O insólito caso dos saqueadores arrependidos

Frevo_Passistas_OlindaÉ algo que sempre digo e repito: há coisas que só acontecem no Brasil. Já fiz uma listinha de umas 50 coisas, que deve ser tomada como exemplificativa, não como exaustiva.

E é por isso que nossa realidade, ou surrealidade, nos obriga a criar novas  categorias. Por exemplo: o insulto carinhoso.

Parece uma contradição em termos. Um insulto é manifestação de desafeto, ao passo que carinhoso qualifica uma manifestação de afeto. Ora, afeto e desafeto são coisas que se excluem mutuamente. Ou ao menos é o que assim parece…

Sendo assim, como pode existir essa coisa: o “insulto carinhoso” ?!

Vou dar um exemplo: você está andando tranquilamente por uma rua da cidade quando experimenta um inesperado tapão nas costas.

Por uma fração de segundo, você acha que alguém está lhe agredindo e, passado este átimo de perplexidade, você se vira preparando-se para responder ao agressor.

Mas é aí que se dá uma nova perplexidade: é seu velho amigo, o Juca Bitoca, que vai logo lhe dizendo: “Ô, seu panacão! Como vai essa força?! Há quanto tempo, hein?!”

Era uma agressão física, sem dúvida. Mas não era expressão de rancor e/ou grande ódio.

Ao contrário, era manifestação de grande afeto a um velho amigo íntimo que o Juca não via há muito tempo! Insólito! Uma das muitas coisas que só acontecem no Brasil…

Isso me faz lembrar de minha querida vovozinha. Lá pelos anos de 1950, quando eu era um garoto encapetado – tanto que recebi o apelido de “Saci louro” – minha vovozinha tinha um procedimento padrão.

Sempre que eu me encontrava com ela, ela me dava um beliscão num lado da face e um beijinho noutro. E costumava dizer: “Seu capetinha danado!”

[Quem pensa que amor e ódio jamais andam juntos precisa urgentemente ler o Dr. Freud!]

Mas o tempo passou… Em maio de 2014, eu estava assistindo ao jornal da TV Globo das 8.30h p.m. quando me deparei com uma cena não muito infrequente neste nosso Brasil varonil, de céu cor de anil.

Recife: um bando de recifenses saindo de dentro de uma loja de eletrodomésticos carregando TVs, liquidificadores, aparelhos de vídeo e tudo mais que pudessem carregar com suas mãos. Só não levavam máquinas de lavar roupa porque elas eram muito pesadas.

Cabe citar um dos hai-kais do meu poeta japonês preferido: Matsuo Basho. Voltando para casa, o poeta a encontrou totalmente vazia: um ladrão tinha feito uma limpeza quase completa. Mas Basho não se desesperou. Escreveu logo seu pequeno poema:

                          O ladrão

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Só se esqueceu de levar

A lua da janela.

Na realidade, essa era uma forma elegante de dizer: “O ladrão só não levou o que não podia”. No caso do saque em Recife, máquinas de lavar roupa.

O saque de Recife foi uma verdadeira invasão e pilhagem dos bárbaros! Coisa digna de Átila, o rei dos hunos, que ficou conhecido na Europa como “O Flagelo de Deus”. Dizia-se na época que a grama em que seus cavalos pisavam não crescia mais.

Mas qual não foi minha total perplexidade quando, dias depois, no mesmo canal e no mesmo programa, vi uma loja com mercadorias devolvidas. Não sei se todos fizeram isso, mas muitos saqueadores fizeram de fato.

Unbelievable, Mr. Penn Taylor! Não se pode imaginar uma cena desse naipe ocorrendo na velha Londres.

É claro que tanto em Londres como em qualquer cidade do mundo civilizado podem ocorrer saques. Mas saqueadores são saqueadores, não há estas coisas de saqueadores arrependidos devolvendo espontaneamente os produtos da rapina.

Mas, como todo efeito é efeito de uma causa – embora às vezes não consigamos descobrir qual é ela – qual a causa desse insólito fenômeno humano?

Será que agiram impensadamente no momento do saque, mas depois caíram na real? Deram-se conta de que haviam se apossado de propriedade alheia e que violaram um dos Dez Mandamentos: Não roubar?!

E isso que para as religiões abraâmicas – judaísmo, cristianismo e islamismo, na ordem da revelação – é pecado, para a lei é crime: crime de furto.

