A escolha colombiana e o monopólio da humanidade

Neste domingo (17), dia de estreia da Seleção Brasileira na Copa do Mundo da Rússia, os colombianos escolhiam seu presidente enquanto boa parte do planeta estava de olho na bola rolando. O advogado e ex-senador Iván Duque Márquez, do Centro Democrático, sagrou-se vencedor, com cerca de 54% dos votos, contra 42% de seu rival no segundo turno, Gustavo Petro.

Dois detalhes chamaram a atenção acerca desse pleito. O primeiro é que vários veículos jornalísticos afirmaram que “a direita venceu na Colômbia” e que Duque é “a nova face do conservadorismo”. Como, sobretudo em linguajar jornalístico contemporâneo, isso quase pode querer dizer qualquer coisa, pusemo-nos a um ligeiro exame da biografia, do discurso e das propostas do novo presidente para entender melhor com quem estamos lidando e ter uma ideia de que papel este player pode exercer na política latino-americana.

O detalhe inicial é que Duque tem o apoio do ex-presidente Álvaro Uribe, conhecido por sua posição mais dura contra as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – posição dura, leia-se: chamar terroristas e assassinos pelo nome, em vez de querer premiá-los com a participação na vida político-partidária, tal como se acabou fazendo no “acordo de paz” que o país terminou por consagrar recentemente. Ele próprio foi contra o acordo. Também conta com a chamada “simpatia do mercado”, principalmente, podemos depreender, pela sua passagem por instituições como o Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Mais do que isso, Duque é francamente antichavista e antibolivariano e declarou que jamais permitiria que a Colômbia seguisse o destrutivo caminho da Venezuela. São todos sinais de que os vizinhos latino-americanos podem esperar uma liderança antipática à ditadura de Maduro e plenamente identificada com os melhores parâmetros liberais-democráticos.

Porém, as linhas gerais e o colorido de certos aspectos de seu discurso parecem tender mais ao “centro”. Ao prometer uma “justiça com foco em gênero”, buscar o “empoderamento feminino” e incluir a variedade étnica como um fator de qualificação em exames do Estado (em outras palavras, cotas), Duque está acenando principalmente a militantes de políticas identitárias, de modo algum à “direita” ou ao liberal-conservadorismo. Sua agenda assume a cor liberal quando fala em redução de impostos, simplificação tributária, racionalização de gastos públicos e concessão de autonomia fiscal às regiões do país, mas assume contornos mais intervencionistas quando fala em aumentar significativamente salários mínimos, conceder mais créditos a certas iniciativas e na criação de um Fundo Nacional para o Desenvolvimento da Economia Laranja, apelido que dá a serviços embasados em cultura e tecnologia e à economia criativa – a depender do que isso signifique na prática.

De qualquer jeito, acreditamos que os colombianos escolheram muito bem. Afinal, o adversário era um duvidoso simpatizante do chavismo, ex-guerrilheiro do M-19 que vinha tentando oferecer uma imagem adocicada de si mesmo. Apresentava-se como alguém cujo propósito seria tão-somente mitigar as desigualdades e garantir o acesso à educação – “ensino superior universal, público e de qualidade”! – e à saúde, proteger os LGBTs, as mulheres, os homens do campo e o meio ambiente, eliminar a corrupção, etc., etc. Sério, só faltou dizer que traria a paz mundial. Tudo, claro, com total deferência ao acordo com os criminosos das FARC, promessa de aumento de impostos sobre terras e outras sugestões questionáveis, estas não tão genéricas quanto o grosso do programa polítici.

Este mesmo Gustavo Petro já havia dito, em entrevista concedida em 2000 a uma emissora local, que nutria grande entusiasmo pelas inovações de Hugo Chávez e que era preciso repetir na Colômbia o sucesso das investidas da esquerda na América Latina, como os do PT no Brasil – objetivamente nomeado -, isto é, levar as bandeiras e a natureza sórdida dos membros do Foro de São Paulo para a sua terra.

É aí que entra, na verdade, o segundo ponto que nos chamou a atenção nos noticiários sobre a eleição deste domingo, que foi o nome da “chapa” com que Petro concorreu: “Colômbia Humana”. Isso mesmo, “Humana”. Ora, ao assim se rotular, implicitamente – ou nem tão implicitamente assim -, Petro e seus próceres estavam basicamente garantindo ter, no pleito, o monopólio da humanidade. Em outras palavras: o outro lado deve ser uma espécie de encarnação de Satã, essencialmente desumana, assim como as “criaturas diabólicas” que preferirem votar nele. Só faltou a coragem de Hillary Clinton ao dizer que metade dos apoiadores de Donald Trump era de “deploráveis” – mas faltou por muito pouco.

A disputa eleitoral na Colômbia, pelo que se deduz, foi travada entre Iván Duque e as esquerdas pudicas e falsamente impolutas, crentes de que a salvação da humanidade está em suas mãos e quem ousar desafiar suas torpes convicções não é sequer parte do gênero humano. Diante desse quadro, não há dúvida de que o resultado das eleições colombianas é uma boa notícia – e, ninguém há negar, estamos mesmo precisando muito de boas notícias.

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Lucas Berlanza

Lucas Berlanza

Jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Lucas Berlanza é editor dos sites “Sentinela Lacerdista” e “Boletim da Liberdade” e autor dos livros "Lacerda: A Virtude da Polêmica" e “Guia Bibliográfico da Nova Direita – 39 livros para compreender o fenômeno brasileiro”.