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O liberalismo e a cultura pop: ”The Walking Dead”

Inicio aqui uma série intitulada “O liberalismo e a cultura pop”, em que realizarei análise de aspectos relevantes para o liberalismo de filmes, livros e séries consagrados na cultura popular. Não se trata, obviamente, de crítica literária ou cinematográfica, bem como não significa que as obras escolhidas façam de alguma forma apologia ao liberalismo, mesmo porque desconheço as inclinações políticas das mentes por trás delas. O que farei é analisar certos aspectos por meio de uma ótica liberal, afinal, uma das grandes virtudes da arte é motivar reflexões. Escolhi iniciar a série com The Walking Dead. Não há como fazer a análise livre de spoilers, então fica desde já o alerta.

Célebre como uma série de televisão da AMC, The Walking Dead é também uma série de quadrinhos criada por Robert Kirkman. A história se desenvolve em um mundo pós-apocalíptico, mais especificamente após um apocalipse zumbi. É justamente esse cenário apocalíptico e a desordem daí originada que me motivaram a escolher essa obra. Sobre os zumbis, não há muito o que dizer: eles andam de forma lenta, comem carne humana (também de animais) e representam maior perigo quando em bando ao invés de sozinhos ou em menor número. No entanto, fossem os zumbis a única ameaça, provavelmente a série em conjunto com os HQs não teria virado o fenômeno que virou. Não demora para percebermos que as maiores ameaças ainda são os “vivos”.

Com o apocalipse zumbi, a sociedade e civilização como antes se conhecia vão por água abaixo. Trata-se agora de uma terra sem lei, em que se deve fazer de tudo para sobreviver. Ocorre que há aqueles que fazem muito mais do que simplesmente sobreviver e dessa forma se transmutam nos vilões que nos são sucessivamente apresentados. Impera a lei do mais forte.

Não há como não pensar aqui em termos contratualistas e no estado da natureza que motiva esse contratualismo. Claro que quando Locke, por exemplo, escreveu seu Dois Tratados sobre o Governo Civil, ele não vislumbrava zumbis, mas imagino que o leitor consiga captar a ideia. Em uma terra sem lei, sem ordem estabelecida, é natural que aqueles que antes seriam contidos pelo império da lei agora se sintam confiantes para se sobressair e dominar seus pares e até, como de fato acontece em certo ponto, escravizá-los. Retornaram ao estado da natureza e os zumbis aqui são só um complemento. A barbárie impetrada por nossos vilões também seria impetrada fosse o apocalipse e o colapso da ordem motivado por outra coisa que não os zumbis. O estado da natureza aqui se parece muito mais com aquele descrito por Thomas Hobbes e contrapõe a visão rousseauniana acerca de uma bondade congênita do homem.

Claro que nem tudo é barbárie e também vemos aflorados laços de amizade, solidariedade e a valorização de virtudes como a honra e a lealdade, encarnados pelos “mocinhos” da história. Ocorre que mesmo os mocinhos não podem se dar ao luxo de se colocar alheios ao “estado da natureza” em que se encontram, sob risco de comprometer a sua própria sobrevivência.

O protagonista da história é Rick Grimes, um homem que trabalhava como policial em uma pequena cidade nos “velhos tempos”. O desenvolvimento do personagem – tenham em mente que há diferenças, por vezes brutais, entre o enredo das HQs e o da série de televisão – é um dos pontos mais interessantes. Apesar de não ser mostrada, senão em ligeiras passagens, a vida dos personagens antes do apocalipse zumbi, fica desde o princípio evidente que Rick era um bom policial, passando muito longe de ser alguém que abusaria de seu poder. Porém, nesse mundo que não mais conhece a lei e, portanto, os limites de sua aplicação, não são raras as vezes em que Rick “extrapola”, justificando sempre rompantes de violência com a proteção dos seus. Nem sempre essa desculpa o tranquiliza e o impede de mergulhar em dilemas morais que por vezes o fazem duvidar de si mesmo; mas não é realmente fácil criticar a eventual violência dos mocinhos, afinal, apesar de ser uma obra de ficção, será que não faríamos o mesmo naquela situação? Os dilemas suscitados são muito proveitosos se quisermos discutir, por exemplo, o quanto a civilização como a conhecemos depende de algo como um consenso contratualista, de um conjunto mínimo de regras em comum, em suma, de um Estado.

Será na tentativa de recuperar a civilização, ou pelo menos alguma forma de civilização, que os personagens experimentarão as maiores provações. Sobreviver é importante, mas só isso não basta. Tenta-se então criar ordem onde impera o caos, civilização onde impera a barbárie e moldar um futuro pós-apocalíptico. Nosso núcleo de protagonistas não tem aspirações megalomaníacas. Apenas querem viver em paz com suas famílias em seu próprio “canto”. No entanto, construir um lugar pacífico para se viver com tranquilidade não é exatamente algo simples, na medida em que pode gerar a cobiça de grupos rivais.

A queda da civilização como a conhecemos parece fazer retroceder a roda da história e guerras por território se tornam novamente a regra. É nesse contexto que será apresentando o “Governador”, o primeiro grande vilão e que deseja se apoderar da prisão que Rick e sua turma conseguiram transformar em um lar. Fica claro que nossos protagonistas jamais poderão dispensar um certo poderio militar se quiserem ter alguma chance de sobreviver e de manter suas liberdades, ou a versão disso, nesse novo mundo. Esta é umas das lições mais constantes da série: mesmo os pacifistas precisam de armas e de um poderio militar para manter a paz.

