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Marx, Bolívar e Rousseau

Este trabalho, que visa a ilustrar a formação rousseauniana do Libertador Simón Bolívar (1783-1930), bem como a avaliação que dele fez Karl Marx (1818-1883), será dividido em três partes: I – A influência de Rousseau na formação e na vida de Simón Bolívar. II – Marx, a filosofia alemã (Kant, Hegel, Feuerbach) e a filosofia francesa (Rousseau, Saint-Simon, Proudhon, Guizot e Constant) e III – Bolívar segundo Marx.

I – A influência de Rousseau na formação e na vida de Simón Bolívar 

Esta primeira parte foi publicada com o seguinte título: L´Influence de Rousseau sur la formation et sur la vie de Simón Bolívar, no II Colloque International de Montmorency: Jean-Jacques Rousseau, Politique et Nation (realizado em Montmorency, França, em 1995).

É indiscutível a presença dos ideais rousseaunianos nas lutas da independência dos vários países ibero-americanos [cf. Sánches Vásquez, 1969; Vélez, 1978 e 1985, Arciniegas, 1984]. Tenciono mostrar a inspiração exercida pelo filósofo de Genebra sobre uma das mais expressivas personalidades do mundo ibero-americano: o Libertador Simón Bolívar (1783-1830). Desenvolverei dois aspectos: 1) O Mestre, em que destacarei como o pensamento rousseauniano inspirou o tutor e mestre de Bolívar, Simón Rodríguez (1771-1854) e como este marcou a formação intelectual do Libertador e 2) O Discípulo, em que analisarei a influência de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) em Bolívar.

1) O Mestre

Simón Rodríguez foi, sem dúvida, o educador que exerceu maior influência na formação da personalidade do Libertador Simón Bolívar. Rodríguez nasceu em Caracas e veio a falecer em Amotape, cidadezinha do Departamento de Piura (Perú) [Cf. Liévano Aguirre, 1987: 15-22].

Se teve alguém que encarnou, de forma fiel, o ideal existencial e de concepção humanística apregoado por Jean-Jacques Rousseau, foi Simón Rodríguez. Ele reproduziu, na sua vida e nos seus ensinamentos, os ideais rousseaunianos: autodidatismo, relação estreita entre natureza e sociedade, moral alicerçada na liberdade, domínio do sentimento sobre a razão, teoria da bondade natural do homem e doutrina do contrato social [Cf. Francovich, 1983: 2].

Simón Rodríguez também sofreu a influência de Holbach (1723-1789) e de Saint-Simon (1760-1825). Do primeiro, o educador de Bolívar tirou a valorização do conhecimento científico e experimental da natureza, influência que, aliás, também tinha recebido de Rousseau. De Saint-Simon recebeu os ideais socialistas, calcados sobre a ideia rousseauniana de igualdade. A filosofia que prevaleceu em Rodríguez foi, como se pode observar, a de Rousseau.

Como o filósofo de Genebra, Simón Rodríguez foi um pensador itinerante. “Não quero – dizia – ser como as árvores, deitando raízes num lugar para não sair dali. O vento, a água, o sol, tudo que se move e não pára nunca, essa é a vida para mim” [In Castro: 1973, 22]. O próprio Bolívar exprimiu da seguinte forma a personalidade itinerante e cosmopolita do seu mestre e amigo: “É o melhor homem do mundo, mas, como é um filósofo cosmopolita, não tem pátria, nem lar, nem família, nem nada” [in Castro, 1973: 22]. Nas suas atitudes práticas o mestre de Bolívar era também um rousseauniano puro: autodidata – como já foi salientado -, amante da natureza, defensor incansável dos oprimidos, reformador audacioso dos métodos pedagógicos, tratava-se de uma personalidade polifacética, difícil de ser enquadrada num sistema de pensamento ou num establishment.

Essa sua natural originalidade o levou a mudar de nome, tendo adotado o de “Samuel Robinson”. Guillermo Francovich [1945: 75] sintetizou assim a figura de Rodríguez: ”A personalidade do ‘Mestre do Libertador’, Simón Rodriguez, é uma das mais originais da história americana. São conhecidas várias anedotas suas graças às quais, se tivesse nascido na Grécia clássica, teria merecido figurar na galeria dos ‘filósofos ilustres’, de Diógenes Laercio, junto a mestres do pensar cínico e cético. Em que pese a sua aparente excentricidade, Simón Rodríguez foi um espírito profundamente humano e preocupado sempre com os problemas do bem-estar social”.

J. A. Cova [1943: 31] , por sua vez, identifica Rodríguez como uma espécie de cópia de Rousseau, da seguinte forma: “As excentricidades, as debilidades ou as manias do angustiado escritor das Confissões revivem incorporadas no ‘dromômano’ impenitente, no preceptor sistemático, no sofista e no poeta hipocondríaco”. O contato de Simón Rodríguez com Bolívar deu-se em três momentos: na adolescência do seu pupilo, entre os 11 e os 14 anos (1794-1797), na sua juventude, aos 21 anos de idade (1804-1805) e vinte anos depois, quando já Bolívar era o Libertador de cinco países. Em todos esses momentos, a influência do mestre sobre o discípulo foi decisiva.

Em relação à influência exercida por Rodríguez sobre o Bolívar adolescente, Jules Mancini [1970: 118] escreve: “Investido de total autoridade sobre o seu discípulo predileto, pensou então Rodríguez em realizar um projeto particularmente grato ao seu coração, o de tratar de pôr em prática o sistema por excelência de educação apregoado por Rousseau. O menino que lhe tinha sido entregue era, como deve ser Emílio, ‘rico’, ‘de grande linhagem’, órfão’, ‘robusto’ e ‘sadio’ e, ao mesmo tempo, não realizava Rodríguez o ideal do preceptor desejado por Jean-Jacques? ‘Jovem’, ‘prudente’, ‘celibatário’ e ‘independente’, ‘uma alma sublime’, qualidades ou atributos aos que podia pretender Simón Rodríguez, o qual, então, tinha vinte e um anos e gozava da reputação de ser o melhor professor da cidade”.

A fim de que o discípulo desenvolvesse as suas potencialidades, o tutor dedicou-se, como dizia Rousseau [1958] no Émile ou de l’ Education, à “difícil tarefa de não ensinar nada ao seu discípulo”, a fim de que pudesse permanecer em “estado natural”. De outro lado, convencido da verdade do axioma rousseauniano de que “a razão do sábio acostuma se associar ao vigor do atleta”, Rodríguez prolongou a permanência do seu pupilo no campo e conseguiu desenvolver maravilhosamente as aptidões físicas do futuro Libertador, que se caracterizava por ser um andarilho incansável, um exímio ginete e um intrépido nadador com quem, como frisa Mancini [1970: 118] “não conseguiu competir nenhum dos seus companheiros de armas”.

Em relação à influência exercida por Simón Rodríguez no período de juventude de Bolívar, o próprio Libertador deu testemunho de grande valia. Em carta dirigida, de Paris, à sua prima Fanny D’Ervieu de Villars (1775-1845), em 1804, Bolívar confessa que foi Simón Rodríguez quem o tirou do estado de depressão em que se encontrava após o falecimento de sua esposa María Teresa Rodríguez de Toro (1781-1803), ocorrido em 1803, e quem lhe indicou o caminho da luta em prol da liberdade da América espanhola como meta que desse sentido à sua vida [Bolívar, 1912: 41-42]. Em 1805, mestre e discípulo viajaram à Itália e ali, no Monte Sacro, em Roma, Bolívar pronunciou, diante de Rodríguez, o famoso juramento de libertar os povos hispano-americanos [Mancini, 1970: 150].

Em relação à influência exercida por Simón Rodríguez na maturidade do Libertador, é muito significativa a carta dirigida por ele ao seu mestre, que então regressava à Ibero-América, depois de 20 anos de permanência na Europa. Eis um trecho dessa carta, datada em 1824: “Ô, meu mestre! Ô, meu amigo! Ô, meu Robinson! O senhor na Colômbia! O senhor em Bogotá e não me falou nada, não me escreveu nada! Sem dúvida que o senhor é o homem (…) mais extraordinário do mundo (…). Ninguém mais do que eu sabe quanto o senhor ama a nossa adorada Colômbia. Lembra o senhor quando fomos ao Monte Sacro, em Roma, jurar sobre aquela terra santa a liberdade da Pátria? (…) O senhor, meu mestre, quanto deve ter me observado de perto, mesmo que colocado em tão remota distância! Com que interesse o senhor deve ter seguido os meus passos, dirigidos muito antecipadamente pelo senhor mesmo (…). Não pode o senhor imaginar quão fundo gravaram-se no meu coração os seus ensinamentos; não tenho conseguido apagar sequer uma vírgula das grandes máximas que o senhor tem-me presenteado: sempre presentes aos meus olhos, tenho-as seguido como guias infalíveis (…). Fico impaciente por saber quais são os seus planos a respeito de tudo (…). O senhor contemplará com encanto a imensa pátria que tem sido esculpida na rocha do despotismo pelo buril vitorioso dos libertadores, os seus irmãos (…). Venha ao Chimborazo. Profane com o seu ousado pé a escala dos Titãs, a coroa da Terra, a torre inexpugnável do Universo Novo. (…) Amigo da natureza, venha perguntar a ela pela sua vida e pela sua essência primitiva (…). Lá (na Europa), ela está dobrada sob o peso dos anos, das doenças e do hálito pestilento dos homens; aqui ela é donzela, imaculada, formosa, ornada pela mão mesma do Criador” [apud Mancini, 1970: 154-155].

