A prosperidade e a administração da pequenez

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Confesso; já não suporto mais ler, ouvir ou assistir à encenação reiterada do chamado “pai dos pobres” e de seus devotos.

A mesma retórica inflada, a mesma impostação moral, a mesma eloquência que comove antes de esclarecer, evidentemente num português sofrível, e que, ao final, preserva exatamente aquilo que finge combater.

Fala-se como se fosse transformação; governa-se como se a pobreza fosse destino administrável.

Por trás dessa orgia verbal repousa uma ideia silenciosa e profundamente limitadora, a de que a miséria não precisa ser vencida, basta ser gerida.

Há nações que enfrentam a pobreza como uma tarefa histórica. Outras aprendem a conviver com ela, organizá-la e extrair dela utilidade política.

O Brasil “progressista”, há muito, deixou de tratá-la como urgência nacional e passou a aceitá-la como paisagem. Paisagens deixam de indignar; tornam-se pano de fundo.

Nada disso foi proclamado de maneira aberta. Instalou-se gradualmente, até adquirir a solidez do hábito. A escassez deixou de ser um escândalo coletivo para se transformar em variável de governo.

A cada ciclo, o ritual se repete. Benefícios pontuais são elevados à condição de marcos sociais, soluções emergenciais recebem o figurino de políticas estruturais. Agora, o vale-gás talvez seja o símbolo mais preciso desse arranjo. Sim, um alívio real, porém incapaz de alterar o curso de uma vida. Socorrer quem sofre é dever elementar de qualquer sociedade digna. Mas o desvio começa quando o socorro deixa de ser travessia e passa a ser morada; quando o provisório se converte em estratégia eleitoral.

Prosperidade nunca foi filha do favor. As sociedades que efetivamente enriqueceram escolheram um caminho menos sedutor e mais exigente.

Notadamente, a sagrada disciplina fiscal, instituições previsíveis e um Estado consciente de seus limites. Riqueza nasce onde o esforço encontra recompensa, o investimento não é tratado como suspeita e o desejo de prosperar não precisa pedir desculpas a ninguém.

Entre nós, firmou-se um dos mais confortáveis autoenganos coletivos na história desse país. Proclama-se proteção ao pobre enquanto se mantém uma engrenagem tributária que o comprime em silêncio. Ele paga em tudo, no alimento, no transporte, no essencial, e, pior, quase sempre sem perceber. Paga novamente quando os impostos desestimulam empresas, estreitam empregos e empurram a ascensão social para um amanhã que nunca chega. A injustiça mais duradoura raramente grita; ela se instala.

O dano maior, contudo, não é apenas material, é interior. Um Estado que se apresenta como provedor constante desloca o eixo da vida adulta. A autonomia passa a parecer risco; a dependência, prudência. A dignidade da conquista cede lugar à expectativa do amparo. Não se formam cidadãos livres, mas adultos habituados a esperar.

Ainda assim, algo começa a se mover. Já não é só a renda curta que inquieta, é a vida contida. Cresce a recusa em trocar grandeza por tutela, futuro por benefício, protagonismo por permissão. Ceifa-se a essencial liberdade.

As pessoas não querem favores. Querem espaço.
Nenhuma sociedade floresce ensinando seus cidadãos a viver de exceções. Nenhum povo descobre sua estatura enquanto se acostuma a se curvar ao grande Estado babá.

Prosperidade não vem do que o Estado dá. Vem do que ele para de tomar. Ponto.

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Alex Pipkin

Alex Pipkin

Doutor em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS. Mestre em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS Pós-graduado em Comércio Internacional pela FGV/RJ; em Marketing pela ESPM/SP; e em Gestão Empresarial pela PUC/RS. Bacharel em Comércio Exterior e Adm. de Empresas pela Unisinos/RS. Professor em nível de Graduação e Pós-Graduação em diversas universidades. Foi Gerente de Supply Chain da Dana para América do Sul. Foi Diretor de Supply Chain do Grupo Vipal. Conselheiro do Concex, Conselho de Comércio Exterior da FIERGS. Foi Vice-Presidente da FEDERASUL/RS. É sócio da AP Consultores Associados e atua como consultor de empresas. Autor de livros e artigos na área de gestão e negócios.

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