O apoio dos liberais brasileiros a Trump

 

Todos os líderes da extrema-esquerda da América Latina compartilharam, ao longo da história, um conjunto de manifestações populistas, nacionalistas e protecionistas.

Todos se levantaram identificando inimigos externos, declarando guerra contra a imprensa, dizendo-se representante dos excluídos e prometendo devolver o país ao povo implementando um programa econômico de valorização da indústria nacional e de preservação dos empregos locais.   

Foi assim que Lula e Dilma quebraram o Brasil.

Foi assim que Chávez e Maduro arruinaram a Venezuela.

Ontem, Donald Trump decretou a saída dos Estados Unidos do tratado Transpacífico, de livre comércio.  Argumento: Preservação dos interesses dos trabalhadores americanos.

Trump começou a fazer o que prometeu em campanha. Foi elogiado por ninguém menos que Bernie Sanders, o mais radical socialista que já pleiteou uma candidatura à Casa Branca.

Sou do tempo em que isso era chamado de protecionismo.

Sou do tempo em que isso era visto como uma das características do socialismo.

Sou do tempo em que os liberais repudiavam isso.

Esse tempo acabou em 2016, quando Trump se lançou à presidência.

Para fazer oposição aos democratas e à grande imprensa, os liberais brasileiros ignoraram o viés protecionista e glorificaram a “sinceridade” do candidato republicano.

Os elogios que fizeram e ainda fazem a Trump: Não tem papas na língua, não se curva ao politicamente correto, prometeu acabar com a imigração de muçulmanos e combater o globalismo da ONU e UE.

Esse posicionamento em nada difere do cristão que, pelo desejo de “igualdade social”, vota em partidos comunistas e declaradamente anticristãos, como o PSOL.

Uma pergunta: O que os liberais dirão em alguns meses, quando se derem conta de que apoiaram, como tietes, uma mutação do arquétipo do líder socialista latino-americano?

O fato: Os liberais brasileiros adotaram Trump como seu estadista de estimação.

Havia um terceiro candidato à presidência, Gary Johnson, que tinha um programa de redução do estado em nome de  maior liberdade individual e econômica. Johnson foi ignorado. Quase nada foi escrito sobre ele, sobre suas ideias, enquanto muito foi escrito em defesa de Trump.

Os liberais brasileiros poderiam ter se posicionado contra os dois principais candidatos simplesmente por eles serem péssimos. Não quiseram. Incorporaram a obsessão de que a prioridade era tirar os democratas do poder. Uma infantilidade.

Mais: Se tivessem se dado ao trabalho de dissecar e comparar o programa econômico dos dois, teriam visto que Trump está muito mais à esquerda do que Hillary, o que torna ainda mais absurdo o apoio dado a ele.

Se tivessem olhado para o cenário que se construía no congresso americano, veriam que os republicanos se tornariam ainda mais fortes, ou seja, Hillary não teria condições de emplacar leis progressistas, como a restrição ao porte de armas.

Se os liberais brasileiros não fossem tão infantis, teriam encontrado formas melhores de criticar a livre imigração e o globalismo sem ter que se posicionar em favor de um nacionalista de quinta categoria que, na cara de todos, criou sua própria luta de classes ao incitar o levante do “homem esquecido”.

Por pirraça ideológica-partidária, os liberais brasileiros se posicionaram em favor de um sujeito que enxergou como grande aliado Vladmir Putin, o ex-agente da KGB durante a ditadura comunista e líder do fascismo russo.

Vale lembrar que Putin é um dos principais aliados de Nicolás Maduro, e poucos anos atrás invadiu parte do território da Ucrânia, decretando-o como seu.

Repito: Os liberais brasileiros não precisavam ter apoiado Trump para expor suas ideias e seus desejos. Não precisavam ter apoiado ninguém. Quem defende a diminuição do estado deveria ter como princípio um olhar cético sobre a política.

Obviamente, o apoio dos liberais brasileiros não teve qualquer relevância na eleição de Trump, porém, fica um estrago interno, aqui no Brasil, que ainda será percebido e possivelmente aproveitado pela esquerda: a fragilidade de argumento de um grupo que, ao mesmo tempo em que pediu menos estado e mais liberdade econômica aqui, apoiou um governo nacionalista, altamente protecionista, nos Estados Unidos. Algo não muito diferente do socialista que fala em democracia aqui enquanto apoia a ditadura em Cuba.

Ludwig von Mises, lá do céu, está de olho em vocês!

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