O Libertador quis que o mestre irradiasse a luz dos seus conhecimentos nos países recém libertados. No Alto Perú (Bolívia), Simón Rodríguez tentou desenvolver as suas “escolas-modelo”, em que se realizaria o ideal de um “socialismo pedagógico”, com a finalidade de transformar as crianças abandonadas em cidadãos livres. A intenção desse empreendimento, frisava Rodríguez, “não era encher o país com artesãos rivais ou miseráveis, mas instruí-los e acostumá-los ao trabalho para fazê-los homens úteis, dar-lhes terras e apoiá-los nos seus empreendimentos. Tratava-se de colonizar o país com os seus próprios habitantes. Dava-se instrução e ofício às mulheres para que não se prostituíssem por necessidade, nem fizessem do matrimônio um negócio para garantir a sua subsistência” [apud Francovich, 1945: 79]. A iniciativa de Rodríguez não prosperou, de um lado, por causa da sua falta de espírito prático e, de outro, devido às intrigas das oligarquias, das quais, aliás, foi também vítima o próprio Libertador, marginalizado da vida pública nos seus últimos anos [cf. Francovich, 1984: 2; García Márquez, 1989: 269-272; Mutis, 1982: 70-93]. Mestre e discípulo tiveram, assim, um final de incompreensão, como o tivera também o genial inspirador de ambos, “o homem que acreditava no homem”, Rousseau, para repetir o feliz título da obra de Marc-Vincent Howlet [1994].

2) O Discípulo

Se bem é certo que a formação de Simón Bolívar sofreu, como vimos, a marcante influência do seu tutor e mestre, Simón Rodríguez, não se pode afirmar, contudo, que se circunscrevesse aos ideais humanísticos rousseaunianos do seu “Robinson”. Houve no Libertador, também, a formação militar. Para compensar a formação heterodoxa e romântica que o tutor dispensava ao adolescente, o seu previdente tio, don Carlos Palacios y Blanco (1762-1805), decidiu incorporá-lo como cadete no Batalhão de Voluntários de Aragua, o mesmo no qual o pai de Bolívar tinha servido. Entre 1797 e 1798, durante 13 meses, o futuro Libertador recebeu a sua formação militar. Como frisa Sandoval Franky [1991: 40], “(…) daí em diante, até a sua morte, essa atividade seria a sua mais gloriosa, talvez a sua exclusiva e verdadeira profissão”.

Era evidentemente clara a feição militar da personalidade de Bolívar. “A guerra é meu elemento; os perigos, a minha glória”, afirmava ele mais tarde. Com ironia melancólica, o Libertador escrevia ao general colombiano Francisco de Paula Santander (1792-1840): ”Sendo a organização dessa República tão sublime e eu tão soldado, não sou capaz de manejar teclas tão delicadas “. “Fora do exército – afirmava Bolívar em outra oportunidade – estou fora do meu centro”. Mais uma afirmação significativa: “Soldado por necessidade e inclinação, o meu destino está traçado no campo ou nos quartéis”. Ou esta outra: “A minha horrível profissão militar tem-me obrigado a me formar uma consciência de soldado e um braço forte que não pode manejar o bastão mas a espada” [apud Sandoval Franky, 1991: 40]. Se os ideais humanísticos e cívicos foram bebidos por Bolívar na fonte rousseauniana, o seu arquétipo militar foi Napoleão Bonaparte (1769-1821). Como frisa Mancini [1970: 151], “não lhe foi possível se subtrair à influência dos dois homens cujo pensamento e cuja ação dominam o século e a Jean-Jacques e a Napoleão é a quem Bolívar pedirá lições e exemplos”. Não obstante a admiração que o Libertador tinha pelo herói da França na época da assinatura do Tratado de Amiens, em 1802 [cf. Cova, 1943: 49], quando da coroação deste, em 1804, como Imperador dos Franceses, Bolívar considerou que Napoleão tinha traído os ideais republicanos. Ao general Tomás Cipriano de Mosquera (1798-1878) confessou, anos mais tarde: “Depois que Napoleão foi rei, a sua glória mesma parece-me o resplendor do inferno, as chamas do vulcão que cobria a prisão do mundo” [Mosquera, 1977: 39].

Destarte, o arquétipo militar que Napoleão representava estava submetido, na concepção de Bolívar, à preservação do ideal republicano apregoado por Rousseau, centrado na salvaguarda da salvação pública, num momento de crise de legitimidade como o que viviam as nações hispano-americanas. O princípio que inspirou a gesta revolucionária de Bolívar foi, sem dúvida, o exposto por Rousseau [1962: 150] no seu Contrato Social: “Só os maiores perigos podem contrabalançar (o poder) de alterar a ordem pública, e nunca se deve suspender o sagrado poder das leis, a não ser quando se trata da salvação da pátria. Nesses casos raros e manifestos, providencia-se a segurança pública por um ato particular que confia o cargo ao mais digno (…), nomeia-se um chefe supremo que faça silenciar todas as leis, suspendendo a vontade geral, sendo evidente que a primeira intenção do povo é a de que o Estado não pereça”.

Esse foi o princípio que, por exemplo, levou Bolívar a aceitar exercer a ditadura na Venezuleza, em 1814 e no Peru, em 1824; mas a inspiração rousseauniana do Libertador não parava aí. Uma vez garantida a independência e a liberdade às nações hispano-americanas, o Libertador aspirou ao supremo ideal rousseauniano: encarnar a figura do Legislador, o “(…) indivíduo único (…), ser extraordinário, inspirado e quase divino, capaz de dar a um povo, no ponto de partida, na origem de sua vida política, o seu ‘sistema de legislação’, as suas leis essenciais, fundamentais, fonte de instituições duradouras” [Chevallier, 1973: 173].

Assim, o aspecto fundamental do Bolívar político foi o do Legislador que pensou os fundamentos legais do pacto social, o qual garantiria a liberdade e a igualdade às nações recém libertadas do jugo espanhol. É evidente que a concepção constitucionalista do Libertador não se alicerçava, apenas, em fontes rousseaunianas. Inspiradores dela foram, também, Locke (1632-1704), Montesquieu (1689-1755), Sieyès (1748-1836) e os constitucionalistas anglo-americanos. O projeto de constituição apresentado por Bolívar no Congresso de Angostura (1819) deixava ver essas influências nas oito grandes propostas ali contidas: 1) forma republicana de Estado; 2) a soberania nacional materializada nos representantes da nação eleitos por sufrágio censitário; 3) adoção da divisão dos poderes públicos, que seriam quatro: executivo, legislativo, judiciário e moral; 4) adoção dos direitos individuais e das liberdades públicas, à semelhança das experiências norte-americana e francesa; 5) abolição da escravidão e dos títulos nobiliárquicos; 6) organização política e administrativa com base no princípio centralista; 7) adoção do modelo presidencialista norte-americano, com um executivo monocrático controlado por um legislativo bi-cameral; 8) criação de um poder moral com funções para garantir uma fundamental educação cívica aos cidadãos [Rozo Acuña, 1983: 14-15].

Pode-se afirmar, no entanto, que a influência de Rousseau é a mais marcante no pensamento constitucional de Bolívar, toda vez que na filosofia política do genebrino se alicerça o aspecto mais original da proposta bolivariana: a ideia do poder moral. Bolívar pretendia, com ele, dar ensejo ao “regime da virtude” apregoado por Rousseau no seu Contrato Social, e que consistia, fundamentalmente, no banimento dos interesses particulares para que emergissem o bem público e a vontade geral indivisível, infalível, absoluta, inalienável, sagrada e inviolável.

O seguinte trecho do discurso pronunciado por Bolívar em Angostura, em 1819, é revelador da sua inspiração rousseauniana: “Para tirar deste caos a nossa nascente República, todas as nossas faculdades morais não serão suficientes, se não fundirmos a massa do povo num todo; a composição do governo num todo; a legislação num todo, e o espírito nacional num todo. Unidade, unidade, unidade, deve ser a nossa consigna (…). A educação popular deve ser o cuidado primogênito do amor paternal do Congresso. Moral e luzes são os pólos de uma República, moral e luzes são as nossas primeiras necessidades. Tomemos de Atenas o seu Areópago e os guardiães dos costumes e das leis; tomemos de Roma os seus censores e os seus tribunais domésticos; e fazendo uma Santa Aliança dessas instituições morais, renovemos no mundo a ideia de um povo que não se contenta com ser livre e forte, mas que quer ser virtuoso. Tomemos de Esparta os seus austeros estabelecimentos, e formando desses três mananciais uma fonte de virtude, demos à nossa República uma quarta potestade, cujo domínio seja a infância e o coração dos homens, o espírito público, os bons costumes e a moral republicana. Constituamos esse Areópago para que vele sobre a educação das crianças, sobre a instrução nacional; para que purifique o que se tenha corrompido na República (…). A jurisdição desse Tribunal verdadeiramente Santo, deverá ser efetiva em relação à educação e à instrução e de opinião somente nas penas e castigos. Mas os seus anais ou registros onde se consignem as suas atas ou deliberações; os princípios morais e as ações dos cidadãos, serão os livros da virtude e do vício. Livros que consultará o povo para as suas eleições, os Magistrados para as suas resoluções e os juízes para os seus juízos (…)” [Bolívar, 1971: 116-117].

