O barbarismo cultural

Mário Ferreira dos Santos (1907-1968) foi um dos maiores pensadores desse país, criador de uma nova maneira de se pensar e estudar a filosofia chamada de “filosofia concreta”, em que a filosofia seria baseada na lógica, não havendo possibilidade de discordância de seus pressupostos, a que chamou “Teses”, denominando-se tal característica como apoditicidade lógica. A primeira tese é a fundamentação de toda a sua filosofia: “Alguma coisa há, e o nada absoluto não há”, da qual extrai outras teses, passando pelos principais tópicos da filosofia através dos métodos da filosofia matemática.

Em uma das suas obras principais, “Invasão Vertical dos Bárbaros”, Mário mostra o barbarismo cultural e como grupos políticos o utilizam. No livro, o filósofo mostra que as invasões territoriais na maioria das vezes não se dão de forma horizontal, mas principalmente de forma vertical, que é a invasão que penetra pelo âmbito cultural, solapando os fundamentos, e preparando o caminho para a corrupção mais fácil do ciclo cultural. Um exemplo é a tomada do Império Romano pelos Bárbaros, que serve como base para o desenvolvimento de teorias como o marxismo cultural, do italiano Antonio Gramsci, o relativismo dos membros da chamada Escola de Frankfurt e para o sócio-construtivismo francês dos anos 1960.

Já nos anos 1960, Mário percebia que a cultura tinha começado a ser tomada de assalto pela esquerda. Na introdução do livro o paulista, radicado no Rio Grande do Sul, diz que a obra é uma denúncia a essa tomada cultural feita de maneira vertical, desenvolvida em quatro séculos, e que Mário achava que já tinha chegado em um estado intolerável e ameaça a todos nós de maneira definitiva.

A primeira parte da obra trata da afetividade e da sensibilidade do homem. São tratados assuntos como a exaltação da força física em detrimento do intelecto, a valorização exagerada do corpo, a supervalorização romântica, a superioridade da truculência contra o Direito, a propaganda tendenciosa e desenfreada dos ideologismos, a valorização da memória mecânica, a exploração precoce da sexualidade e a disseminação da chamada “cultura de mal gosto”, que no contexto utilizado pelo pensador, seria a mãe de todos os males pois contribuiria para a disseminação dos outros males anteriores.

Na segunda parte do livro, Ferreira dos Santos trata sobre as questões da intelectualidade, tais como a luta contra a universalização do conhecimento (com o consequente desaparecimento dos princípios comuns a várias ciências humanas, corrupção da linguagem (detrimento da norma culta da língua pela valorização da variedade padrão e atomização do conhecimento), o desvirtuamento da Universidade, a separação maldosa feita entre Religião, Filosofia e Ciência para que as três áreas entrem em constante conflito, a incompreensão entre Ética e Moral, o Proletário e a exploração ideológica, juventude transviada e o uso dela como massa de manobra por movimentos revolucionários, nominalismo e realismo e desenvolvendo o conceito de autoridade divina no decorrer da segunda parte.

A obra é de atualidade desconcertante e constitui um diagnóstico preciso das doenças espirituais e culturais que podem levar uma civilização a um estado de barbárie e morte. Portanto, é de leitura fundamental, pois, como se sabe, o diagnóstico é também o primeiro passo para a cura da doença. Demais, a leitura desse livro ajudará a todos que buscam responder às perguntas que fiz acima a encontrar as respostas que procuram.

Contudo, o que quero destacar aqui é que o filósofo escreveu essa obra num momento histórico, cultural e político muito mais tumultuado que o nosso. Era o último ano de governo do primeiro presidente militar, Humberto de Alencar Castello Branco, auge das guerrilhas socialistas no Brasil e também o auge da Guerra Fria, além do nascimento de movimentos como o sócio-construtivismo e a contracultura. E, sabendo que há muito as universidades brasileiras, monopolizada por intelectuais de esquerda e sindicatos, jamais seria o lugar de onde partiria a luta para salvar o ciclo cultural em que vivemos, pôs-se a escrever durante a sua vida toda, às vezes até mimeografando as suas obras e, assim, cumprindo a sua parte na luta, já nas décadas de 1950 e 1960.

A vida e a obra de Mário Ferreira dos Santos são mais que um exemplo a seguir, mas sim um poderoso testemunho de que, para evitar a completa barbarização de toda uma cultura, basta que existam algumas pessoas cujas vidas estejam integralmente a serviço das boas ideias, seguindo a velha frase do economista austríaco Ludwig Von Mises, “Ideias e somente ideias podem iluminar a escuridão”.

Diante dessa afirmação, os pessimistas de hoje talvez dirão que é impossível deter a revolução cultural socialista que já está em estágio bem avançado. Ao que eu responderia a tal questão: contemplar a realidade dessa ótica é cair naquele velho erro de ficar vendo o corpo através da sombra, atitude que, ao final, só nos levará a tomar a sombra pelo corpo e, no final das contas, “a conhecer o bem pelo seu reflexo no mal”, como já disse Olavo de Carvalho, pensador brasileiro autor do livro “O Jardim das Aflições”. Com efeito, se os que podem ver a luz da verdade preferem ficar olhando somente para as trevas, logo tudo para eles será choro, ranger de dentes e falta de esperança.

Mesmo num momento em que grande parte das pessoas parecem querer dirigir seus olhares somente para as sombras, mesmo com um cenário político e cultural que começa a nos favorecer, todas as pessoas que buscam a verdade têm o dever de continuar a olhar para o corpo. E o que isso significa? Deixo a resposta para o próprio Mário Ferreira dos Santos, que diz no final do livro:

“Se temos em nossa estrutura cultural, no âmbito das ideias superiores, tudo quanto de maior a humanidade ardentemente sonhou e desejou, como admitir que se destruiu o que é fundamento para uma caminhada mais promissora?

Que afastemos o que obstaculiza, que lutemos contra o que desvirtua, que fortaleçamos o que nos auxilia a marchar para frente, está bem! Mas renunciar, demitirmo-nos do conquistado, para volver atrás, isso nunca!

Lutar pelo nosso ciclo cultural, fortalecer os aspectos positivos para impedir o desenvolvimento do que é negativo, eis o nosso dever.”

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