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O enredo de uma conversão ao livre mercado e a importância do entendimento dos benefícios gerados pelo capitalismo

Comecemos imaginando um enredo semelhante ao narrado abaixo. Volto depois…

Imagine certo jovem que, submetido, durante anos, às doutrinas classistas que predominam em nosso sistema estatal de ensino, já cansado de receber aquele mísero salário pago pelo seu patrão burguês explorador, resolve desprender-se das amarras do maldito sistema que o fez escravo e, para isso, decide ser, ele mesmo, seu próprio patrão.

Para ser seu próprio patrão, ele teria de abrir mão de algum consumo imediato, teria de se abster de prazeres que sua parca economia poderia lhe proporcionar. Tudo isso para comprar móveis, utensílios e equipamentos que o ajudariam a levar seus planos adiante. Teria de pagar antecipadamente (sem a certeza de qualquer retorno) pelos serviços de pessoas que o ajudariam a construir seu sonho. Apenas pense nos fornecedores de que uma empresa precisa para executar a sua missão. Fornecedores de serviços como internet, água, luz, telefone. Fornecedores de máquinas e equipamentos, móveis e utensílios. Ele precisaria contratar pessoas com capacidade criativa e laboral que estariam dispostas a trocar o conhecimento acumulado ao longo de toda uma vida por algum valor monetário mensal.

Diante de algumas opções do mercado de trabalho, ele teria duas alternativas: oferecer bons salários de forma a que pudesse atrair os mais capacitados profissionais ou oferecer um salário mediano (e supõe-se que este seria o cenário do empreendedor iniciante que não teve a sorte de basear seus negócios em contratos polpudos feitos com o Estado) de forma a contratar pessoas não tão qualificadas que pudessem atender, de forma imediata, à sua necessidade de produzir produtos, fazer a limpeza, divulgar a sua marca, estabelecer conexões com potenciais clientes e fazer uma infinidade de outras atividades que o mundo empreendedorial exige.

Imagine agora, caro leitor, que tudo isso ocorreu poucos dias ou meses antes de uma pandemia que fez brotar os instintos mais autoritários do governador e do prefeito da cidade do nosso agora heróico personagem e que, em nome da defesa do bem estar coletivo, sua empresa teve as portas cerradas por autoridades policiais. Estas autoridades, pagas com o dinheiro dos seus impostos, obrigaram-no a interromper seus negócios por tempo indeterminado e trancafiaram em suas casas, tudo isso em nome da lei, os potenciais clientes do seu empreendimento. Imagine ainda que um braço governamental, historicamente conhecido por defender os direitos dos consumidores, quase o levou ao desespero quando, na intenção de fazer justiça aos desprotegidos clientes, forçou o rompimento dos poucos contratos que haviam sido acordados entre ele e seus clientes.

Imagine que depois de um longo e tenebroso período marcado por todo tipo de repressão e de palavras injuriosas endereçadas ao seu comportamento supostamente vil, mesquinho (uma vez que ele se recusava a ser submetido a este experimento distópico e expressava, constantemente, o desejo de voltar ao trabalho e pagar suas contas), ele foi autorizado a trabalhar. Sim, caro amigo leitor, ele teve autorização formal de um burocrata para voltar ao trabalho.

Suponha que ele não tenha tido a infelicidade de perder tudo o que construiu e que pôde, após autorização dos clarividentes senhores estatais, retomar suas atividades. Alguns de seus parceiros não tiveram tanta sorte, ele pensa, viram todo o sonho de uma vida empreendedora ser destruído.

Agora, mesmo com muitas restrições, ele retoma suas atividades. Talvez, a esta altura, esteja até mesmo pensando em quão privilegiado era quando, independentemente do cenário econômico, tinha um salário garantido ao fim do mês. Já é quase um liberal. Quase um libertário, quiçá.

