O pintor embananador

MARIO GUERREIRO *
"Bananas", óleo/ tela, 170 x 128 cm, 1970 Coleção Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil Copyright © Antonio Henrique Amaral 1999

“Bananas”, por Antonio Henrique Amaral, 1999

Talvez pouca gente se lembre de Antonio Henrique Amaral. Quem foi ele? Um pintor – de telas, não de paredes. Qual seu estilo? Bem, eu o qualificaria como pós-moderno. Mais especificamente como pop art tupiniquim.

Como se sabe, a pop art tornou-se bastante conhecida a partir das telas de Andy Warhol, aquele pintor americano que pintava retratos bastante realistas de coisas populares, tais como latas de sopas Campbell, garrafas de Coca-Cola, Marylin Monroe, etc.

Amaral resolveu pintar também coisas bastante populares, mas com um especial toque brasileiro.

Tendo como um de seus ídolos Carmem Miranda, o movimento tropicalista pôs em destaque abacaxis e bananas. Nada mais tropical e brasileiro do que a banana, como já dizia aquela marchinha d’antanho:

Yes, nós temos banana,  /  Banana pra dar e vender.  /  Banana, menina, contém vitamina,  /  Banana engorda e faz crescer.

Assim sendo, Amaral passou a pintar bananas e somente bananas. Bananas prata, ouro, d’água, nanica e São Tomé. Verdes, maduras, em cachos, pencas, despencadas. Bananas, nada mais do que bananas e somente bananas.

Não se pode lhe negar a originalidade e o pioneirismo. Nunca antes neste país, essa fruta de uma árvore da família das Musáceas – mais especificamente, a Musa Paradisíaca – tinha sido musa de um poeta nem modelo de um pintor.

Dos anos de 1960 a 1970, apareceram dúzias e mais dúzias de telas bananíferas nas galerias de arte e Amaral se tornou uma celebridade da noite para o dia.

O fato é que, na época, as bananices do Amaral provocaram candentes polêmicas.

Alguns apreciadores das artes plásticas mais “conservadores” diziam coisas tais como: “Banana é muito boa pra fazer mariola, não pra ser modelo de pintor”.

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Outros mais “avançados” diziam: “Ele é um tropicalista, como Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros seguidores do Patropi (palavra composta de País Tropical), como na conhecida música de Jorge Ben (ainda sem Jor):

Moro num país tropical  /  Abençoado por Deus  /  E bonito por natureza.  /  Tenho um fusca, um violão  /  E tenho uma nêga chamada Teresa.

E, como sempre, tinha ainda os seguidores de Policarpo Quaresma e Aldo Rebelo do PCdoB, atual Ministro do Futebol.

Estes enalteceram o artista bananeiro como alguém que recusava estrangeirismos e enlatados importados – como a Coca-Cola, as sopas Campbell e Marylin Monroe – em nome das coisas brasileiras como a rapadura, o pão de queijo, o pé-de-moleque, a caninha e a banana.

Quando as pessoas em geral se deparam com uma tela não-representativa (a chamada “arte abstrata”), elas ficam impacientes e vão logo perguntando: “Que significa isto?” “O que isto quer dizer?”, etc.

Mas no caso das bananices do Amaral essas perguntas não estavam em jogo, uma vez que até uma criança com pirulito na boca sabia do que se tratava: de bananas!

Bananas realisticamente pintadas, não bananas meramente insinuadas, não estilizadas como numa tela a meio caminho da figuração e não-figuração.

Qualquer vivente reconheceria as bananices do Amaral, mas isto não bastava: devia ter um sentido simbólico, alegórico…

Na época não me lembro de nenhum comentário do pintor dizendo que suas bananas não eram simples bananas, porém expressavam essa ou aquela mensagem profunda.

Como aquele vira-latas que apareceu por acaso num filme de Buñuel, mas gerou intermináveis polêmicas, no Cahiers du Cinéma, sobre seu significado transcendental…

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Mas eis que estou lendo a Folha de S. Paulo, em 9/12/2013, quando me deparo com um artigo intitulado: “Olha,o bananeiro”.

Silas Martí, o autor do artigo, refere-se às 200 ou mais telas de Amaral nos seguintes termos:

[Elas] “entraram para a história da arte brasileira como metáfora tropical dos descaminhos da ditadura que começou com o golpe de 1964”.

Chamar pinturas de bananas de “metáfora tropical” é, no mínimo, um uso extravagante da linguagem, coisa típica de pensantes pós-modernos, como Deleuze, Derrida et caterva.

Para os quais a linguagem não serve para transmitir conceitos, porém para causar impactos e frissons nouveaux (novos arrepios e tremeliques).

Os “descaminhos da ditadura” fizeram com que o Brasil passasse do vigésimo PIB do mundo (antes de 1964) ao oitavo PIB do mundo (no governo do Presidente Médici).

E após ter galgado duas posições no ranking internacional, tornando-se o sexto PIB do mundo, hoje, no governo Dilma, está regredindo ao lugar ocupado no governo Médici, em que chegou a crescer 14% ao ano.

Mas, ao que tudo indica, esse não é somente o pensamento do articulista da Folha, mas também o do artista bananeiro.

Diz ele: [Eu] “queria esculhambar com o governo militar que estava reduzindo o Brasil a mais uma república das bananas.como eram as republiquetas centro-americanas”.

Afirmar tal coisa só pode ser um sintoma de grave doença esquerdista. Todos os dados macroeconômicos podem mostrar que, durante o período de 1964 a 1985, não houve nenhuma regressão.

Não só o País progrediu no sentido econômico, como também no sentido cultural.

Vale lembrar a criação da EMBRAPA, competente centro de pesquisas agrárias, um dos responsáveis pelo grande avanço do agronegócio brasileiro.

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A criação da EMBRAER, que fez com que o Brasil concorresse em pé de igualdade na exportação de aviões para o mundo.

A criação do CNPq, o maior financiador de pesquisas científicas no Brasil.

Se há risco do Brasil se transformar numa Banana Republic, é o que corremos hoje com o PT no poder, principalmente com seu populismo e seu manifesto desprezo pela meritocracia. Com cotas mil, bem cotado vai ficar o Brasil…

Mas o pintor embananador continua: “Meu desafio era pintar e, ao mesmo tempo, refletir sobre a tortura e as prisões numa coisa explosiva, sarcástica, de deboche”.

Que eu saiba, “coisa explosiva” é banana de dinamite, não a fruta da Musa Paradisíaca, caindo no popular: da bananeira!

As declarações estapafúrdias desse pintor embananador fazem me lembrar dos primeiros programas eleitorais da TV com o advento da Nova República…

Muitos dos candidatos que metiam sua cara na tela apresentavam um breve curriculum vitae em que um dos relevantes dados apresentados era: “cassado pelo golpe de 1964”…

Eles só não esclareciam se tinham sido cassados por subversão ou por corrupção, como muitos ladravazes e trambiqueiros daqueles tempos bicudos, muito parecidos com os de hoje…

* DOUTOR EM FILOSOFIA PELA UFRJ
imagem: óleo/ tela, 170 x 128 cm, 1970. Coleção Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil.
Copyright © [site oficial: http://www2.uol.com.br/ahamaral/colpub/index.htm]
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