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O alto preço da incompetência

diolma-velpórioA década de 1950 foi um período particularmente interessante da história brasileira, que até hoje costuma ser lembrado com uma certa nostalgia, como uma espécie de “era de ouro” tropical. Além da figura simpática e carismática do presidente Juscelino Kubitschek, havia também uma certa percepção social de que o Brasil vivenciava um ciclo da mudanças. Aquele Brasil agrário, dos coronéis que mandavam e do povo simples que humildemente obedecia, estava ficando para trás. O Brasil, aos poucos, estava se transformando em um país moderno. A efervescência nos campos cultural, artístico e esportivo contribuía para consolidar esse sentimento coletivo de começo de uma nova era. No campo artístico-cultural, podemos citar a arquitetura modernista brasileira, a Bossa Nova e o Cinema Novo. No campo esportivo, o Brasil venceu, na Suécia, a sua primeira Copa do Mundo. E para coroar tudo isso, na década seguinte, mais precisamente em 21 de abril de 1960, inauguramos a nova capital federal.

Porém pouco se comenta a herança que JK legou ao seu sucessor: inflação, queda no crescimento, aumento da dívida externa, queda nas exportações e desequilíbrio nas contas públicas. Com o passar do tempo, a crise econômica transformou-se em crise econômica e política. O desfecho final foi o golpe de 1964 e o início do período militar.

Com essa experiência, poderíamos ter aprendido a singela lição de que o crescimento tem de estar alicerçado em fundamentos macroeconômicos sólidos. Na realidade, hoje sabemos que a função essencial do governo é justamente garantir esses fundamentos. O governo deve criar um ambiente de confiança entre os agentes econômicos privados, que irão investir e gerar o tão desejado crescimento sustentável.

Passados alguns anos, mais precisamente em 1974, um ano após o primeiro choque do petróleo, o Brasil se vê diante de um ambiente externo de grandes incertezas. O que fazer? Os economistas ortodoxos, liderados por Mário Henrique Simonsen, advogavam que o país deveria aceitar as restrições externas e promover um ajuste interno de controle da demanda. Por outro lado, economistas heterodoxos, liderados por João Paulo dos Reis Velloso, defendiam o crescimento a qualquer custo. O Brasil deveria, mesmo nesse ambiente claramente adverso, aprofundar o processo de substituição de importações e manter o crescimento econômico.

O Presidente Ernesto Geisel acabou por escolher a solução heterodoxa. Em 1975, começou a ser colocado em prática o II PND (Plano Nacional de Desenvolvimento), o maior programa de intervenção estatal de toda a história do Brasil. A partir de 1983, o Brasil passou a colher os frutos positivos do plano: redução das importações de bens de capital, redução da dependência externa por petróleo, diversificação da pauta de exportações em favor de manufaturados etc. Todavia, o preço a ser pago foi muito alto, sobretudo em relação ao endividamento externo. Em 1967, nossa dívida externa era de 3,4 bilhões de dólares. Em 1985, chegou a 95,8 bilhões. Em 1987, o Brasil decretou a moratória dos juros externos. A propósito, a combinação de estagnação econômica, inflação alta e endividamento externo fez com que os anos 1980 recebessem a triste alcunha de “década perdida”.

Tivemos, portanto, uma segunda oportunidade de aprender uma antiga lição. O crescimento a qualquer custo cobra um preço muito alto. Melhor evitá-lo.

Em 2003, Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a Presidência da República e optou por uma gestão ortodoxa da política econômica. Tudo correu muito bem até 2008, quando eclodiu a crise das hipotecas nos Estados Unidos. A equipe econômica respondeu à crise com incentivos ficais e redução da taxa de juros. A política deu certo. O erro todo começa a partir daí. O PT achou que tinha descoberto o Santo Graal do crescimento econômico, que foi inclusive batizado com o pomposo nome de “nova matriz econômica”. Era só expandir as políticas fiscal e monetária indefinidamente. Isso iria produzir altas taxas de crescimento e, em alguns anos, nos tornaríamos uma potência mundial. Simples assim!

Esse desvio de rota foi sentido mais claramente no governo Dilma. O crescimento médio da economia brasileira durante a gestão da presidente, de 2011 a 2014, foi de 2,2% ao ano. Foi o pior resultado desde o governo Collor. Ou seja, em vez buscar fortalecer os fundamentos macroeconômicos, Dilma e sua trupe optaram por uma tentativa (frustrada) de crescimento a qualquer custo. Alguma semelhança com fatos anteriores da nossa história, ou será só implicância minha?

A previsão do mercado financeiro, do Fundo Monetário Internacional (FMI) e até mesmo do próprio governo é de que o PIB sofra retração em 2015. De acordo com uma pesquisa realizada, neste ano, pelo Banco Central junto a mais de 100 instituições financeiras, o PIB deve sofrer uma contração de 1%. Ou seja, o pior resultado desde 1990.

Em 2014, de acordo com o IBGE, o PIB brasileiro foi de 5,5 trilhões de reais. Um por cento desse valor equivale a 55 bilhões de reais, ou seja, mais que o dobro do prejuízo de 22 bilhões da Petrobrás. Se considerarmos o que o Brasil poderia ter crescido de 2011 para cá (mas não cresceu) e somarmos o que vamos deixar de crescer em 2015, o prejuizo da nossa maior estatal vira mixaria.

Nos dias 15 de março de 12 de abril, milhões de brasileiros foram às ruas manifestar contra a corrupção. E também contra a crise econômica. Para a maioria dos brasileiros, o grande problema do país é a corrupção. Será mesmo? Acho que a população brasileira ainda não se deu conta de um fato extremamente importante: a incompetência pode ser, em alguns casos, muito mais grave que a corrupção.

Ivan Dauchas

Ivan Dauchas

Ivan Dauchas é economista formado pela Universidade de São Paulo e professor de Economia Política e História Econômica.