O nascimento do socioconstrutivismo

“Tínhamos duas grandes utopias, a pátria e a revolução, e eu sou daqueles que acordam todos os dias e se alegram quando lembram que essas coisas acabaram. O maoismo matou milhões de pessoas. Qual é a nostalgia que se pode ter por isso? O que admirávamos era lixo.” – Luc Ferry, ex-ministro da Educação da França

Luuk-van-Middelaar-660x330O historiador holandês Luuk Van Middelaar faz uma narração do nascimento daquele que seria considerado um dos males dos nossos tempos: o socioconstrutivismo. Em seu livro “Politicídio – O assassinato da política na filosofia francesa”, Middelaar ilustra como autores como Simone de Bevoir, Jean Paul-Sartre e Maurice Merleau-Ponty deixaram influências na cultura, na educação e na política internacional, tendo como nascimento o período conhecido como Maio de 68, período em que estabelecem greves gerais na França lideradas por estudantes de orientação maoísta e que foi se alastrando por todo o país gaulês.

Middelaar tem sido considerado um dos melhores pensadores europeus da nova geração, contribuindo de maneira decisiva para a difusão de ideias liberais-conservadoras por todo o Velho Continente. O livro faz uma tenaz análise da gênese socioconstrutivismo suas relações com o filósofo alemão Friderich Hegel, interpretações do influente Alexandre Kojève e incluindo doses do pensamento maoista, culminando com a geração de pesadores ligados ao existencialismo e a autora Simone de Bevoir. Pensadores como Kojève, Sartre e Merleau-Ponty eram devotos das teorias de outros autores além de Hegel, como Karl Marx e Martin Heidegger, outros como os filósofos Gilles Deleuze e Michel Foucault, conhecidos como “filósofos da suspeita”, decidiram aprofundar-se nas obras associando Marx, Friderich Nietzsche e Sigmund Freud.

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Uma das grandes virtudes do holandês na obra é o fato é explicar as ideias hegelianas sob a observação de Kojève e as interpretações realizadas por Sartre e Deleuze sem recorrer a jargões, sempre apoiando-se nos textos dos autores e não se deixando levar por preferências políticas. Tal obra por essa característica se torna indispensável para a atualidade de nosso país, pois se é recorrente a onda de interesse pela desmistificação do pensamento de esquerda, porém com pouco material para estudo e com alguns panfletários que fazem um trabalho ruim, com níveis intelectuais que não são piores quanto o seu manejo do português.

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O historiador mostra com exímia precisão o modo que os badalados pensadores franceses do século XX dedicaram-se a defesa da tirania maoista, justificando os campos de concentração e a celebração da violência como forma genuína de fazer política. De certo modo o debate político na França é influenciado pelo uso do terror desde os desdobramentos da Revolução Francesa, em 1789, entretanto, ao se introduzir de forma maciça o pensamento de Hegel pelas lentes de Kojève nessa equação, o resultado torna-se surpreendente. Se o alemão Hegel achava que a história se concretizara com a figura nababesca de Napoleão Bonaparte, coube ao franco-russo divergir e propor a seus discípulos que o verdadeiro realizador máximo da história não seria Napoeão, mas, sim, o açougueiro soviético Josef Stálin. Ensinados com a fonte inspiradora de Robespierre, apreenderam que a verdadeira liberdade deveria se propagar pelo terror e que o verdadeiro Estado deveria assegurar o direito político à morte aos cidadãos. Sartre, que não escondia de ninguém seu fascínio a Stálin e a Mao Tsé-Tung, escreveu que os expurgos e as execuções na União Soviética e na China eram apenas uma fase na luta política. Novamente, não dá para se pensar no atual estágio de nosso país, ainda refém de intelectuais que ainda se fazem de arautos da chamada “violência emancipadora”, como no livro “A esquerda que não teme dizer seu nome”. A obra do holandês Middelaar é uma armadura de sapiência e bom-senso a proteger-nos das imposturas intelectuais e das fantasias políticas que as seguem.

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