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O capitalismo de Van Gogh

Vincent van Gogh (1853 – 1890) é talvez o maior pintor que já existiu. Para muitos, não há dúvida quanto ao posto do holandês na galeria dos maiores da história: foi o Pelé com um pincel. O melhor, mais genial e mais popular. Para este que vos escreve, Van Gogh puxa a fila dos maiores não apenas da pintura, mas de tudo que se entende por arte.

Tudo está na maneira como Van Gogh, pós-impressionista e mestre do pontilhismo, expressou sua dor, sua agonia e seu sofrimento numa combinação de cores fascinantes. Com sua forma quase que selvagem de ser, transformou o cinza dos aspectos terríveis da humanidade em coloridos vivos. Comparo-o a Pelé porque muitos, mesmo não gostando de futebol, admiravam a capacidade do “Rei do Futebol” e tiravam o chapéu, em gesto de reverência ao jogador criado na Vila Belmiro, em Santos. Fenômeno similar ocorre com Van Gogh: mesmo pessoas não afeiçoadas a pinturas se impressionam com a arte de Vincent. Nisso repousa a genialidade do homem: mudar a visão das pessoas acerca de algo mediante seu talento.

Se a história nos conta que Van Gogh viveu de forma miserável, há quem conteste tal versão. Para Van der Veen (2018), que pesquisa a belíssima e rica correspondência entre Van Gogh e seu irmão Théo, os irmãos tinham uma visão “profética” de mercado e sabiam que haveria no tempo certo uma evolução. Cada passo de Vincent e de Théo foi calculado. Van Gogh, que começou tarde na pintura, aos 27 anos, tinha plena sobriedade quanto à importância de seu trabalho, seja na inovação ou na originalidade.

O homem lembrado por cortar sua própria orelha – e de ser capaz de compor um autorretrato após o feito bizarro – e por passar fome foi, na realidade, um empreendedor de sucesso que respeitou e fez uma leitura do tempo do mercado e dos apreciadores de pinturas. Reuniu um acervo de valor imensurável. Como consta já na orelha do livro O Capital de Van Gogh, do professor da Universidade de Estrasburgo e diretor do Instituto Van Gogh em Auvers-sur-Oise, Wouter van der Veen, Vincent “criou capital (valor) pensando no futuro, cuja obra não cessa de se valorizar a cada ano, enriquecendo não apenas seus herdeiros e clientes como o próprio patrimônio da humanidade”.

Vincent e seu irmão Théo foram empreendedores de sucesso absurdo. Hoje o capital de sua empresa valeria bilhões de euros. Já ouvi relatos de quadro de Van Gogh sendo arranhado por 200 milhões de dólares. Convertemos essa quantia a reais e chegamos a um quadro com preço de 1 bilhão de reais. Pois bem, Vincent pintou 800 quadros e mais 1000 desenhos e esboços. É um valor, como escrevi acima, imensurável. Tente tirar das mãos de um apreciador de Van Gogh uma obra sua. Para a maioria, é impossível. A obra de Van Gogh não cresceu apenas em preço, mas em valor. O maior valor está no fato de, em muitos casos, preço algum seduzir um dono de quadro de Van Gogh a se desfazer da peça.

Na correspondência de Vincent van Gogh a seu irmão Théo van Gogh, há elementos suficientes que nos permitem acreditar e afirmar que, sim, os irmãos foram visionários. Afinal, por que Van Gogh seguiria pintando e seu irmão, por conseguinte, o sustentando – dos 28 aos 37 anos do pintor, quando este morreu tragicamente? Para ser possível compreender o empreendedorismo dos irmãos Van Gogh, todavia, é necessário ler a correspondência entre ambos, que no Brasil é traduzida como Cartas a Théo. Neste caso, são as cartas enviadas por Vincent a Théo.

Autor de peças como Os comedores de batata (1885), O quarto em Arles (1888), Noite Estrelada (1889), Os girassóis (1889), Autorretrato (1889) e Campo de trigo com corvos (1890), Van Gogh tem seu nome erroneamente associado ao socialismo. É verdade que o pintor holandês foi um defensor de causas sociais – e chegou a escrever uma carta a Émile Bernard, afirmando acreditar numa “sociedade monumental” que seria construída por socialistas -, mas nada que chegasse a ser uma inclinação ao socialismo revolucionário. O próprio lado religioso e protestante de Vincent pode ter contribuído para essa preocupação com uma mudança social. Também entra no jogo o que Vincent entendia por socialismo. Mesmo que Van Gogh tivesse alguma ideia socialista, como lemos até aqui, sua vida demonstrou que ele era o contrário: um capitalista selvagem (literalmente!).

Em carta enviada a Théo em 13 de agosto de 1888, Van Gogh diz: “E, para começar, instalemo-nos onde a vida for mais barata. Tanto melhor se o sucesso vier, tanto melhor se um dia tivermos dinheiro”. No trecho da carta, percebemos que Van Gogh não tinha nada de diletante, pelo contrário: arquitetava-se desde o início de sua jornada na pintura a aquisição de capital!

Além da obras, o produto – ou a marca – Van Gogh faz circular bilhões nos dias atuais. A sociedade Irmãos Van Gogh, por exemplo, tornou-se uma indústria cultural bilionária. O certo é que os irmãos Van Gogh são um caso de sucesso e são nortes para empreendedores atuais. Pensar a longo prazo e compreender seu produto e seu mercado são conceitos fundamentais deixados pelos irmãos a todos que hoje pretendem ingressar no mundo do capitalismo selvagem.

Referências

VEEN, Wouter van der – O capital de Van Gogh: Ou como os irmãos Van Gogh foram mais espertos que Warren Buffett / Wouter van der Veen; tradução Julia da Rosa Simões. – 1. ed. – Porto Alegre [RS]: L&PM, 2018.

Ianker Zimmer

Ianker Zimmer

Ianker Zimmer é jornalista diplomado pela Universidade Feevale (RS). Estuda Pós-graduação em Ciências Humanas: Sociologia, História e Filosofia na PUC-RS. De 2015 a meados de 2019, trabalhou no Jornal NH e na Rádio ABC, veículos do Grupo Editorial Sinos. Entre 2020 e 2021, foi assessor parlamentar na Câmara dos Deputados. É colunista e autor no Instituto Liberal (RJ). Foi colunista do site Opinião & Crítica. Atualmente exerce o cargo de Diretor de Gestão Integrada na Secretaria Municipal de Segurança de Novo Hamburgo. Autor de A filosofia do fracasso: ensaios antirrevolucionários (Viseu, 2020), República Democrática do Pensamento Único (Almedina, 2021) e coautor de Introdução ao Liberalismo (Almedina, 2021). Membro da Academia Luso-Brasileira de Letras do Rio Grande do Sul.