Mas não, o assim chamado furto famélico, que ocorre quando indivíduos famintos furtam comida para apaziguar sua angustiante dor em virtude do estômago vazio.

Ora, quem rouba uma TV de tela de cristal líquido, um aparelho de vídeo blue ray ou mesmo um lap top não pretende comê-los para acabar com o ronco do estômago!

Fosse o caso de furto de feijão, de arroz e/ou carne seca, etc. e estaria caracterizado o furto famélico, que não é crime, mas sim um ato cometido por forte privação de comida.

Numa situação como essa não se pode exigir uma conduta alternativa.

Contudo, ainda que não se tratasse dessa figura jurídica, porém de um furto comum, nada impediria que os saqueadores tivessem se arrependido sinceramente.

E o arrependimento de um malfeito é um ato digno de louvor quando ele emerge do fundo d’alma como resultado do reconhecimento de um erro praticado e acompanhado de forte vontade de não repeti-lo.

Porém, o fato de alguns saqueadores terem realmente devolvido o produto de sua rapina não implica, necessariamente, que eles estivessem arrependidos do que fizeram. Como assim?!

Poderiam ter devolvido por medo de serem identificados pela polícia – coisa muito rara! – e terem sido enquadrados pela lei em furto de mercadoria e, como se sabe, “ladrão de galinha” é cana certa neste país! Será que foi isso?

Como não sou membro da seara jurídica, não sei dizer se constitui atenuante para um furto – ou mesmo fator excludente do mesmo – um indivíduo devolver um objeto furtado alguns dias após o furto e estando o objeto em perfeitas condições.

Mas, do ponto de vista ético, a devolução do objeto furtado jamais apaga a falta cometida, pois o que está em jogo não é o valor monetário do objeto nem sua devolução, mas sim o ato de se apoderar, ainda que por curto tempo, de coisa alheia.

Mas alguém poderia dizer que estou sendo demasiadamente severo. Afinal de contas, não há dúvida de que os saqueadores não desejaram ficar de posse dos objetos; tanto é assim que os devolveram espontaneamente.

Se assim o fizeram por medo da polícia identificá-los e eles entrarem em cana, isso não caracteriza uma boa ação no sentido ético: caracteriza um furto praticado por um amador, não por um profissional.

[Ora bolas, feito por amador ou por profissional, um furto é um furto e não deixa de ser o que é!].

Se assim o fizeram por um laivo de consciência moral, ainda que emergente após um ato imoral, a coisa torna-se menos ruim, pois o arrependimento, seguido da devolução dos objetos intactos, é um indício de que havia um sentimento de vergonha pelo ato praticado.

Supondo que esteja em jogo a primeira hipótese, o comportamento dessas pessoas é algo simplesmente lamentável, pois mostra que, caso não houvesse nenhum temor de uma ação policial, elas teriam se apossado definitivamente dos objetos.

Supondo que esteja em jogo a segunda hipótese, o ato em si não é digno de perdão, mas é de se louvar que essas pessoas ainda tenham um pingo de vergonha na cara, coisa que outras muitas neste país não têm.

Neste ponto, estou de acordo com a moral kantiana: Não há nada a ser elogiado naquele indivíduo que não faz coisas moralmente reprováveis simplesmente por medo de ir para o inferno ou para atrás das grades.

Seu comportamento é reativo, não uma imposição de sua consciência moral, daquela voz interior do Imperativo Categórico ordenando: “Tu deves fazer x ou Tu não deves fazer y”.

O pressuposto kantiano é que o Imperativo Categórico é inato no ser humano, é um dos componentes da natureza humana. Mas ele não nos é dado de imediato, trata-se de uma árdua conquista moral.

Estamos sempre presenciando uma terrível batalha entre nossa consciência moral e os impulsos de nossos apetites e inclinações para o mal.

Nos brasileiros em geral, o Imperativo Categórico tem sido uma voz clamando no deserto, mas isto não quer dizer que ela vá se silenciar ou que nunca será ouvida pelos que fazem ouvidos moucos.

Se poucos ainda a ouvem e a obedecem, ainda há esperança de que esse número cresça cada vez mais. E a esperança é a última que morre.

Logo: “Esperemos sempre o melhor, preparemo-nos para o pior, e aceitemos o que der e vier”. [Vetusto provérbio chinês].

[divide]

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imagem: Wikipédia; links acrescidos pela editoria

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Mario Guerreiro

Mario Guerreiro

Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor do Depto. de Filosofia da UFRJ. Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da UniverCidade.