Lendo as anteriores palavras, conclui-se que não é exagero dos biógrafos do Libertador (La Croix, Ducoudray-Holstein, O’Leary, Mancini, etc.) a afirmação de que as obras de Rousseau “constituem (…) em toda ocasião, a sua leitura favorita. Tira dos Discursos o fundo do seu vocabulário até o ponto que, ao ler Bolívar, a gente crê, às vezes, ler uma tradução de Rousseau. Quando se trata de celebrar com festas os primeiros triunfos dos exércitos libertadores, consulta a Lettre sur les spectacles. O Contrat Social ‘farol dos legisladores’, é o seu código de política, e La Profession de foi du vicaire savoyard lhe serve de religião” [Mancini, 1970: 151].

Mas não foi apenas o Bolívar político ou legislador que revelou a influência rousseauniana. Ela se revela também, de forma marcante, no Bolívar educador, para quem o processo educacional consistia no “endurecimento do corpo como suporte do espírito” [apud Acevedo Carmona, 1989: 26]. A influência rousseauniana manifesta-se, outrossim, no Bolívar romântico que ama as mulheres e a vida do bon sauvage e que sente fastídio pela velha Europa. A Fanny de Villars, de quem se apaixonou em Paris, escrevia o jovem Bolívar em 1807: “Vou procurar outro modo de existir; estou fastidiado com a Europa e com as suas velhas sociedades; regresso à América. O que farei ali? (…). Ignoro-o (…). Sabeis que tudo em mim é espontâneo e que jamais faço projetos. A vida do selvagem possui para mim muitos encantos. É provável que eu construa uma palhoça em meio aos belos bosques da Venezuela (…) [apud Gaitán de Paris, 1991: 43]. Outro traço romântico do Libertador, que o aproxima de Rousseau, vamos encontrar na mística revolucionária que o inspirava e que o levou a proferir, em 1805, no Monte Sacro, em Roma, o juramento de libertar a sua pátria [Mancini, 1970: 149-150]. Feição romântica é também a sua rousseauniana admiração pela natureza, expressão da qual foi o seu memorável Delírio sobre o Chimborazo (1824) [Mancini, 1970: 148-149; cf. Arciniegas, 1988: 57] , bem como o fascínio e o magnetismo de sua personalidade que, sem, dúvida, lembram o herói à la Rousseau e o carisma napoleônico [cf. Noguera Mendoza-Castro, 1983: 83, 137, 168].

Como Rousseau e como o seu mestre, Simón Rodríguez, Bolívar teve um final de incompreensão, de que dão testemunho as seguintes palavras escritas, pouco antes de morrer, à amiga Fanny de Villars: “(…) Morro desprezado, proscrito, detestado por aqueles mesmos que gozaram dos meus favores; vítima de intensa dor, cativo de infinitas amarguras. Deixo-te minhas recordações, minhas tristezas e as lágrimas que meus olhos não chegaram a derramar” [in Castro, 1973: 275].

II – Marx, a filosofia alemã (Kant, Hegel, Feuerbach) e a filosofia francesa (Rousseau, Saint-Simon, Proudhon, Guizot, Constant) 

Karl Marx nasceu em Treves, capital da província alemã do Reno, em 5 de maio de 1818 e faleceu em Londres, em 1883. Na cidade natal, o nosso autor teve oportunidade de sentir duas influências contrárias: o liberalismo revolucionário, herdeiro do jacobinismo francês e, de outro lado, a reação conservadora capitaneada pela Prússia, defensora do Antigo Regime. O pai de Karl, Hirschel Marx (1777-1838) era advogado, tendo abandonado o judaísmo em 1824, batizando-se na Igreja Luterana com o nome de Heinrich. Os estudiosos consideram que nessa conversão mediaram motivos de índole econômica, pois na Renânia, onde residia a família Marx, os cargos públicos estavam vedados aos judeus. A mãe do nosso autor, Enriqueta Pressburg (1787-1863), era descendente de rabinos.

Completados os estudos secundários em Treves, Marx ingressou na Universidade de Bonn, a fim de estudar Direito. Em 1836, o jovem estudante transferiu-se para a Universidade Friedrich Wilhelms de Berlim para continuar os estudos de Direito. O seu foco de interesse, no entanto, era o estudo da História e da Filosofia, tendo abandonado o curso inicial. Em Berlim, o nosso autor recebeu a influência do pensamento de Hegel (1770-1831). O estudante dedicado que era Marx logo se filiou à denominada corrente da Esquerda Hegeliana capitaneada por Ludwig Feuerbach (1804-1872), que repudiava a exaltação que Hegel tinha feito do Estado Prussiano.

Em Berlim, Marx ingressou no Doktor Club, que era liderado por Bruno Bauer (1809-1882). Em 1841, obteve o título de doutor em Filosofia com a tese intitulada Diferenças da filosofia da natureza em Demócrito e Epicuro. Não tendo conseguido empreender a carreira acadêmica em decorrência das suas ideias radicais, tornou-se, em 1842, redator do jornal Gazeta Renana, editado em Colônia, onde conheceu aquele que seria o seu mais fiel amigo, o jovem Friedrich Engels (1820-1895), filho de um industrial de Barmen (Alemanha). Em 1843, tendo sido fechada a Gazeta Renana pelo governo prussiano, Marx partiu para Paris, onde assumiu a direção da revista Anais Franco-Alemães, tendo-se casado, pouco antes, com a bela Jenny von Westphalen (1814-1881), filha do barão prussiano Ludwig von Westphalen (1770-1842), professor universitário em Berlim. Na capital francesa, ciceroneado pelo poeta romântico Heinrich Heine (1797-1856), o nosso autor participou de vários círculos de estudos e sociedades secretas, dentre os quais cabe mencionar a Igreja Saint-simoniana. Teve oportunidade, outrossim, de conhecer os escritos de François Guizot (1787-1874), o poderoso primeiro-ministro de Luis Felipe I (1773-1850). Ainda em Paris, em 1843, Marx escreveu a Crítica da filosofia do direito de Hegel e A questão judaica. No ano seguinte, teve contato com a Liga dos Justos (que mais tarde seria conhecida como Liga dos Comunistas) e escreveu os Manuscritos econômico-filosóficos, bem como o famoso artigo acerca de uma greve ocorrida na Silésia, que lhe causaria a expulsão da França, em 1845, a pedido do governo prussiano.

Tendo-se mudado para Bruxelas, Marx escreveu, ainda em 1845, as Teses sobre Feuerbach e, junto com Engels, A sagrada família. Em 1846, em parceria com Engels, escreveu A Ideologia Alemã, que só seria publicada anos mais tarde. Ajudado pelo amigo, organizou, na capital belga, o Comitê de Correspondência da Liga dos Justos que, como já foi frisado, passou a ser chamada de Liga dos Comunistas. Em 1847 viajou para Londres, onde publicou a Miséria da Filosofia. De volta para a Bélgica, terminou expulso pelo governo desse país em 1848 e, junto com Engels, mudou-se para Colônia, onde fundou a Nova Gazeta Renana. Nesse ano foi publicado, em Londres, o Manifesto comunista, de autoria de Marx e Engels.

Expulso de Colônia, em 1849, Marx enfrentou sérias dificuldades financeiras, das quais saiu graças à ajuda do pensador e líder socialista alemão Ferdinand de Lasalle (1825-1864), que depois seria atacado pelo próprio Marx. Nesse ano, o nosso autor escreveu Trabalho assalariado e capital. Em Londres, Marx dedicou-se aos estudos econômicos na biblioteca do Museu Britânico. Para subsistir, escreveu regularmente artigos variados sobre política, economia e cultura, no New York Daily Tribune, entre 21 de agosto de 1852 e fevereiro de 1861. Dessa empreitada participou, também, o seu amigo Friedrich Engels. Em 1852, publicou O 18 brumário de Luís Bonaparte, dedicado à análise dos eventos ocorridos ao ensejo do golpe de estado perpetrado pelo sobrinho do falecido imperador Napoleão Bonaparte (1769-1821), Luís Napoleão Bonaparte (1808-1873) que se coroou, em 1852, como Imperador dos Franceses com o nome de Napoleão III da França.

Dedicado integralmente ao estudo na capital inglesa, em que pesem inúmeros e sérios distúrbios de saúde, Marx publicou, em 1857, a obra intitulada Esboço de uma crítica da economia política. Em 1859 apareceu, em Berlim, a obra intitulada Para uma crítica da economia política, ao ensejo da qual o nosso autor frisou com ironia: “Com certeza é a primeira vez que alguém escreve sobre o dinheiro com tanta falta dele”. Em 1864, Marx propôs a criação da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), denominada popularmente de Primeira Internacional. Em 1865, publicou Salário, preço e lucro, além de uma biografia de Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), com quem manteve séria polêmica, em decorrência do fato de discordar do modelo de socialismo democrático proposto pelo ativista francês. Em 1867 apareceu publicado, em Hamburgo, o primeiro volume de O Capital. Em 1869, o nosso autor deu continuidade à escrita do segundo volume desta obra, que tinha interrompido devido ao seu precário estado de saúde, agravado pela crise financeira familiar. Ao ensejo da revolta conhecida como Comuna de Paris, publicou, em 1871, A guerra civil na França.