O vilão mais emblemático, no entanto, é Negan. Diferentemente do Governador, Negan não está interessado em usurpar o território alheio e sim em se apoderar do produto do labor dos habitantes destes territórios. O seu interesse não é aniquilar e sim escravizar. Negan é o líder “absoluto” de um grande grupo denominado Os Salvadores.  Os Salvadores atuam como uma espécie de milícia, comprometendo-se a “proteger” as comunidades da região, em troca de parte significativa de sua produção. Claro que não há alternativa para as comunidades e a recusa significaria a morte.

O nome do grupo acaba dizendo muito sobre o vilão, que, a despeito da suposição inicial de que apenas comanda um teatro para se satisfazer com o poder e os frutos da exploração – embora isso também –, realmente acredita, como demonstra em vários momentos, carregar a missão de salvar as pessoas nesse cenário de caos. Ele parece encarnar o contratualismo hobbesiano, prescrevendo a necessidade de um poder absolutista para salvar as pessoas da selvageria do estado da natureza, sendo ele mesmo, obviamente, o depositário desse poder.

O desfecho do personagem – lembrem-se do alerta de spoilers – acaba dizendo muito sobre a busca do retorno à civilização almejada por Rick, que, após derrotar Negan cortando sua garganta, não sucumbe ao desejo de liquidá-lo, e, a despeito dos protestos de alguns, ordena que o salvem. Não se trata de um mero rompante de bondade, pois a intenção é ainda fazer de Negan um exemplo, mas o personagem que em outros tempos havia estabelecido uma variação da lei de talião opta por abandonar a pena de morte. Em vez disso, Negan é condenado à prisão perpétua, no bojo do incipiente sistema judiciário que a comunidade de Alexandria tenta forjar. Negan acabaria não cumprindo integralmente a pena, tendo, após passar vários anos na cadeia se redimindo e se tornando uma peça fundamental na vitória sobre os Sussurradores, matado Alfa, a vilã que o sucedeu na trama. O arrependimento de Negan é outro ponto que suscita debates interessantes, afinal, será que, fora da ficção, alguém que cometeu crimes tão atrozes quanto ele cometeu seria capaz de se redimir?

A essa altura, Rick não é o único líder do “novo mundo”, tendo outras comunidades como aliadas, incluindo O Reino, que como o nome sugere, escolheu se inserir nesse mundo pós-apocalíptico com o simulacro de uma monarquia. Mesmo aliadas, as comunidades carregam diferenças entre si, explicitadas principalmente após Rick poupar a vida de Negan. Na comunidade de Hilltop, agora comandada por Maggie, aliada de longa data de Rick, ela opta por executar o traidor Gregory, que havia planejado o seu assassinato e uma retomada do poder. Além de mostrar que maquinações golpistas ainda ocorrem mesmo depois de um apocalipse, esse episódio, que contrapõe Rick e Maggie, serve de analogia para algo como a “soberania nacional”. As duas comunidades, na figura de seus líderes, diferem no entendimento sobre o método de punição, mas, em nome da aliança, benéfica para as partes, se abstém de dar passos assertivos para impor sua visão ao outro lado.

No aspecto econômico, é difícil categorizar a economia criada por nossos personagens em qualquer sistema econômico moderno. Não há muitos detalhes sobre o quão extenso é o direito de propriedade dentro das comunidades e nem sobre o quão livres são as iniciativas. Parece que existe sim propriedade, tendo as famílias casas, objetos pessoais e até meios de produção. No entanto, os detalhes acerca da “divisão da produção” não são muito claros, restando a especulação. O que fica claro é que, tão logo se aflora o impulso civilizatório, também se aflora a necessidade de comércio, pré-requisito para a própria subsistência das comunidades, uma vez que estas não conseguem ser completamente autossuficientes.

A princípio, o comércio é realizado entre as comunidades, mas a partir da primeira “feira” realizada entre estas, fica claro que os membros das comunidades intercambiam entre si, fazendo crer que, ainda que de forma incipiente, há sim a presença de uma certa iniciativa privada.

Em alguns momentos da história, é possível pensar que os personagens estabeleceram uma espécie de regime socialista, especialmente antes do afloramento do comércio e da instituição de técnicas de produção, como a agricultura. Nos estágios iniciais, quando a subsistência era garantida por meio da caça e do “garimpo” de alimentos em casas e supermercados e em que cada membro do grupo tinha um papel a cumprir, a divisão igualitária dos alimentos e artigos de subsistência fazia sentido, havendo momentos em que racionamentos se fizeram necessários, frente à escassez iminente, mas à medida em que as comunidades avançam em seu processo civilizatório, faz sentido pensar que caminharão cada vez mais rumo a uma economia de mercado baseada na propriedade privada e nas liberdades individuais.

Embora as HQs já estejam finalizadas, tendo sido a última edição publicada no ano passado, a série continua sendo produzida pela AMC, de modo que ainda teremos a oportunidade de ver qual será o destino dado aos personagens nas telas e se eles obterão sucesso em suas intenções civilizatórias. Resta claro que no mundo que pretendem criar não há espaço para despotismo, a justiça e liberdade são valores considerados e respeitados, e que a consecução disso só é possível por meio de uma lógica contratualista.

Gabriel Wilhelms

Gabriel Wilhelms

É licenciado em Música e graduando em Ciências Econômicas, atua como colunista e articulista político.