Depois de grande esforço, ele começa a ver os primeiros resultados de seu negócio. Ele gerou empregos, pagou fornecedores, remunerou o proprietário do imóvel em que instalou sua empresa, pagou seus malditos impostos em dia e agora, só agora, finalmente, ele começa a receber alguns prêmios pelos seus esforços. Os primeiros lucros aparecem. Ele pensa: “agora, enfim, posso dar a mim mesmo algum prazer com os frutos da minha capacidade empreendedora”. Porém, nesse exato momento, surgem dúvidas a respeito de como poderá ser o próximo período: “Haverá novas restrições governamentais no futuro”? “Terei de fechar as portas novamente”? “Serei coagido a reduzir os preços de venda por decretos governamentais que julgam injustas as cláusulas contratuais definidas entre mim e meus clientes”? “Terei novos concorrentes que sejam mais experientes, mercadologicamente agressivos e que possuam maior poder de investimento”? Diante destas questões, ele se lembra de que, em algum momento (não se sabe se numa aula de economia que ele, enquanto dominado pela raiva que lhe foi inoculada por professores marxistas do colegial, fez questão de desprezar), ouviu a seguinte afirmação: “Cada fatia de lucro que o empreendedor eventualmente tire para desfrute próprio estará saindo daquilo que, de outra forma, poderia ser um investimento voltado para o desenvolvimento do seu negócio”. Ele se esforça um pouco mais e logo lhe vem à mente aquele professor de economia que, em dado momento, enquanto discorria sobre a “mágica” do empreendedorismo numa de suas aulas, fez uma citação à Escola Austríaca de Economia e a Lew Rockwell.

“Àquele período”, ele pensa, “era jovem demais e estava embebido de teorias de mais-valia e guerra de classes”. Enquanto pensa no que queria dizer seu professor de economia, é tomado pelo sentimento de vergonha que rapidamente vai ocupando o lugar de todo o ressentimento que tinha contra o que, há pouco tempo, chamava de capitalismo opressor.

Reserva apenas uma parte de todo o lucro obtido com seu negócio para as necessidades pessoais mais urgentes e reinveste todo o resto na esperança de que, no futuro, estes investimentos o tornem mais competitivo.

Ele entende que, para ser um empreendedor bem sucedido, precisa prever o futuro de forma acurada. Uma tarefa inglória, é verdade. Afinal, como dissera Ludwig von Mises, “O que diferencia um empreendedor de sucesso das outras pessoas é precisamente o fato de que ele não se deixa guiar por aquilo que foi ou por aquilo que está sendo, mas sim porque ele organiza seus negócios com base em sua opinião sobre o futuro.  Ele vê o passado e o presente da mesma forma que as outras pessoas; no entanto, ele julga o futuro de maneira diferente”.

O nosso agora heroico personagem se dá conta, enfim, de que fora enganado pelas doutrinas vitimistas e invejosas dos intelectuais que, alijados do sistema capitalista pela sua própria incapacidade de fornecer algo que beneficiasse seus concidadãos, não encontraram alternativa senão alinhar-se a governos de esquerda que lhes garantissem alguma sinecura.

Voltei…

Este enredo é uma pequena ilustração das principais dificuldades enfrentadas pelos empreendedores que são, em última instância, os responsáveis por gerar riquezas a uma sociedade. O jovem marxista transformado em empreendedor é o retrato de alguém que foi tomado pelas fantasias marxistas, mas, tão logo mergulhou no mundo do empreendedorismo, das trocas voluntárias entre ofertantes e demandantes, pôde compreender que a realidade prática está muito distante do que ensinam os professores (de)formados sob a doutrina paulofreireana. Apesar da narrativa simplista de opressores e oprimidos, a complexidade das ações humanas, capazes de criar níveis alarmantes de produtividade, não pode ser resumida a simples expressões vazias como burguesia, mais-valia e luta de classes.

Este enredo é, enfim, mais uma tentativa, dentre tantas outras já realizadas por autores de grande notabilidade, de expor à grande maioria das pessoas, as quais não enxergam absolutamente nada de admirável na atividade de comprar e vender coisas, que as trocas econômicas são sempre benéficas e que seus benefícios serão sempre, invariavelmente, difundidos por toda a sociedade.

Para concluir, faço uso aqui de uma citação feita por João Luiz Mauad em artigo intitulado O que seria de nós sem o capitalismo? – artigo, aliás, em que o autor se presta a uma bela defesa deste tão vilipendiado sistema de trocas econômicas. A citação é parte do pensamento do jurista e historiador da Universidade de Salamanca, Bartolomé de Albornoz, segundo o qual “o ato de comprar e vender é o nervo da vida humana que sustenta o universo. Em decorrência deste ato, o mundo se torna unificado, as distâncias entre terras e nações são enormemente encurtadas e pessoas de diferentes idiomas, leis, culturas e modo de vida são aproximadas. Não fossem estes contratos, alguns povos sofreriam escassez de bens que outros povos possuem em abundância, e não poderiam também compartilhar os bens que possuem em excesso com aqueles países que sofrem de sua escassez”.

Juliano Oliveira

Juliano Oliveira

É administrador de empresas, professor e palestrante. Especialista e mestre em engenharia de produção, é estudioso das teorias sobre liberalismo econômico.