Em 1873, o nosso autor encaminhou o seu primeiro volume de O Capital a duas personalidades da intelectualidade britânica: Charles Darwin (1809-1882) e Herbert Spencer (1820-1903). Em que pese o fato de o médico ter-lhe proibido qualquer tipo de esforço, em decorrência do agravamento da saúde, o nosso autor continuou trabalhando incessantemente na redação de O Capital e fez inúmeras leituras acerca de temas diferentes como Matemática, Geologia, Física e a situação social e política da Rússia. Em 1875, Marx publicou Crítica do programa de Gotha. Sob os cuidados de Engels foram publicadas, postumamente, as edições do segundo volume (1885) e do terceiro volume (1894) de O Capital.

Em Karl Marx, o ativista sobrepôs-se ao intelectual, dando ensejo a uma posição radical, que o conduziu ao modelo de socialismo totalitário, que passou a ter vigência na Rússia e nos outros países comunistas, pelo mundo afora, ao longo do século XX, com um saldo trágico de mais de 90 milhões de mortos [cf. Courtois, et alii, 1997: 14].

As ideias filosóficas de Marx podem ser sintetizadas nos seguintes pontos:

1. Adoção da perspectiva transcendental.– Marx, como Immanuel Kant (1724-1804), desmistifica o conhecimento humano, que nas metafísicas dogmáticas tinha ficado reduzido a uma cópia passiva da realidade exterior. Quando o nosso autor afirmava que “até agora os filósofos estiveram preocupados em contemplar o mundo, nós vamos transformá-lo”, justamente propunha um novo tipo de conhecimento em que a verdade fosse efeito da ação humana, não fruto da pura contemplação de um arquétipo pré-existente fora da razão.

2. Formulação do 11º mandamento: “Não explorarás o trabalho alheio”. Marx reagiu contra um princípio de ação estranho ao homem (moralidade pautada pela religião ou pelas leis da circulação de mercadorias), e colocou como critério de ação o homem mesmo, na sua dinâmica histórica, no seio da consciência de classe. Não há dúvida quanto à inspiração kantiana do imperativo formulado por Marx. Como frisa Antônio Paim, “segundo Kant, os princípios morais só o são se não se subordinam a qualquer classe de coação externa e se correspondem a uma exigência profunda da racionalidade, aparecendo ao homem como autêntico imperativo. Essa afirmativa não envolve, por certo, a solução do grave problema da coerência do homem com semelhantes princípios, mas explica satisfatoriamente a vitalidade da ética cristã. A força do marxismo reside no mesmo princípio. O mandamento segundo o qual ‘Não explorarás o trabalho alheio’ parece consistir no ápice de toda uma ética humanista” [Paim, 1984: 502].

3. Formulação do materialismo histórico. Competiria a Marx corrigir o rumo da reflexão feuerbachiana operando o trânsito entre o naturalismo de Feuerbach e o historicismo. A consciência da necessidade nasce não apenas da exterioridade da natureza, mas também da própria história humana. O estímulo para o movimento e a transformação é interior à própria realidade humana. A necessidade é, portanto, não apenas exigência natural, mas também força geradora e motora da história. Em lugar do homem abstrato da natureza, temos o homem concreto e vivo da história, através da classe social. O homem que adquiriu consciência de classe entra na luta de classes, na qual consiste a essência da política, ideias que Marx tira dos doutrinários franceses Benjamin Constant de Rebecque (1767-1830) e François Guizot (1787-1874). A massa humana, que tinha sido idealizada por Feuerbach, encontra em Marx uma formulação concreta e atuante [cf. Mondolfo, 1960]. Marx sintetizou esta dimensão na sua frase, presente na obra A ideologia alemã: “A existência humana determina a consciência”. A propósito deste ponto, frisa Antônio Paim [1984: 496]: “Resumindo, temos que o momento Kant-Hegel chega a uma fase de plena configuração com a esquerda hegeliana, em particular com Feuerbach-Marx. Ao invés da perspectiva platônica (o outro lado das coisas, a permanência, a substância), a perspectiva kantiana (meditação limitada à dimensão humana) desenvolvida no sentido de apreender o homem através de tudo quanto criou, não um homem dado e acabado ex nihilo, mas envolvido no próprio processo de sua criação”.

4. Inspiração de Marx em Claude-Henri de Saint-Simon (1760-1825). Segundo Gurvitch, as teses filosófico-sociológicas em que Marx se inspirou no pensamento saint-simoniano foram as seguintes: A – A afirmação de que “a vida social é essencialmente prática”, bem como a ideia de que “a produção faz o homem” e de que homens e sociedade se produzem a si mesmos pelo seu esforço. B – A idéia de que certas estruturas sociais e determinados modos de produção “impedem a sociedade de entrar em plena posse de seu impulso criador”, sendo que Marx amplia essa ideia na sua teoria das alienações e das ideologias. C – A afirmação de que “as obras da consciência real”, ou obras da civilização, e até as ideologias se integram, de alguma maneira, nas forças produtivas. D – A inclinação de Marx em favor de uma visão dicotômica das relações entre as classes, que o leva a considerar o Estado como seu órgão de domínio de classe. E – A crença de Marx na desaparição do Estado e a adoção, por ele, de slogans saint-simonianos, tais como: “o governo das pessoas será substituído pela administração das coisas”, ou “a cada um de acordo com as suas capacidades, a cada um segundo as suas obras”. F – A concepção escatológica da história. A respeito, escreve Gurvitch: “Marx não evita a tentação de uma filosofia da história que submete à sociologia e que profetiza o fim da história. É neste aspecto que Marx, apesar dos seus esforços, permanece, mais do que Proudhon, fiel a Saint-Simon e à sua escola” [In: Saint-Simon, 1965: 40].

5. Inspiração de Marx em Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865). Segundo Gurvitch, Marx inspirou-se nos seguintes pontos do pensamento proudhoniano: A – A crítica às “classes altas”, burgueses e patrões, pela sua ociosidade. B – O conceito de “força coletiva”, que inspira o conceito marxista de “forças produtivas”. C – A predição acerca da desaparição do Estado.

6. Comunismo implantado por métodos violentos: a destruição do Estado burguês. Este elemento permanece claro na obra de Marx e se contrapõe aos esforços dos socialistas franceses, ingleses e alemães em prol da construção de uma nova sociedade mediante reformas, com a chegada do proletariado ao poder através de eleições (como terminou, de fato, acontecendo, ao longo dos séculos XIX e XX). Marx considerava ser ele o líder da revolução violenta apregoada. A verdade claudicou diante da militância política. Marx foi desmoralizando, um a um, todos os pensadores e líderes socialistas que tinham aderido a um socialismo democrático, diferente do modelo totalitário por ele apregoado. Fez isso, por exemplo, na Alemanha, com Ferdinand Lasalle (1825-1864) e, na França, com Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865). Antônio Paim deixa claro que houve uma influência muito grande do regime apregoado por Marx sobre o adotado, na Rússia, após a Revolução de 1917, por Lenine (1870-1924). Para ambos, somente valia um tipo de socialismo, o denominado comunismo, imposto pelo líder com absoluto banimento da dissidência e com a implantação de um regime de poder total. Na Rússia, o regime bolchevique foi o novo capítulo do “despotismo oriental” czarista [cf. Paim, 2009; Wittfogel, 1977].

7. Inspiração em Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Marx recebeu esta influência primeiro na sua formação em Trèves e depois ao longo de sua permanência em Paris. Para o filósofo genebrino, a soberania do povo repousa na “vontade geral”. Esta é apropriada pela “vanguarda do povo”, constituída pelos “puros”, aqueles que se despiram dos seus interesses individuais para defender o interesse público. Ora, essa vanguarda é chefiada, no caso da revolução comunista, pelo próprio Marx, que se converte numa espécie de salvador das massas proletárias.

8. Inspiração no pensamento dos liberais-conservadores franceses Benjamin Constant de Rebecque (1767-1830) e François Guizot (1787-1874). Como destacou Georgi Valentinovich Plekhánov (1857-1918), um dos mais importantes estudiosos russos da obra de Marx, ideias básicas da sociologia do pensador alemão como interesses individuais, interesses de classe, consciência de classe, luta de classes, encontram a sua origem nesses pensadores liberais-conservadores, cujas obras Marx leu durante a sua permanência em Paris. Até a expressão, presente no Manifesto Comunista: “proletários do mundo, uni-vos” inspira-se na frase conhecida de Guizot: “burgueses da França, uni-vos” e “enriquecei-vos” [cf. Plekhánov, 1989].

III– Bolívar segundo Marx 

Karl Marx (1818-1883) não gostava de Simón Bolívar. Deixou claro isso no verbete que escreveu sobre o Libertador das cinco nações sul-americanas (Colômbia, Venezuela, Peru, Equador e Bolívia). Charles Dana (1819-1897), diretor do New York Daily Tribune, contratou o pensador alemão, que tinha passado a residir em Londres a partir de 1843, para que redigisse alguns artigos sobre história militar, bem como biografias e outros assuntos, a fim de publicá-los na The New American Cyclopaedia, que Dana vinha preparando. O texto de Marx apareceu publicado, em 1858, no volume III da mencionada obra, com o seguinte título: Bolívar y Ponte.

