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O liberalismo e a cultura pop: Harry Potter

Dou sequência à série “O liberalismo e a cultura pop” e o escolhido da vez é Harry Potter. Apesar de eu ser um grande fã da saga – um verdadeiro potterhead -, repito que o objetivo não é proceder a nenhum tipo de crítica literária/cinematográfica e sim analisar aspectos que considere relevantes para o liberalismo. Novamente deixo o alerta de spoilers.

O primeiro dos sete livros, intitulado Harry Potter e a Pedra Filosofal, foi publicado em 1997, de autoria da escritora britânica J. K. Rowling. Quatro anos depois, foi lançado o primeiro dos oitos filmes da saga (o último livro foi dividido em dois filmes) pela Warner Bros Pictures. Desnecessário detalhar os números que comprovam o sucesso de Harry Potter, sendo este autoevidente e contínuo, com milhões de fãs ao redor do mundo.

Além de uma saga de grande sucesso, Harry Potter também é uma rica fonte de considerações políticas, tenha sido essa a intenção inicial da autora ou não. A história segue a trajetória de Harry Potter, o “menino que sobreviveu”, iniciando com seu ingresso na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts aos 11 anos. Harry é órfão de pai e mãe, os quais foram assassinados pelo temível bruxo das trevas Lord Voldemort. Ainda bebê, ele foi o único a sobreviver ao lorde das trevas que, derrotado, desapareceria, dando fim à guerra bruxa. Do primeiro ao último livro da saga, acompanhamos as tentativas e o eventual retorno de Voldemort, seguido de um conflito, anunciado desde o princípio. É em Voldemort que encontramos a primeira e principal analogia política da saga.

O chamado mundo bruxo vive cautelosamente oculto dos não-bruxos, os quais são chamados de “trouxas”. No entanto, ser filho(a) de pais bruxos não é um pré-requisito para que se desenvolvam poderes que lhe façam receber uma carta de Hogwarts ao completar onze anos de idade. Sendo assim, há bruxos filhos de pais bruxos, chamados de sangues-puros; filhos de um pai bruxo e o outro trouxa, portanto, mestiços; e ainda os que são bruxos, sendo filhos de pais trouxas, chamados pejorativamente de sangues-ruins. O mundo bruxo, que inclui a escola de Hogwarts, é receptivo e tolerante com todos os jovens bruxos, independentemente de sua origem. Porém, Voldemort e seus seguidores, chamados de comensais da morte, advogavam uma supremacia dos sangues-puros, alijando os mestiços e “sangues-ruins” da comunidade bruxa, bem como advogavam sair da obscuridade e subjugar o mundo trouxa. É impossível não enxergar aqui uma clara analogia ao nazismo. Os comensais da morte se baseiam em argumentos eugenistas, defendendo uma superioridade, inexistente, de raça. Contrapõem-se aqui duas visões de mundo que antagonizam mocinhos e violões, o bem e o mal, sendo que os primeiros adotam uma ótica inclusiva, defendem valores de uma verdadeira sociedade aberta, ao passo que os últimos se esforçam para destruir tal sociedade e impor a sua lógica eugenista a todos.

Desde o princípio essa lógica eugenista/racista é desafiada com a apresentação dos personagens. Hermione Granger, por exemplo, a melhor amiga de Harry Potter e Ronald Weasley, é provavelmente a aluna mais brilhante de Hogwarts, se sobressaindo em diversos momentos a bruxos sangues-puros. Hermione, como descobrimos logo no início, é filha de pais trouxas. Interessante notar que também é exposta a contradição e hipocrisia de extremistas ao se constatar que o próprio Lord Voldemort é um bruxo mestiço – fato que tenta ocultar -, sendo filho de um pai trouxa com uma mãe bruxa.

