Bolsonaro sobre Miriam Leitão: um desperdício de oportunidade

Jair Bolsonaro, liberal de picadeiro da nova era que beneficiaria-um-filho-sim, mentiu sobre Miriam Leitão: ela não estava indo para o Araguaia, integrar-se à criminosa e estúpida guerrilha (sobre a qual meu amigo Hugo Studart sabe tudo, como bem demonstra no ótimo livro-reportagem Borboletas e Lobisomens, da editora Francisco Alves, 660 páginas) quando foi presa e, sim, torturada. Inventar e disseminar mentiras sobre adversários eleitorais e ideológicos não é novidade na carreira de Bolsonaro nem no cotidiano de seus seguidores; extremistas de direita que, copiando os extremistas de esquerda (entre os quais Miriam Leitão não se inclui, sua posição ideológica é de centro-esquerda), fazem da mentira o pão de suas almas. Mesmo depois de uma nota da Globo, lida por uma contundente e serena Renata Vasconcelos, esclarecendo que Miriam não era terrorista e que fazia propaganda comunista, Bolsonaro não vai se retratar, imagine, civilidade é para os fracos. Inclusive, já circulam pelas redes abjeções como tuítes de Filipe Martins comparando a propagandista Miriam Leitão ao propagandista Goebbels, sobre os quais faço duas observações:

1) Se a propagandista Miriam Leitão pode ser comparada a Goebbels só pelo ato em si mesmo, Filipe Martins, propagandista do olavo-bolsonaristão, também pode;

Leia também:  Homenagem aos 114 anos do nascimento de Ayn Rand

2) Até mesmo da acusação de propagandista Miriam foi absolvida.

Inocente, ela foi torturada antes de ser julgada. Mas vamos supor que Miriam fosse culpada, qual era a pena prevista em lei? Tortura? Não, a tortura não era prática legal: os torturadores agiam à margem da lei, fora do estado de direito – e qualquer liberal tem a obrigação de condenar ações dessa natureza, como todo cristão tem a de condenar a tortura; portanto, não há outra conclusão para quem não troca um deus lula-jeca por um deus Bolsonaro: não há nem cristãos nem liberais reais na nova seita que aprofunda a estupidificação do país.

No quartel do Exército de Vila Velha (ES), Miriam Leitão foi deixada por horas nua numa sala escura, sem móvel nenhum, com uma jiboia como companhia. Uma jiboia. Uma jiboia. Se tenho dó? Tenho, tenho compaixão por ela, não faço ideia da agonia que a então garota de 19 anos, grávida, codinome Amélia, passou; tenho compaixão pelas vítimas da esquerda aqui e mundo afora, abomino o terrorismo, a ditadura sob a qual vivíamos – e qualquer outra – e o que os comunistas ofereciam como alternativa. Miriam, ao contrário de Dilma Rousseff, não explora o passado para duvidoso lustro de sua biografia nem solicitou do Estado bolsa-ditadura. Com um presente dramático para 25 milhões de brasileiros entre desempregados e desalentados e um futuro imediato incerto, Bolsonaro teve a chance de um chamamento à união dos brasileiros se repudiasse sem ressalvas o ato de petismo com sinal trocado que barrou a jornalista e Sérgio Abranches na feira literária de Jaraguá do Sul. É que num país em que todos estão contra todos, ainda na clivagem canalha efetuada pelo PT quando governava e da qual Bolsonaro também se vale, a lucidez e a objetividade para avaliar mudanças e decisões do governo cedem à paixão ideológica e tudo se impregna dessa burrice.

Leia também:  Produtividade: as empresas brasileiras precisam de mais competição

Bolsonaro desperdiçou a oportunidade fazendo uma defesa oblíqua da liberdade de expressão ao invocar com mentiras o passado de Miriam e do Brasil, não reconhece o lugar histórico que 58 milhões de brasileiros lhe concederam para cerzir o país, não compreende e nem está preparado para seu papel institucional como presidente de todos os brasileiros, prefere chafurdar no revanchismo inútil e desnecessário para o gozo doente de seu fétido gueto moral-ideológico que reluz na propaganda de Filipe Martins. É o necropetismo bolsonarento, abominável como o petismo que o precedeu na portaria do gueto em que ambos confinaram o país.

Leia também:  Fortaleza abriu mais empresas que Juazeiro do Norte, Caucaia e Maracanaú somadas! Jura?!? E daí?

Sobre a autora:  Vânia Cavalcanti é revisora, foi secretária executiva, professora da rede pública e integrou assessoria de políticos cujas funções não tinham perfil político-partidário. Bacharel em Linguística e Língua Portuguesa, Congressos e Palestras para Professores de Português para Estrangeiros e Linguística e Ensino do Português como Segunda Língua – Ciclo de Palestras, na USP.

Gostou do texto? Ajude o Instituto Liberal no Patreon!