Marx dividiu as matérias para a Cyclopaedia com o amigo e colaborador Friedrich Engels (1820-1895), que desde 1840 tinha passado a residir temporariamente na Inglaterra, primeiro em Manchester e depois em Londres. Na distribuição dos temas, coube a Marx redigir a entrada correspondente a Simón Bolívar. O pensador alemão alicerçou-se, para o seu trabalho, em limitada bibliografia por ele consultada na British Library e que menciona no final do artigo. Estas são as fontes consultadas: DUCOUDRAY-HOLSTEIN, General e VIOLLET Alphonse, Histoire de Bolívar, Paris, 1831. MILLER John, General, Memoires in the service of the Republic of Peru. HIPPISLEY, Coronel, Account of his Journey to the Orinoco, Londres, 1819.

Consultei a seguinte edição do ensaio de Marx, publicado em português com o título: Simón Bolívar por Karl Marx (introdução de José Aricó; epílogo de Marcos Roitman Rosenmann e Sara Martínez Cuadrado; tradução de Vera Ribeiro. São Paulo: Martins, 2008, coleção Dialética, 76 p.). Os meus amigos Antônio Paim e Arsênio Corrêa, do Instituto de Humanidades, presentearam-me com essa obra e a eles dedico o presente artigo.

O acervo da British Library apresentava, na época de Marx, alentada lista de obras sobre o Libertador, que certamente teria dado embasamento a uma apresentação bem mais equilibrada sobre o pensamento e a obra de Bolívar. Marx simplesmente despachou o tema com uma consulta a bibliografia secundária, de forma muito diferente a como agiu em face de outros temas desenvolvidos por ele na Enciclopédia organizada por Dana e na imprensa, no New York Daily Telegraph. Convenhamos que a bibliografia existente sobre Bolívar na Inglaterra de então era bem mais rica. O autor não caprichou na escolha das suas fontes.

Dividirei esta parte da minha exposição em dois itens: 1 – A valoração negativa de Bolívar por Marx. 2 – As razões da visão negativa de Marx acerca de Bolívar.

1 – A valoração negativa de Bolívar por Marx.

Basta dar uma olhada ao texto escrito por Marx para que fique clara a visão negativa deste sobre o Libertador das cinco nações sul-americanas. Num ensaio de 24 laudas, o autor se refere de forma negativa a Bolívar, a fim de caracterizá-lo apenas como o “Napoleão das retiradas”. Os seus triunfos militares não tiveram mérito próprio. Decorreram, ora de circunstâncias alheias como a presença de inúmeros oficiais e soldados estrangeiros, ora da pusilanimidade que de forma instantânea se apossou dos espanhóis em momentos decisivos, ora simplesmente da imprevisível força do destino. Mas nada que possa ser atribuído às virtudes militares do Libertador Simón Bolívar.

Acompanhemos o relato de Marx acerca das “retiradas” do seu biografado. Logo no começo do ensaio, ao traçar um quadro biográfico do início da vida pública do Libertador e de informar que ele formava parte das “famílias mantuanas” que “constituíam a nobreza crioula da Venezuela”, o escritor destaca o fato de Bolívar ter viajado cedo para a Europa, com a idade de quatorze anos, tendo residido na Espanha e na França, concretamente em Paris. O jovem aristocrata, conta Marx, casou em 1802, em Madri, tendo retornado rapidamente à Venezuela onde a sua jovem esposa faleceu de febre amarela. Depois disso, Bolívar visitou a Europa pela segunda vez, tendo estado presente, em Paris, na coroação de Napoleão Bonaparte (1769-1821) como Imperador dos Franceses, em 1804. Bolívar presenciou, também, na Itália, a recepção, por Napoleão, da coroa de ferro da Lombardia, no ano seguinte.

Marx não conta nada acerca da esposa de Bolívar, a aristocrata María Teresa del Toro Alayza (1781-1803), de origem nobre como a esposa do pensador alemão, Jeny von Westphalen (1814-1881). Talvez houvesse semelhanças demais entre Marx e Bolívar neste ponto. Ambos casaram com jovens aristocratas. E ambos amaram profundamente as suas esposas. Bolívar, ao ponto de jurar não se casar mais, embora tenha ficado viúvo na casa dos vinte anos. Marx morreu pouco depois de Jeny, tendo confessado ao seu amigo Engels em carta datada de 1881: “Você sabe que há poucas pessoas mais avessas ao patético-demonstrativo do que eu; contudo, seria uma mentira não confessar que grande parte do meu pensamento está absorvida pela recordação de minha mulher, boa parte da melhor parte da minha vida”. Semelhanças profundas entre dois personagens incompatíveis, pelo menos do ponto de vista de Marx. Seria melhor, na desconstrução da imagem de Bolívar, passar por cima dessa circunstância, que aproximava o escritor do herói sul-americano.

Marx tampouco fala nada da viagem que Bolívar realizou em companhia do seu jovem mestre Simón Rodríguez (1769-1854), um rousseauniano de tempo completo, a várias outras cidades italianas, nem menciona o juramento que o jovem fidalgo fez no Monte Sacro, em Roma, no sentido de libertar as nações sul-americanas do jugo espanhol. Semelhança no empenho heroico de cumprir com uma missão que o destino apresentava a Marx, assim como a Bolívar? Era melhor, também, não fazer alusão ao juramento romântico do biografado.

De regresso à Venezuela, conta Marx, Bolívar rejeitou a proposta do seu primo, José Félix Ribas (1775-1815), para que se incorporasse à revolução nascente contra a dominação espanhola, tendo preferido aceitar uma missão diplomática em Londres, com a finalidade de comprar armas e buscar o apoio do governo britânico para a causa sul-americana. Bolívar somente conseguiu dos ingleses, segundo a narrativa de Marx, a “liberdade de exportar armas em troca de dinheiro vivo”. De volta à Venezuela, o general Francisco de Miranda (1750-1816), comandante das forças insurgentes, o convenceu para que aceitasse o posto de tenente-coronel do estado-maior, sendo destinado para o comando da estratégica fortaleza de Puerto Cabello.

Como comandante militar dessa importante praça, Bolívar revelou-se um irresponsável traidor da causa venezuelana. Conta Marx no seu relato: “Quando os prisioneiros de guerra espanhóis, que Miranda costumava confinar na fortaleza de Puerto Cabello, conseguiram dominar de surpresa os guardas e tomar a cidadela, Bolívar, apesar de os prisioneiros estarem desarmados, ao passo que ele dispunha de uma guarnição numerosa e uma grande quantidade de munição, partiu precipitadamente durante a noite com oito de seus oficiais, sem informar [aos] seus próprios soldados (…) e se recolheu à sua propriedade de São Mateus. Ao tomar conhecimento da fuga do seu comandante, a guarnição retirou-se ordeiramente do local, que foi ocupado de imediato pelos espanhóis comandados pelo general Monteverde. Esse acontecimento fez a balança pender em favor da Espanha e obrigou Miranda, sob as ordens do Congresso, a assinar o Tratado de La Victoria, em 26 de julho de 1812, devolvendo a Venezuela ao controle espanhol” (p. 34). Não contente com a sua covarde fuga, Bolívar aprisionou Miranda e o entregou aos espanhóis que o trancafiaram numa masmorra em Cádiz, onde o comandante das forças venezuelanas veio a falecer meses depois.

Como prêmio pela sua traição, Bolívar recebeu das autoridades espanholas o passaporte para sair da Venezuela. O general Monteverde declarou: “A solicitação do coronel Bolívar deve ser atendida, como recompensa pelos serviços que ele prestou ao rei da Espanha ao lhe entregar Miranda” [Marx, 2008: 35].

Os triunfos dos exércitos venezuelanos contra os espanhóis são explicados por Marx a partir de dois fatores: a crueldade destes para com os nativos e a covardia dos oficiais ibéricos que fugiam quando o confronto se apresentava. A propósito, escreve Marx: “Quanto mais avançavam, maiores se tornavam seus recursos, pois os excessos cruéis dos espanhóis funcionaram em toda parte como sargentos recrutadores do exército dos independentes. A capacidade de resistência dos espanhóis se desarticulou, em parte pelo fato de três quartos de seu exército comporem-se de nativos, que passavam para as fileiras opostas a cada encontro, e em parte pela covardia de generais como Tízcar, Cajigal e Fierro, que a qualquer oportunidade abandonavam suas tropas” [Marx, 2008: 36]. Nada de grande planejamento da parte de Bolívar e muito menos de heroicos esforços do Libertador para manter em alto o moral das tropas. As circunstâncias, não os homens, venciam as batalhas em favor dos venezuelanos!

Bolívar, no entanto, segundo Marx, era atuante numa frente: os desfiles, rodeado de belas damas. Eis como relata a entrada triunfal do Libertador em Caracas em fins de 1813: “Bolívar foi então homenageado com uma entrada apoteótica. De pé sobre um carro triunfal, puxado por doze jovens vestidas de branco e enfeitadas com as cores nacionais, todas escolhidas entre as melhores famílias de Caracas, Bolívar, com a cabeça descoberta e uniforme de gala, agitando um pequeno bastão, foi conduzido por cerca de meia hora, desde a entrada da cidade até sua residência. Proclamando-se ‘Ditador e Libertador das Províncias Ocidentais da Venezuela’ (…) criou a ‘Ordem do Libertador’, formou uma tropa de elite que denominou de sua guarda pessoal e se cercou da pompa própria de uma corte. Entretanto, como a maioria de seus compatriotas, ele era avesso a qualquer esforço prolongado, e sua ditadura não tardou em degenerar numa anarquia militar, na qual os assuntos mais importantes eram deixados nas mãos de favoritos, que arruinavam as finanças públicas e depois recorriam a meios odiosos para reorganizá-las (…) [Marx, 2008: 37].

