O que é necessário para se formar uma sociedade de homens livres? (Primeira parte)

O Brasil atravessa uma fase cultural muito penosa e verdadeiramente inócua em algumas áreas, dias sombrios de corrupção, violência e desemprego, unido a uma incapacidade de reação contra tais problemas. E, se formos eleger um fator primordial para tal incapacidade de reação, sem demora poderíamos eleger a nossa educação pífia e ineficiente como causa primária; e ainda que haja pequenos avanços em áreas determinadas, sempre nos localizamos entre as últimas posições nos mostradores de eficiência educacional mundial. “Onde quer que o analfabetismo seja um problema, é um problema tão grave quanto a falta de alimento ou a falta de abrigo” (FRYE, 2017, p. 12).

Com certeza a reação contra os problemas sociais e políticos de uma nação passa, necessariamente, pela formação de intelectos livres de doutrinação ideológica e partidarismo religiosos; homens livres para pensar soluções sem que haja amarras políticas que os impeçam de progredir na pesquisa da melhor alternativa, é a condição básica para se começar a falar em desenlace das crises.

Neste contexto, uma pergunta se faz imperiosa: o que é necessário para se formar uma sociedade de homens livres? Northrop Frye (1912 -1991) afirma, com largo e profundo conhecimento de causa, que é urgente formarmos indivíduos de “imaginações educadas” ou livres. E, de fato, a formação de mentes livres é o primeiro passo para solucionar os problemas que enfrentamos atualmente, não só no Brasil, mas no mundo.

Northrop Frye, canadense, formado em filosofia e língua inglesa, além de catedrático, foi grande crítico literário e pensador contemporâneo. Se notabilizou principalmente através de suas análises ríspidas e pouco convencionais de obras literárias de grande porte histórico. Sua característica principal, enquanto acadêmico, era o de explicar conteúdos complexos com exemplos simples e didática clara; o que notabiliza, aliás, os grandes homens da educação.

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Em A Imaginação educada (2017), editado no Brasil pela Vide Editorial, com tradução de Adriel Teixeira, Bruno Geraidine e Cristiano Gomes, Northrop Frye mostra toda sua desenvoltura e conhecimento numa sistematização didática tão fantástica que beira o absurdo. O livro se trata das transcrições das suas famosas palestras realizadas na Canadian Broadcasting Corporation; tais palestras se alastraram pelos países anglofonos desde 1962 — ano em que ele ministrou as palestras — e, dado ao sucesso das palestras, a edição em livro se fez necessária. Então, em 1964, saia a primeira edição da The Educated Imagination, pela Indiana University Press.

A suavidade da didática do filósofo canadense se evidencia logo nas primeiras linhas dessa obra; alinhavando erudição com exemplos corriqueiros, ele costurou seis palestras magistrais para aqueles que querem entender a importância da literatura e da linguagem na vida cotidiana e acadêmica. Ele inicia, pois, mostrando os alicerces da mente humana frente ao desconhecido. Frye nos leva a um cenário de naufrágio em uma ilha desconhecida, o homem — náufrago — perdeu completamente a memória após o acidente, e, ao abrir os olhos, é como se ele tivesse voltado ao estado zero de consciência. Alí, naquele cenário digno de Lost, o personagem é iniciado nas primeiras experiências humanas de análises, categorizações e expansões mentais frente ao que ele vê de maneira inédita, frente ao desconhecido. Ou seja, Northrop nos leva imaginativamente a conceber o primeiro momento de consciência de um ser humano, e como esse contato primevo e consciente se estrutura na mente do Homem.

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Com toda uma carga de filosofia da linguagem ancorando suas reflexões, Frye concebe o papel da razão e da emoção na consciência humana como o início estruturante da linguagem humana. Nesse momento ele nos atenta dizendo que há um mecanismo da consciência humana que nos afasta e nos integra ao mundo que nos cerca. A razão tende a nos afastar e nos diferenciar da realidade circundante para que possamos analisar os fatos de maneira íntegra e sem interferências; as emoções, por sua vez, tendem a nos integrar à natureza e nos fazer sentir parte da realidade que habitamos — dica: essa é a chave mestra para compreender todo o livro, se atente a isso.

Após navegar pelo mar primevo das linguagens e suas funções sociais, ele começa a nos mostrar como a literatura é, na realidade, a percepção que temos do mundo em sua realidade macro. Mas antes de entrar no campo da literatura propriamente dita, temos de salientar as expressões da linguagem. A linguagem se expressa em três facetas, segundo Northrop Frye: a linguagem de autorreflexão, isto é, a linguagem do monólogo, aquela linguagem que você usa consigo mesmo para refletir sobre questões diversas; linguagem de senso prático, a linguagem social que usamos no trato humano cotidiano seja na vida pessoal,  urbana, na universidade, no trato jurídico, etc.; e há, por fim, a linguagem literária e imaginária, que é a linguagem poetizada, literária e filosófica, essa linguagem é utilizada como conexão do homem com a expressão mais profunda de si e daquilo que observa.

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Dentro da linguagem humana se diferencia esses três modos de expressão, entretanto, repito, não são três linguagens, mas três modos de se expressar da própria linguagem unívoca. Não obstante, a linguagem como um todo, se diversifica em dois pilares que sustentam todo modo de expressão linguística. Em outras palavras: esses pilares — linguagem analítica e linguagem poética— são as bases dos três modos de expressão acima expostos. Expliquemos o que seriam esses dois pilares:  1) a linguagem analítica — ou científica — é a que abraça o fato sem previamente levar em conta as emoções ou as preferências qualitativas do indivíduo que analisa; a 2) linguagem poética é a linguagem que expressa o poder-ser, a vontade do indivíduo, suas emoções, preferências e planos para a realidade. A linguagem analítica tende sempre a se aproximar naturalmente da linguagem poética pelo fato da análise científica ser feita pelo Homem que é naturalmente dotado de preferências, vontades e emoções; a linguagem poética, por sua vez, tende a tentar se aproximar do fato científico em busca de adequação máxima à realidade em vista de sua praticidade real.

Referência:

FRYE, Northrop. A imaginação educada. Campinas: Vide editorial, 2017

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