A Republiqueta do Estado-Babá
Durante décadas, empurrou-se ao Brasil a fantasia de que programas assistencialistas eternos seriam a forma mais “nobre” de servir à sagrada causa da justiça social.
O Estado surge como pai zeloso, o verdadeiro Estado-babá; o governante encena o papel de benfeitor iluminado; o benefício passa a funcionar como selo moral do progressismo oficial. Tudo muito comovente, e extraordinariamente conveniente.
Ainda assim, há uma pergunta incômoda, dessas que jamais atravessam palanques ou discursos oficiais: o que aconteceria com esses governos se a pobreza um dia realmente acabasse? Não ficaria melhor? Ou perigosamente pior para eles?
Esse pano de fundo, quase macabro, ficou escancarado quando um ministro de Estado, vejam só, afirmou com naturalidade desconcertante que o brasileiro poderia simplesmente jogar fora a carteira de trabalho e viver de benefício estatal. Depois vieram as explicações, as notas técnicas, os contorcionismos semânticos, a habitual orgia mental inútil. Mas certas frases não escapam por acidente. Escapam porque revelam. Ali não havia apenas um deslize retórico, mas um modo de ser lulopetista, uma abdicação civilizatória fantasiada de compaixão.
Programas de transferência de renda podem ser instrumentos legítimos quando concebidos como pontes, jamais como residências permanentes. Em países pobres ou de renda média, fazem sentido como políticas transitórias, com critérios claros de entrada e, sobretudo, prazo definido de saída.
O problema brasileiro não está no auxílio em si, mas na sua eternização. Aqui, o provisório se cristaliza, o emergencial se transforma em estrutura, e o social se degrada em infraestrutura eleitoral.
Nesse modelo, a pobreza deixa de ser um mal a ser superado e passa a ser um ativo político a ser administrado. Não por conspiração explícita, mas por incentivos perversos, para ser econômico.
Um governo que depende eleitoralmente de cidadãos vinculados diretamente ao Estado cria, consciente ou inconscientemente, obstáculos à emancipação plena dessas mesmas pessoas. Resolver o problema significaria desmontar a narrativa que sustenta o poder vermelho, o poder que vive da “dependência organizada”.
A literatura acadêmica debate isso há décadas. Há estudos que apontam riscos claros de clientelismo, dependência e captura política em programas sociais mal desenhados. Outros tentam salvar a tese emancipatória com inúmeras ressalvas. O ponto que permanece é que não há dignidade duradoura onde não há autonomia econômica.
O que eleva renda, reduz pobreza e restitui dignidade é outra coisa, bem distinta. Constitui-se de investimento, crescimento, trabalho produtivo, educação de verdade e a redução da carga tributária asfixiante que transforma quem cria riqueza em alvo moral permanente.
Uma sociedade que supera a pobreza de fato amplia sua classe média, torna-se mais crítica, menos domesticável. Essa forma indivíduos que não votam por medo de perder um benefício, mas por expectativa de futuro. Isso é profundamente inconveniente para projetos políticos baseados na infantilização permanente da sociedade. Ou seja, a tatuagem lulopetista.
Ao cabo, a escolha é moral e política. Administrar pobres indefinidamente ou transformá-los em cidadãos livres.
A Republiqueta do Estado-Babá, absurdamente, prefere a dependência. Uma nação adulta escolhe a liberdade. Talvez por isso essa pergunta quase nunca seja feita.
Na verdade, nunca. Porque respondê-la com honestidade desmonta não apenas um programa social, mas todo um modelo de poder, vermelho e destrutivo.