Tendo recebido o general Bolívar, em 1814, da assembleia popular de Caracas a incumbência de, à frente do poder na Venezuela, negociar com os neogranadinos a unificação de forças para melhor enfrentar os espanhóis, o “Napoleão das retiradas” perpetrou mais uma. Junto com os seus oficiais, fugiu para a Ilha Margarita e dali passou a Cartagena de Índias, não com a finalidade de negociar a unificação de forças com os neogranadinos, mas para perpetrar um golpe contra as autoridades locais. Assim registra Marx essa nova aventura do seu biografado: “Se Ribas, Páez e outros generais houvessem acompanhado os ditadores em fuga, tudo se haveria perdido. Tratados como desertores (…) na Ilha Margarita, zarparam (…) para Cartagena. Ali, para coonestar a sua fuga, divulgaram um manifesto justificatório, redigido numa fraseologia pomposa” [Marx, 2008: 39].

Depois que essa tentativa foi frustrada por parte dos habitantes de Cartagena, “A Heroica”, Marx conta que Bolívar se dirigiu para a cidade de Tunja, no centro do país, onde estava reunido o Congresso da República Federal da Nova Granada. Apesar das aventuras golpistas, Bolívar foi incumbido por esse Congresso de submeter a província rebelde de Cundinamarca e, depois, marchar para o porto de Santa Marta, o único que ainda conservavam os espanhóis. Apesar de as autoridades regionais revoltadas terem sido submetidas mediante a tomada de Bogotá por Bolívar, ele permitiu aos seus soldados que saqueassem a cidade durante 48 horas.

Depois, em lugar de marchar sobre o porto de Santa Marta, no Mar Caribe, Bolívar desviou o curso para Cartagena, a fim de se apossar da cidade que o tinha expulsado e a submeteu a severo cerco. A tentativa não deu em nada “senão (na) redução de seu exército, por deserção ou doença, de 2.400 para uns 700 homens”. Foi uma vergonhosa trapalhada que permitiu às tropas espanholas sediadas em Santa Marta receberem reforços da Espanha, o que obrigou Bolívar a desviar a marcha para Kingston, na Jamaica, onde permaneceu por oito meses. Entrementes, os companheiros que o “Napoleão das retiradas” tinha abandonado na Venezuela resistiram ferozmente aos espanhóis, tendo alguns deles sido presos e fuzilados, como seu primo José Félix Ribas “a quem Bolívar devia sua reputação” [Marx, 2008: 41].

Nas suas andanças pelas ilhas do Caribe ao longo do ano 1815 Bolívar conheceu, no Haiti, Felipe Luís Brion (1794-1821), natural de Curaçao e que prestava os seus serviços como oficial da Marinha ao Reino da Holanda chefiado, na época, pelo irmão casula do imperador Napoleão I, Luis Napoleão Bonaparte (1778-1846). Com apoio do presidente do Haiti, Alexandre Pétion (1770-1818) a quem Bolívar prometeu libertar os escravos das nações que libertasse, organizou um pequeno exército de neogranadinos que tinham fugido de Cartagena e de ex-escravos haitianos. Brion, por sua vez, conseguiu junto aos ingleses armar um navio de guerra. Bolívar convenceu-o a acompanhá-lo numa invasão à Venezuela. Brion aceitou e, nomeado Almirante por Bolívar, que agia como Comandante da expedição, rumaram para as costas venezuelanas. Desembarcaram primeiro na Ilha Margarita, onde receberam o apoio do general Arizmendi, chefe dos insurrectos, tendo conseguido armar 13 navios para transportar os 800 homens com que contava.

Diante do confronto iminente com os ibéricos, aconteceu o que era de se esperar: nova fuga do “Napoleão das retiradas”! Quando o pequeno exército se aproximava da cidade de Valencia, guardada pelo general espanhol Morales com um minguado contingente de 200 soldados e 100 milicianos, de súbito o comandante Bolívar fugiu de novo. Marx cita as palavras de uma testemunha ocular da covardia bolivariana: o comandante perdeu “toda a presença de espírito, não disse palavra, fez meia-volta no ato com o cavalo, fugiu a toda velocidade para Ocumare, passou pelo vilarejo num galope desabalado, chegou à baía próxima, apeou de um salto, entrou num bote e embarcou no Diana, ordenando a toda a esquadra que o seguisse até a ilhota de Buen Ayre [Bonaire] e deixando todos os seus companheiros privados de qualquer auxílio” [Marx, 2008: 43].

Reabilitado pelos patriotas venezuelanos, de forma paradoxal, após mais essa covarde evasão, Bolívar voltou a assumir as funções de Comandante supremo com a promessa de não se imiscuir na administração civil. Seguiram-se, ao longo de 1815, novas derrotas das forças venezuelanas. Em julho desse ano, no entanto, os patriotas conseguiram aplicar forte derrota aos espanhóis, a partir da invasão, pela retaguarda destes, de um contingente comandado pelo general Manuel Piar (1774-1817) que, desembarcando na Guiana com apoio de Brion, os pegou de surpresa. O triunfo das forças revolucionárias comandadas por Bolívar foi significativo.

Mas o triunfo dos revolucionários patriotas não sedimentou uma paz duradoura na Venezuela. O general Pablo Morillo (1775-1837), importante oficial espanhol, veio da Metrópole com a missão de implantar novamente o antigo poderio ibérico. Embora o número das forças comandadas por Bolívar fosse superior ao dos espanhóis, a errática estratégia bolivariana conspirou contra um desfecho feliz. Ao longo da segunda metade de 1815 e durante os anos de 1816 até 1818, os patriotas sofreram severas derrotas dos seus inimigos.

A respeito desses fatos escreve Marx: “Para enfrentar cerca de 4 mil espanhóis, que Morillo não tinha conseguido concentrar, Bolívar reuniu mais de 9 mil homens, bem armados, equipados e fartamente supridos de tudo o que era necessário para a guerra. Não obstante, no fim de 1818, ele havia perdido umas doze batalhas e todas as províncias do rio Orinoco. Dada a maneira como Bolívar dispersava suas forças superiores, elas eram sempre derrotadas quando em separado” [Marx, 2008: 46].

No entanto, o Libertador mudou a sua estratégia aconselhado pelo ex-chanceler venezuelano Juan Germán Roscio (1763-1821) que se desempenhava como o seu assessor jurídico. Duas providências foram adotadas pelo Comandante das forças insurgentes: em primeiro lugar, convocar um Congresso Nacional que votasse novos tributos para financiar a guerra; em segundo lugar, organizar um grande exército que garantisse aos venezuelanos a ofensiva contra as forças realistas. Rapidamente as forças comandadas por Bolívar chegaram a 14 mil homens bem armados.

A 20 de julho de 1818 os espanhóis eram expulsos de todas as províncias venezuelanas. Reunidos num congresso provisório na cidade de Angostura, os patriotas decidiram instaurar um triunvirato semelhante ao Consulado que tinha investido de poderes a Napoleão Bonaparte em 1802. Imitando a jogada que tinha posto em prática o primeiro cônsul francês, Bolívar dissolveu o Congresso e o Triunvirato, instaurou um Conselho Supremo da Nação e se colocou à testa dele. Como chefes militar e político foram nomeados, respectivamente, Brion e Francisco Antonio Zea (1770-1822).

Consolidada precariamente a independência venezuelana, Bolívar conseguiu se ver livre de um concorrente incômodo: o general Piar. A respeito, escreve Marx: “Sob as falsas acusações de ter conspirado (…), planejado um atentado contra a vida de Bolívar e aspirado ao poder supremo, Piar foi levado a julgamento por um conselho de guerra presidido por Brion, condenado, sentenciado à morte e fuzilado em 16 de outubro de 1817” [Marx, 2008: 45].

Restava ao exército libertador um duplo repto: fazer frente a uma nova força espanhola chefiada pelo general Morillo que ameaçava chegar até Caracas ou desalojar os espanhóis da Nova Granada que, pela voz do general Francisco de Paula Santander (1792-1840), pedia ao Libertador o auxílio das forças venezuelanas. A respeito, Marx escreve: “Os oficiais estrangeiros lhe sugeriram fingir que tencionava desferir um ataque contra Caracas para libertar a Venezuela do jugo espanhol, e com isso induzir Morillo a enfraquecer Nova Granada e concentrar suas forças na defesa da Venezuela, enquanto o próprio Bolívar deveria rumar subitamente para oeste, unir-se aos guerrilheiros de Santander e marchar sobre Bogotá”.

A nova estratégia deu certo. Os espanhóis descuidaram a proteção da Nova Granada para concentrarem as suas forças na defesa de Caracas. Num arrojado lance que lembra a travessia do general cartaginês Aníbal (248-182 a.C.) escalando com os seus elefantes os Alpes para surpreender as legiões romanas, Bolívar dirigiu-se direto das planícies venezuelanas para os Andes, a fim de chegar a Bogotá no menor tempo possível. Realizou, nesse caminho, a arriscada escalada dos Andes, partindo de uma altitude baixa e galgando as geadas cumes da Cordilheira na Sierra del Cocuy (Páramo de Pisba), na província de Boyacá. Nesse trajeto vários dos seus soldados provenientes das cálidas planícies venezuelanas (que integravam a combativa divisão de lanceiros) pereceram de frio ao enfrentarem uma altitude superior aos 5 mil metros. A caminho da capital neogranadina, o exército libertador derrotou os espanhóis em três batalhas sucessivas travadas em 1º de julho, 25 de julho e 7 de agosto de 1819, tendo ficado as duas últimas (Pântano de Vargas e Ponte de Boyacá) como marco histórico da independência neo-granadina.