Quanto ao sistema político do mundo bruxo, não há um amplo detalhamento sobre seu funcionamento, mas podemos inferir alguns traços relevantes. Sabemos que o governo do mundo bruxo, ao menos no Reino Unido, se resume ao Ministério da Magia. Em nenhum momento é relatada nos livros a existência de quaisquer órgãos governamentais independentes do Ministério, sendo que este dispõe internamente de diversos departamentos. Em um primeiro momento, o sistema parece um tanto quanto centralizado, mas podemos considerar que a população bruxa não parece grande o suficiente para exigir maiores aparatos burocráticos.  O grau de independência de que dispõe cada departamento do Ministério é algo sobre o que podemos apenas especular.

O Ministério da Magia é comandado pelo ministro da magia. Nos livros da série não há detalhes sobre como funciona o sistema eleitoral bruxo, mas através do livro Short Stories from Hogwarts of Power, Politics and Pesky Poltergeists, uma das obras relacionadas ao universo Harry Potter, aprendemos que o ministro é eleito democraticamente, apesar de ter havido momentos, em períodos de crise, em que o cargo foi simplesmente oferecido para alguém. Oficialmente, não há limite para a duração do mandato do ministro da Magia, mas este é obrigado a realizar eleições a cada sete anos.

Apesar de ser sempre identificado como o ministro da magia, não há indicativos de que haja outros ministros e tampouco um conselho ministerial. Também não há um detalhamento sobre a existência de um corpo legislativo. Provavelmente, a referência mais direta a um poder legislativo acontece quando Alvo Dumbledore, o diretor de Hogwarts, atua como uma espécie de advogado de Harry no quinto livro (A Ordem da Fênix) e diz ao ministro – então presidindo uma sessão acusatória contra Harry – que sabe do funcionamento das leis bruxas, já tendo ele mesmo criado algumas. Como diretor de Hogwarts e como bruxo famoso e poderoso, já tendo derrotado Gellert Grindelwald, outro notório bruxo das trevas, no passado, Dumbledore é muito influente – logo, se, por ser quem é, colabora na formulação de leis, ou se no passado de fato integrou algum corpo legislativo, também só nos resta especular.

Se é difícil prover maiores detalhes do funcionamento do sistema político dos bruxos britânicos, podemos certamente notar algumas falhas ou pontos de fragilidade neste sistema. Um exemplo notório é a reação de Cornélio Fudge, o ministro da magia, ao retorno de Lord Voldemort no final do quarto livro (O Cálice de Fogo). Fudge age com ceticismo, por um lado certamente temendo Voldemort em si, e por outro parecendo temer como seu retorno poderia macular seu governo. No livro seguinte, A Ordem da Fênix, Fudge promove uma escalada autoritária, perseguindo Harry Potter e intervindo em Hogwarts com o auxílio de Dolores Umbridge. Aqui o ministro também é guiado pela paranoia política e instrui Dolores, que assume o papel de professora de Defesa Contra as Artes Das Trevas e também de “Alta Inquisidora de Hogwarts”, a banir o uso de feitiços de suas aulas, temendo, de forma totalmente infundada, que Alvo Dumbledore estivesse planejando criar um exército de alunos treinados em feitiços defensivos para tomar o Ministério da Magia. Vemos aqui o resultado da paranoia e do negacionismo da ameaça iminente.

Umbridge é, não sem razão, uma das personagens mais odiadas pelos fãs. Percebemo-la logo como alguém sem escrúpulos e que faz de tudo para galgar degraus cada vez mais elevados em seu carreirismo. Exemplo claro disso é como quando, dando aqui um salto temporal na história, ela se torna aliada dos comensais da morte e comanda uma perseguição a bruxos não-puros, após a ascensão de Voldemort ao poder e ao aparelhamento do Ministério da Magia. Também através de Short Stories from Hogwarts of Power, Politics and Pesky Poltergeists, aprendemos que, assim como Voldemort, Umbridge padece da mesma hipocrisia com suas políticas eugenistas, uma vez que também não é sangue-pura, sendo filha de uma mãe trouxa.

