Para leitores sensíveis, com amor

Num tempo não muito distante (acreditem: estive lá e voltei para contar), “leitor sensível” era quem lia com acuidade. Com sensibilidade intelectual. Quem tentava – e invariavelmente conseguia – compreender um texto para além do que nele ia explícito. Leitor sensível era o bom e velho leitor, afinal de contas: que lia amorosamente o texto […]

Num tempo não muito distante (acreditem: estive lá e voltei para contar), “leitor sensível” era quem lia com acuidade. Com sensibilidade intelectual. Quem tentava – e invariavelmente conseguia – compreender um texto para além do que nele ia explícito.

Leitor sensível era o bom e velho leitor, afinal de contas: que lia amorosamente o texto – poético, ficcional, teórico – e percebia seu centro de gravidade, suas nuances e ambiguidades, suas intenções mais ou menos ocultas, suas limitações e camadas.

Mas os tempos são outros e o leitor sensível não é mais o leitor consciencioso e interessado. Leitor sensível é o sujeito que as editoras contratam, ou pretendem contratar a partir de agora, para aferir o grau de suscetibilidade do distinto público.

Fico sabendo que o sensitivity reader é, normalmente, um integrante de grupos sociais contratado para apontar, ainda no manuscrito, conteúdos que possam provocar pressões e boicotes”.

E o distinto público, convenhamos, está cada mais suscetível. Tudo dói na criança. Piadas já não são piadas: são ofensas. Divergências já não são divergências: são agressões. Controvérsias já não são controvérsias: são guerras cruentas. A criação artística e o debate intelectual estão empanturrados de pequenas proibições, vetos, correção, boas maneiras, bons modos, tricô e crochê. Todos têm de que e a quem reclamar, numa espécie de neopuritanismo laico e policialesco, cuja extensão parece não ter fim.

Censura no dos outros é fresquinho. As minorias, que sempre reclamaram (ora com razão, ora sem ela) de perseguição estatal e religiosa, agora impõem às editoras e aos escritores normas de etiqueta literária. As editoras, mais medrosas que temerárias, parecem estar dispostas a atender.

A brilhante ideia é que “representantes de grupos sociais” sejam regiamente pagos para que o desavisado escritor não venha com tretas e malícias. O senhor representante apontará com o dedinho social dele o que deve ou não deve ser dito. Mais ou menos assim.

REUNIÃO DE PAUTA

“Esse livro tem de sair no mês que vem. Chama lá o Rapaz das Minorias, por favor.”

(Entra na sala o Rapaz das Minorias)

“E essa passagem do Nabokov aqui, hein?”

“Que é que tem?”

“Corta.”

“Sério?”

“Corta. Pedófilo, todo mundo sabe.”

“Presumo que não tenhamos problemas com o Nietzsche?”

“Quem? Meu Deus: misógino!”

“Mas ele é ateu, vocês não gostam de ateus?”

“É ateu, mas é alemão.”

“Ele tem bigode de hipster, vocês não gostam de hipster?”

“É hipster, mas é ariano.”

“Compreendo. Sobrou o Monteiro Lobato…”

“Você tá de brincadeira? Fogo!”

(Na sala ao lado, alguém ouve certa canção…)

Lá Iá lá lá Iá, lá lá lá Iá, lá Iá

Preta, preta, pretinha (4x)

“…”

De acordo com os critérios previamente elencados, estarão sub judice todas as obras que tratarem de temas relacionados a: cor; nacionalidade; sexo; gênero; etnia; vícios; problemas psiquiátricos etc.

Em suma: toda literatura ocidental, oriental e das cercanias. Das primeiras representações nas cavernas ao último romance contemporâneo. De Homero à Bíblia. Shakespeare então! Aquela vulgaridade. Porque nove décimos da literatura produzida desde que o mundo é mundo ferem, e devem mesmo ferir, suscetibilidades. Se não ferissem, não seriam literatura.

Não se trata de fazer apologia da arte pela arte. Tenho apreço pelos estetas, mas o caso em questão é mais grave do que isso. É admitir previamente um vocabulário, um tema, um direcionamento moral, em nome da sempre arisca sensibilidade (afetiva, identitária, ideológica) alheia. Mais do que arisca: plástica, mutável, autocontraditória. Hoje são esses os meus valores, amanhã serão aqueles.

Estes são os meus princípios. Não gostou? Tenho outros! – MARX, Groucho.

Vale tudo, por exemplo, no humor? Para o meu gosto, quase sempre. A questão tem de ser colocada da seguinte forma: a literatura é um jogo em que valem certas regras que não valem para todo o resto. Como num esporte de combate em que faz parte da regra “machucar” o adversário. Dentro dum ringue, certo nível de violência é permitido. Na vida cotidiana, outro. E é justamente essa liberdade circunscrita da arte – ou dos esportes, ou do treinamento militar – que permite a reflexão profunda sobre a natureza humana.

Censurar alguns livros em nome de sentimentos alheios é o mesmo que censurar sentimentos alheios em nome de outros livros. Que raio de diferença tem isso com a censura stricto sensu? Podem dar tratos à bola para encontrar distinções, mas não há nenhuma. Escrevo e de imediato corrijo – na verdade, existe sim uma diferença: nos porões da censura estatal, os bandidos tinham cara de bandidos e os mocinhos de vez em quando tinham cara de mocinhos. Mas o mundo dá voltas e mais voltas, como se vê, e todo mundo quer um Index pra chamar de seu.

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