Vale destacar que essa campanha realizada por Bolívar é apenas mencionada en passant por Marx, ignorando totalmente o valor militar de que deu prova o Libertador nessas jornadas, reconhecidas pelos historiadores como fruto de uma corajosa e arrojada estratégia militar, comparáveis às campanhas desenvolvidas por Napoleão nos Alpes, quando da sua primeira chegada à Itália.

O triunfo das tropas neo-granadinas e venezuelanas foi acachapante e garantiu a libertação definitiva da Nova Granada, tendo aberto a porta para a independência definitiva da Venezuela do jugo espanhol. Com a libertação dos dois países nascia a República da Colômbia. A partir daí Bolívar colocou em pauta a libertação dos restantes três países ainda dominados pela Espanha: Equador, Peru e Bolívia. Foi uma política bem pensada, arrojada e que consolidou a fama de Bolívar como excelente estrategista.

Consolidado o triunfo sobre os espanhóis nas gestas de agosto de 1819, Marx resume de forma bastante genérica o que se passou depois. Para o autor de O Capital, tudo não passou de uma circunstância que possibilitou a Bolívar juntar uma grande soma de dinheiro. Do ponto de vista militar, Bolívar desperdiçou a oportunidade que tinha de esmagar os espanhóis, graças à presença, nas filas de combatentes neogranadinos e venezuelanos, de grande contingente de soldados europeus.

A respeito, Marx frisa: “(…) Com um tesouro de uns 2 milhões de dólares, obtidos dos habitantes de Nova Granada mediante contribuições forçadas, e dispondo de uma tropa de aproximadamente 9 mil homens, um terço dos quais compunha-se de ingleses, irlandeses, hanoverianos e outros estrangeiros bem disciplinados, coube-lhe então enfrentar um inimigo despojado de todos os recursos e reduzido a uma força nominal de 4.500 homens, dois terços dos quais eram nativos e, por conseguinte, não podiam inspirar confiança nos espanhóis. Com Morillo em retirada (…), os quartéis-generais inimigos ficaram a apenas dois dias de marcha um do outro. Se Bolívar tivesse avançado com arrojo, suas simples tropas europeias teriam esmagado os espanhóis, porém ele preferiu prolongar a guerra por mais cinco anos” [Marx, 2008: 48].

O certo é que, no decorrer dos anos de 1820 e 1821, as forças neogranadinas e venezuelanas se tornaram mais fortes. Bolívar comandava um exército de 6 mil homens de infantaria, entre eles a legião britânica com 1.100 soldados, além de 3.000 cavalarianos “llaneros” sob o comando do general Páez. Contando com a sorte que fez com que fracassasse a expedição que, da Espanha, comandava o general Enrique José O´Donnell (1776-1834), os patriotas desalojaram definitivamente os espanhóis da Venezuela e o Libertador pôde, então, centralizar os seus esforços bélicos na libertação dos países do sul e partir para o Equador, o Peru e a Bolívia.

Marx faz uma avaliação genérica dessa campanha, destacando dois aspectos: de um lado, o caráter centralizador e autocrático de Bolívar e, em segundo lugar, fazendo ênfase no decisivo papel desempenhado pelos auxiliares do Libertador, notadamente o “Marechal de Ayacucho” o nobre general venezuelano Antonio José de Sucre y Alcalá (1795-1821) nas batalhas travadas contra os espanhóis. Na avaliação de Marx, aquilo de que mais gostava Bolívar era o poder ditatorial, sem esquecer as entradas triunfais, os manifestos e a promulgação de constituições.

A propósito, frisa: “(…). Essa campanha, que se encerrou com a incorporação de Quito, Pasto e Guaiaquil à Colômbia, foi nominalmente liderada por Bolívar e pelo general Sucre, mas os poucos êxitos alcançados pelo corpo do exército deveram-se inteiramente a oficiais ingleses, como o coronel Sands. Durante as campanhas contra os espanhóis do Baixo e Alto Peru, em 1823-1824, Bolívar já não julgou necessário manter a aparência de ser o comandante supremo, delegou toda a condução dos assuntos militares ao general Sucre, e se restringiu às entradas triunfais, aos manifestos e à promulgação de constituições. Por meio de sua tropa de guarda-costas colombianos manipulou a votação do Congresso de Lima, que, em 10 de fevereiro de 1823, transferiu para ele a ditadura; ao mesmo tempo, garantiu sua reeleição como presidente da Colômbia, mediante um novo pedido de renúncia. Nesse meio tempo, sua posição se havia fortalecido, em parte graças ao reconhecimento formal do novo Estado pela Inglaterra, em parte pela conquista das províncias do Alto Peru, as quais este unificou numa república independente, sob o nome de Bolívia. Ali onde as baionetas de Sucre imperavam, Bolívar deu livre curso a suas inclinações para o poder arbitrário, e introduziu o Código Boliviano, numa imitação do Código Napoleônico. Seu projeto era transplantar esse código da Bolívia para o Peru e deste para a Colômbia, a fim de manter esses Estados subjugados às forças colombianas, e manter a Colômbia submetida mediante a legião estrangeira e os soldados peruanos. (…) Como presidente e libertador da Colômbia, protetor e ditador do Peru e padrinho da Bolívia, atingiu o auge da sua glória (…)” [Marx, 2008: 52].

Bolívar desejava realizar a unidade dos países por ele libertados, ampliando o seu poder a toda a América do Sul, que deveria se tornar uma espécie de República Federativa, a fim de perpetuar o seu nome pelo mundo afora. Esse foi, no sentir de Marx, o “sonho bolivariano” que teve, porém, um breve momento de realização, em decorrência das traições dos seus dominados e devido, também, à doença que o afetava, a tuberculose, fato que é omitido pelo nosso ensaísta.

Em relação ao “sonho bolivariano”, escreve Marx, na parte final da biografia: “O que Bolívar realmente almejava era erigir toda a América do Sul como uma única república federativa, tendo nele próprio seu ditador. Enquanto, dessa maneira, dava plena vazão a seus sonhos de ligar meio mundo a seu nome, o poder efetivo lhe escapou rapidamente das mãos. Informadas dos preparativos de Bolívar para introduzir o Código Boliviano, as tropas colombianas do Peru promoveram uma insurreição violenta. (…). Sob a pressão de suas baionetas, assembleias populares reunidas em Caracas, Cartagena e Bogotá, para a última das quais Bolívar se deslocara, tornaram a investi-lo de poderes ditatoriais. Uma tentativa de assassiná-lo no quarto em que ele dormia, da qual o ditador só escapou por ter pulado da sacada em plena escuridão e se escondido embaixo de uma ponte, permitiu-lhe introduzir, durante algum tempo, uma espécie de terrorismo militar. Mesmo assim, ele não pôs as mãos em Santander, apesar deste haver participado da conspiração, ao passo que mandou executar o general Padilha, cuja culpa de modo algum fora provada, mas que, como homem de cor, não pôde oferecer resistência”.

Neste último episódio, Marx faz ênfase na covardia de Bolívar, que somente aplicou a pena capital naquele que não podia reagir, um oficial mulato, o general colombiano José Prudencio Padilla (1784-1827) herói da batalha de Maracaibo, que selou a independência da Venezuela. Com a sua autoridade contestada pelos colombianos, Bolívar refugiou-se no casarão de San Pedro Alexandrino, perto de Santa Marta, no litoral caribe da Colômbia, “quando faleceu repentinamente”, escreve Marx.

A realidade é que o Libertador foi vítima de tuberculose, que o afetou ao longo dos últimos anos. A vida de Bolívar extinguiu-se, assim, na luta entre dois inimigos: a doença e a reação dos seus libertados, como destacou com maestria Gabriel García Márquez (1927-2014) no romance histórico intitulado: El general en su laberinto [1989].

2 – As razões da visão negativa de Marx acerca de Bolívar.

Várias interpretações foram elaboradas pelos estudiosos do marxismo em relação à apresentação escrita por Marx sobre o Libertador. Destaquemos, de entrada, a mutante versão “eclesiástica” elaborada pelos intelectuais do Kremlin, ainda na época do Império Soviético, sobre o escrito de Marx.

Para os especialistas russos, como frisa o estudioso marxista argentino José Aricó (1931-1991), na sua Introdução – O Bolívar de Marx, [in: Marx, 2008: 9], as opiniões dos americanistas soviéticos, influenciados de forma decisiva por Vladímir Mikháilovich Mirochévski (1902-1978) e sua escola, “(…) coincidiram com a visão de Marx sobre Bolívar, tornando-a extensiva a uma caracterização negativa das guerras de independência latino-americanas. Enfatizando o limitado caráter nacional e popular do processo revolucionário que conduziu à constituição dos Estados independentes, viram nele apenas ‘um assunto próprio de um punhado de separatistas crioulos que não contavam com o apoio das massas populares’. O juízo formulado por Marx foi transposto inclusive para as demais personalidades do movimento de libertação e até para o próprio movimento”.

