser administrada como objeto da vontade central.

O problema não é apenas simbólico. Ele se manifesta na prática todos os dias. Em Brasília, decidem-se tributos que pesam sobre quem produz muito longe dali. Em Brasília, formulam-se regulações que recaem com a mesma rigidez sobre cidades, regiões e setores completamente distintos. Em Brasília, julgam-se controvérsias que redefinem a vida política, econômica e social do país sem que os decisores sintam diretamente o custo humano, produtivo e comunitário do que produzem. Em Brasília, multiplicam-se exigências, obrigações, interpretações e políticas públicas para um país cuja diversidade real torna quase sempre ilusória a pretensão de uniformidade.

O pequeno empreendedor do interior, o produtor rural, o comerciante da cidade média, o prefeito que tenta equilibrar as contas, a família que enfrenta a precariedade dos serviços públicos, todos eles vivem em um Brasil muito diferente daquele que a burocracia federal imagina quando legisla, regula, tributa e interpreta a partir do centro. A distância, nesse caso, não é apenas física. É cognitiva. É moral. É institucional. Quem decide de longe tende a compreender menos a realidade sobre a qual decide e, não raro, sente menos o impacto do próprio erro.

É exatamente aqui que a crítica liberal ganha sua dimensão mais forte. Friedrich Hayek ensinou que o conhecimento relevante para a organização da vida social é disperso. Ele está espalhado entre milhões de indivíduos, circunstâncias, experiências e informações locais que nenhum planejador central pode captar plenamente. Essa crítica normalmente é aplicada à economia, e com razão. Mas ela vale com a mesma força para a política. O Brasil continua operando, em larga medida, sob a ilusão de que um centro administrativo concentrado é capaz de conhecer suficientemente o país para governá-lo em detalhes. Brasília é, sob esse aspecto, a expressão arquitetônica da pretensão de conhecimento concentrado.

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A capital não apenas abriga o centralismo brasileiro. Ela o simboliza com rara precisão. Em sua forma urbana, há algo da mesma arrogância institucional que marca o excesso de regulação, a hipertrofia normativa e a permanente ampliação da autoridade central sobre a vida dos estados, municípios e cidadãos. Quanto mais se transfere para Brasília a responsabilidade por resolver tudo, mais se esvaziam as energias locais, mais se enfraquecem as autonomias regionais e mais se amplia a irresponsabilidade difusa. Afinal, quando todos aguardam a solução do centro, poucos se sentem realmente responsáveis por construir respostas no lugar onde a vida acontece.

Isso ajuda a explicar por que Brasília pode ser percebida como uma capital blindada. Não porque seus edifícios sejam apenas fisicamente protegidos, o que é natural em qualquer sede de governo, mas porque a própria estrutura de poder nela concentrada favorece um processo contínuo de isolamento. O governante blindado não é só o que vive cercado por segurança, assessores e protocolos. É também o que habita um universo político próprio, distante da rua, da produção, da escassez, do tempo do cidadão comum e da pressão direta da vida ordinária. A blindagem mais profunda não é a do vidro, da escolta ou do gabinete. É a da mentalidade.

No antigo Rio de Janeiro, apesar de todos os seus defeitos, o poder convivia mais de perto com uma cidade socialmente densa, economicamente pulsante e mais exposta à pressão popular. Não se trata de idealizar o passado, mas de perceber uma diferença importante. O poder federal estava inserido em um ambiente mais poroso, menos inteiramente moldado para a função estatal. Já Brasília nasceu precisamente para sediar o comando político-administrativo. O resultado é que a política brasileira passou a operar em um espaço que reforça sua autonomia em relação ao país real.

Essa autonomia cobra um preço alto. Quanto mais o centro político se distancia da experiência vivida da população, maior a tentação de tratar o Brasil como abstração gerenciável. Decisões se tornam mais fáceis no papel do que na vida. O aumento de tributos parece um ajuste técnico e não um golpe no caixa de quem trabalha. A multiplicação de exigências regulatórias parece aperfeiçoamento institucional e não obstáculo ao empreendedorismo. A centralização de competências parece coordenação republicana e não sufocamento da autonomia local. O excesso de judicialização parece sofisticação constitucional e não deslocamento de decisões essenciais para um plano cada vez mais distante do controle democrático imediato.

Por isso, o problema de Brasília não deve ser formulado como um problema meramente urbanístico. Ele é um problema político, federativo e civilizacional. O que está em discussão não é se a cidade é bela, relevante ou historicamente grandiosa. Tudo isso ela é. O que está em discussão é o tipo de República que se acostumou a existir a partir dela. Uma República em que o centro decide muito, concentra demais, se protege excessivamente e se responsabiliza de menos pelas consequências concretas de suas imposições sobre a sociedade.

A correção desse desvio não passa por fantasias destrutivas nem por nostalgia simplista. Ninguém precisa atacar Brasília enquanto cidade para criticar o modelo de poder que ela passou a representar. A saída está em reduzir a centralidade excessiva de Brasília sobre a vida nacional. Está em recuperar o valor político dos municípios, fortalecer estados, descentralizar competências, reequilibrar recursos e reconstruir um pacto federativo mais compatível com a complexidade brasileira. Um país continental, desigual, múltiplo e criativo não deveria depender tanto de um centro que se pretende ordenador de tudo.

Essa é a verdadeira resposta republicana ao problema. Quanto mais perto a decisão estiver de quem vive suas consequências, maior tende a ser a responsabilidade, a sensibilidade e a capacidade de correção. Quanto mais longe estiver, maior a chance de que o poder se converta em abstração, ritual e blindagem. O bom governo não nasce da imponência do centro. Nasce da proximidade entre decisão e realidade.

No fundo, Brasília revelou com nitidez uma tendência antiga do Brasil: a tentação de substituir a vitalidade da sociedade pela autoridade do centro. Essa tentação talvez nunca tenha encontrado forma mais eloquente do que ali, no coração monumental da República. O país construiu uma capital admirável para organizar o poder, mas ajudou também a consolidar uma cultura política em que governar de longe passou a parecer normal.

E eis o ponto decisivo. Quando o poder se afasta geograficamente do povo, ele tende também a se afastar de suas urgências, de suas limitações e de sua verdade. A distância não produz apenas silêncio. Produz ilusão. A ilusão de que é possível decidir por milhões sem viver entre eles. A ilusão de que a técnica substitui a experiência. A ilusão de que a autoridade central compreende o país melhor do que o próprio país compreende a si mesmo.

Brasília não inventou essa ilusão. Mas deu a ela palácios, eixos e monumentalidade.

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João Loyola

João Loyola

Formado em administração pela PUC Minas e em Gestão de Seguros pela ENS, Pós-Graduado em Gestão Estratégia de Seguros pela ENS, é sócio sucessor da Atualiza Seguros, sócio da Botrel e Loyola consultoria e é associado do IFL-BH.

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