O universo criado por J.K. Rowling também traz muitas considerações sobre o papel da imprensa, apontando para a superioridade da livre imprensa como um valor, em comparação com a alternativa, ao mesmo tempo que não se furta da crítica ao tendencionismo. O jornal mais famoso entre os bruxos britânicos é o Profeta Diário, que costuma ser a principal fonte de informações dos personagens. No entanto, quando na ocasião do retorno de Voldemort, após ritual realizado no final do livro O Cálice de Fogo, fato testemunhado tão somente por Harry, O Profeta Diário passa a publicar críticas a Harry, afirmando que ele estivesse mentindo quanto ao retorno de Voldemort. Sabemos que o Profeta Diário é privado, mas aqui é sugerida uma influência de Fudge no jornal, uma vez que o jornal vocalizava as afirmações negacionistas do próprio ministro da Magia. Podemos aqui inferir uma crítica à imprensa chapa branca.

Uma das jornalistas do Profeta Diário é Rita Skeeter, outra personagem considerada detestável pelos fãs. É com Skeeter que vemos a crítica mais veemente a eventuais posturas tendenciosas da mídia, uma vez que a jornalista deliberadamente distorce tudo o que publica; mas se por um lado podemos notar uma crítica a certos comportamentos antiéticos por vezes assumidos pela imprensa, há uma clara defesa de sua liberdade.

Além do Profeta Diário, outro famoso veículo do mundo bruxo é o tabloide O Pasquim, publicado e editado por Xenofilio Lovegood, pai de uma das colegas mais carismáticas de Harry, Luna Lovegood. Na verdade, O Pasquim não é levado muito a sério por boa parte dos personagens, publicando toda sorte de teorias de conspiração e conteúdos mirabolantes e exóticos demais até para os bruxos. Porém, Xenofilio, diferente do Profeta Diário, acredita em Harry desde o primeiro momento e não deixa de publicar críticas a Voldemort nem quando este ascende ao poder. Como consequência, os comensais da morte sequestram Luna, fato que inclusive levaria Xenofilio a trair Harry na tentativa de recuperar a filha. Quando os comensais tomam o poder, não restam dúvidas de que o que impõem é uma ditadura, e ditaduras, como sabemos, não costumam tolerar imprensas que a critiquem. Xenofilio sofreu sob uma ditadura, uma violência que não sofreria em uma democracia que respeitasse a liberdade de imprensa.

Falando em ditadura, cabe analisar a questão dos direitos humanos na saga. Não há referência específica à expressão “direitos humanos”, porém conseguimos encontrar algumas pistas que apontam para um progresso nessa seara ao longo da história bruxa. Em várias ocasiões, vemos/lemos Argo Filch, o rabugento zelador de Hogwarts, se queixar de que não é mais permitido torturar os alunos como punição nas masmorras do castelo como ele fazia antigamente. Obviamente, o fato de tal tipo de castigo ter sido abolido é algo positivo e sugere que tal progresso do mundo bruxo acompanhou o do mundo trouxa. Vamos assistir a um retrocesso nesse quesito sob a gestão de Dolores Umbridge como alta inquisidora de Hogwarts, sinalizando que é justamente na ausência de normalidade institucional e na presença de arroubos autoritários de governos de ocasião que as liberdade e direitos humanos mais têm chance de retroceder.

Ainda relacionado a esta questão, podemos nos debruçar um pouco sobre o sistema prisional do mundo bruxo, sistema este que em vários momentos nos é sugerido que pode ser aprimorado, contendo, mesmo na normalidade institucional anterior à ascensão de Voldemort, falhas. Provavelmente, a principal falha é o fato de a prisão de Azkaban ter os “dementadores” como guardas. Os dementadores podem ser descritos como criaturas das trevas que se alimentam de almas humanas. A punição mais severa aplicada é o “beijo do dementador”, punição descrita como pior do que a morte, deixando as vítimas vivas, mas apáticas, sem alma. Além da crueldade, tais carcereiros não são confiáveis, unindo-se a Lord Voldemort na ocasião de sua ascensão.