No entanto, essa posição canônica dos especialistas do Kremlin mudou nos anos posteriores. A parcial avaliação de Marx sobre Bolívar foi atribuída, então, à parcialidade das fontes por ele consultadas, destacando – falsamente – a ausência de fontes melhores.

Os americanistas soviéticos escrevem, de forma a salvar a isenção intelectual do seu ícone: “Marx, como é natural, não possuía à sua disposição, naquela época, outras fontes senão as obras dos autores mencionados, cuja parcialidade era então pouco conhecida. Por conseguinte, era inevitável que Marx elaborasse uma opinião unilateral sobre a personalidade de Bolívar, como se reflete nesse ensaio. Essa ambição de poder pessoal, ampliada nas obras mencionadas, não pôde deixar de influir na atitude de Marx para com Bolívar” [cit. por Arigó, in: Marx, 2008: 9].

Arigó coloca outra razão que explica a pinimba de Marx contra Bolívar: o fato de este ter ancorado na valorização das revoluções bonapartistas, à sombra do pensamento hegeliano e nesses “países sem história” (presentes em Ibero-America) como pensava o filósofo do Espírito Absoluto. Ora, o que Hegel (1770-1831) destacou foi uma espécie de retardamento da grande revolução proletária, consistente numa “expressão linear de uma relação de força já previamente consolidada dentro da esfera econômico-produtiva” [Arigó, in: Marx, 2008: 20]. Explicação, convenhamos, um tanto obscura que visa, apenas, a salvar a boa reputação de Marx entre os marxistas. Bolívar era rejeitado por Marx porque encarnava uma abstração da ciência burguesa esconjurada pelo autor de O Capital.

Quanto à minha explicação sobre a parcialidade de Marx para com Bolívar, faço, apenas, duas anotações. Em primeiro lugar, a sociologia marxista se dava bem no contexto dos denominados por Weber (1864-1920) de “Estados Contratualistas”, aqueles que surgiram ao ensejo da formação de classes sociais que lutavam pela posse do poder. Não tendo conseguido se eliminar mutuamente, as várias classes firmaram “contratos” a partir dos quais emergiu o moderno Estado, a partir da luta de classes [Cf. Weber, 1944: I e IV volumes].

É o caminho assinalado por François Guizot (1787-1874) para explicar a formação da Europa moderna, na sua obra intitulada História da Civilização na Europa desde a queda do Império Romano até a Revolução Francesa [cf. Guizot, 1864]. A Europa viu nascerem Estados Modernos ali onde houve feudalismo de vassalagem, que possibilitou a diferenciação das sociedades e a emergência de classes “com consciência de classe”. Como destacou Plekhanov (1856-1918), Marx se louvou desses conceitos sociológicos conservadores, adotados por Guizot e que, no tangente às classes sociais e à sua dinâmica, tinham sido já tratados por Benjamin Constant de Rebecque (1767-1830) nos seus Princípios de Política (1810).

Já em relação ao tipo de “Estado Patrimonial”, estudado por Weber e Karl Wittfogel (1896-1988), não se deu essa diferenciação em classes sociais, mas o Estado moderno se configurou como alargamento de uma autoridade patriarcal primigênia sobre territórios, pessoas e coisas extrapatrimoniais, passando a administrá-lo tudo, como “propriedade familiar ou patrimonial”.

Assim teriam surgido, no Oriente, os Estados Patrimoniais ao ensejo do “despotismo hidráulico”, que teve também a sua manifestação na Península Ibérica, bem como na Rússia czarista e nos Impérios pré-colombianos inca e asteca. Teria Marx uma dificuldade especial para lidar com essas formações sociais, onde o poder, como diz Raimundo Faoro (1925-2003), “tem donos” [cf. Faoro, 1958]. Ora, essa era a realidade imperante na América Latina, por força da forma em que espanhóis e portugueses conquistaram o Novo Mundo, como se se tratasse de um bem de família, submetido domesticamente aos soberanos na “empresa do rei”. Um Estado surgido da luta de classes simplesmente inexistiu na América Latina. Daí a dificuldade para Marx entender este quadrante da história moderna. A ação libertadora de Bolívar ficava, portanto, presa a essa penumbra.

Em segundo lugar, do ângulo da formação intelectual, poderíamos reconhecer algumas contradições presentes no pensamento de Marx. No caso da avaliação negativa de Bolívar por parte do pensador alemão, a principal contradição decorria de uma rejeição profunda e emocional que Marx tinha experimentado em face de uma personalidade que não se ajustava às suas expectativas revolucionárias, o seu genro Paul Lafargue (1842-1911), que o destino colocou como parceiro conjugal da sua amada filha, Jenny Laura (1845-1911).

Médico de origem franco-cubana, Lafargue se orgulhava de ter escrito um ensaio polêmico que se intitulava O direito à preguiça, publicado pela primeira vez, em 1880, no semanário L´Égalité. Ora, um socialista judeu, como Marx, que valorizava o trabalho como fonte de redenção da classe operária e que acreditava no papel messiânico da classe explorada, à sombra do messianismo político de Saint-Simon (1760-1825), certamente se revoltou contra alguém que se gabava, na empreitada escatológica para libertar os trabalhadores, de fazê-lo de costas para o trabalho, a partir do ócio. “Semeei dragões, mas colhi pulgas”, afirmou Marx de certa feita em relação aos seus genros, Paul Lafargue e Charles Longuet (1839-1903).

Marx, efetivamente, teria dificuldade em aceitar uma afirmação de Lafargue como esta: “Uma estranha loucura está a apossar-se das classes operárias onde reina a civilização capitalista. Esta loucura arrasta atrás de si misérias individuais e sociais que, há dois séculos, atormentam a triste humanidade. Esta loucura consiste no amor ao trabalho, na paixão moribunda pelo trabalho, levada ao depauperamento das forças vitais do indivíduo e da sua prole” [Lafargue, 1977: contra-capa]. Marx afirmaria que aquilo que confere valor às mercadorias é o “trabalho social” que as produziu. A riqueza, portanto, dele provém. Não é o trabalho que empobrece os operários, mas a apropriação, pelos capitalistas, da mais-valia decorrente do trabalho das classes operárias, nas sociedades capitalistas [cf. Marx, 2003, I: 10-20; 60-75].

Com a sua concepção anti-trabalho que se aproximava da visão contrarreformista imperante na Península Ibérica, Lafargue virou uma espécie de embaixador informal das ideias comunistas no meio ibérico. Mas o sogro jamais o perdoou por ter negado a “ética do trabalho” presente no Capital. Lafargue seria uma espécie de “bode expiatório” que carregava sobre si a infelicidade ibérica de não contar com a valorização do trabalho. Cubano e herdeiro dessa concepção nobiliárquica ibérica que fazia do trabalho “castigo pelo pecado original”, Lafargue possibilitou que a imaginação do sogro enxergasse, à sua sombra, outra figura herdeira dessa perniciosa tradição de ética do não trabalho, o festeiro e guerreiro Bolívar, o “Napoleão das retiradas”.

Lafargue e Jenny Laura praticaram o suicídio em 1911, se injetando uma substância letal. Na mensagem de despedida, Lafargue escreve que comete o suicídio “antes que a velhice imperdoável me arrebate”. Lenine (1870-1924), tornando-se porta-voz dos comunistas, escreveu a respeito: “Um socialista não pertence a si mesmo, mas ao partido. Pode ser útil à classe operária. Por exemplo, escrevendo nem que seja um artigo ou um apelo. Não tem direito a suicidar-se”.

O principal ideólogo da revolução bolchevique, terminava assim o seu discurso em homenagem a Paul e Laura Lafargue, quando do suicídio deles em 1911: “A revolução russa deu início às revoluções democráticas em toda a Ásia, e 800 milhões de homens participam agora no movimento democrático, em todo o mundo civilizado. Multiplicam-se cada vez mais na Europa os sinais precursores do fim da época em que dominava o parlamentarismo burguês, dito pacífico, época que cederá lugar à dos combatentes revolucionários do proletariado, organizado e educado no espírito das ideias do marxismo, que deitará por terra o poder da burguesia e instaurará a ordem comunista” [Lenine, in: Lafargue, 1977: 6].

Lenine assinalava, assim, o caminho da revolução comunista: vingaria principalmente ali onde tinha amadurecido o “despotismo oriental ou asiático”, na Rússia inicialmente e, depois, na China. Na Europa, onde a classe operária fez as reformas participando da luta parlamentar, um comunista feito Lenine não cogitava em mudanças significativas. Mas “a prova da História seria outra”, com as reformas parlamentares feitas pelos sociais-democratas na Alemanha, na França e na Inglaterra. A balança da História se inclinaria a favor de Eduard Bernstein (1850-1932) e os socialistas democráticos, que decididamente se afastaram dos comunistas e do modelo de socialismo despótico apregoado por Marx.

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Ricardo Vélez-Rodríguez

Ricardo Vélez-Rodríguez

Mestre em Filosofia (PUC/RJ). Doutor em Filosofia (UGF). Professor da Universidade Federal de Juiz de Fora. Coordenador do Centro de Pesquisas Estratégicas "Paulino Soares de Sousa". Coordenador do Núcleo de Estudos Ibéricos e Ibero-Americanos. Professor Emérito na Escola de Comando e Estado Maior do Exército.