Sabemos que os bruxos britânicos não adotam a pena capital como punição, mas tudo leva a crer que possuem a prisão perpétua. Há três tipos de maldição consideradas “imperdoáveis” e que podem conferir uma passagem “só de ida” para Azkaban: Avada Kedavra, a maldição da morte, Cruciatus, a maldição da tortura e Imperius, que serve para controlar a mente alheia.

Para finalizar, convém analisar os aspectos econômicos da saga. O mundo bruxo descrito por J. K. Rowling tem uma notória economia de mercado, uma predominância da propriedade privada e diferenças econômicas entre os personagens. No primeiro livro/filme da saga, aprendemos que os finados pais de Harry lhe deixaram uma quantia considerável em ouro. O ambiente de comércio mais célebre da história é o Beco Diagonal, local onde anualmente os jovens bruxos vão com suas famílias comprar os materiais escolares do próximo ano letivo. Além das lojas voltadas a atender à demanda dos estudantes, há outros tipos de comércio, a exemplo da loja de varinhas de Olivaras, o principal fornecedor desse importante instrumento no Reino Unido bruxo.

Apesar da presença de uma economia de mercado, a predominância de atividades burocráticas é notória, sendo estas grandes fontes de ambição e respeito. Também aqui se faz notar uma relação promíscua entre poder e influência de interesses escusos e privados, como os personificados por Lúcio Malfoy, pai de Draco Malfoy, inimigo recorrente de Harry. Em vários momentos, Lúcio demonstrará exercer uma indevida influência em assuntos “públicos”, como sua relação próxima com Cornélio Fudge, o fato de ter coagido o conselho de Hogwarts a afastar Dumbledore em A Câmara Secreta, além de ter comprado o lugar do filho no time de quadribol da Sonserina (uma das quatro casas de Hogwarts) presenteando os jogadores com vassouras de última geração. No mundo trouxa, Lúcio Malfoy é o típico arquétipo do magnata que vive escorado no aparelho estatal, usando a sua influência para alimentar interesses escusos e particulares, sempre disposto a dar uma “carteirada” baseada em sua posição social. Malfoy também é um comensal da morte.

Quanto à Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, tudo leva a crer que é mantida pelo Ministério da Magia. Se há alguma espécie de mensalidade cobrada das famílias bruxas, não nos é dito, mas não parece ser o caso, haja vista que nunca vemos Harry ter que desembolsar quantia alguma para esse propósito. O que sabemos com certeza é que as próprias famílias devem arcar com os materiais escolares e uniformes. Sabemos também, principalmente por meio de O Cálice de Fogo, que há outras escolas de magia e bruxaria em outros países, mas Hogwarts é a única do Reino Unido. Não há, portanto, ofertas alternativas de ensino ou escolas privadas – mas novamente, isso pode ser uma consequência do fato de a comunidade bruxa ser consideravelmente pequena e de Hogwarts, tanto em termos de vagas quanto em qualidade, suprir a demanda estudantil.

Eis então os pontos que achei mais relevante destacar nessa singela análise de Harry Potter e o liberalismo. Estou certo de que, por esquecimento ou por economia de espaço, há fatores que foram deixados de fora, os quais podem ser complementados pelos leitores que queiram tomar parte nessa reflexão. A conclusão da saga, como não poderia deixar de ser, é o triunfo do bem sobre o mal, da liberdade sobre a opressão, da verdadeira igualdade sobre a eugenia. Penso que este embate, que marca os sete livros e oito filmes da saga, é o que melhor pontua a relevância que ela tem para o pensamento liberal. O espectro político do mundo bruxo britânico, julgado sob uma ótica “trouxa” e moderna (a maior parte da história se passa nos anos noventa) carece de aprimoramentos, mas a busca pelo progresso que equivalha a uma maior liberdade é certamente um objetivo, talvez não diretamente teorizado, mas ao menos uma necessidade que os inimigos da liberdade lhes impõem.

Gabriel Wilhelms

Gabriel Wilhelms

É licenciado em Música e graduando em Ciências Econômicas, atua como colunista e articulista político.