Fortaleza abriu mais empresas que Juazeiro do Norte, Caucaia e Maracanaú somadas! Jura?!? E daí?

Recentemente esbarrei em uma notícia compartilhada pelo Rodrigo Saraiva Marinho (link aqui) dando conta de que o prefeito de Fortaleza estava comemorando que foram abertas mais empresas na cidade do que em qualquer outra da Terra da Luz. Os que não conhecem as terras alencarinas podem não entender o tamanho do absurdo que é comparar em números absolutos a criação de empresas em Fortaleza e nas demais cidades do estado. Segundo dados do Empresômetro – Inteligência de Mercado (link aqui), 44% das empresas do Ceará estão em Fortaleza. É a oitava maior concentração de empresas na capital entre os estados brasileiros. A figura abaixo mostra o número de empresas nas quinze cidades cearenses com mais empresas.

Repare que Fortaleza tem quase doze vezes mais empresas que Juazeiro do Norte, segundo lugar na lista; nem Padre Cícero conseguiria fazer que abrissem menos empresas na terra dele do que em Fortaleza. Se no lugar do número absoluto olharmos a variação percentual no número de empresas em cada cidade, Fortaleza sai de um primeiro lugar disparado para um modesto sétimo lugar. Ocorre que é difícil separar o que acontece nas outras cidades do estado do que acontece em Fortaleza. A concentração econômica na capital é tão grande que não é absurdo supor que a dinâmica da economia de Fortaleza afeta as outras cidades do Ceará.

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Talvez uma comparação mais interessante seja avaliar o desempenho de Fortaleza contra o de outras capitais. Novamente a comparação em termos absolutos não é adequada devido à desproporção entre o número de empresas nas várias capitais. A figura abaixo mostra a distribuição de empresas nas capitais brasileiras. Repare que o número de empresas em São Paulo é mais de sete vezes o número de empresas em Fortaleza, mais de dez vezes o número de empresas em Recife e mais de trezentas vezes o número de empresas em Vitória. Aliás, vale registrar que Vitória é a única capital brasileira que não lidera o número de empresas do estado – a cidade com mais empresas no Espírito Santo é Vila Velha.

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Para reduzir os efeitos da grande diferença do número de empresas em cada capital, vou repetir o exercício que fiz para o Ceará e olhar para a variação percentual no número de empresas. A figura abaixo mostra esse exercício. Repare que entre as vinte e seis capitais estaduais e Brasília, apenas São Luís, Macapá, Teresina e Porto Alegre tiveram um crescimento menor que Fortaleza no número de empresas ativas, ou seja, a capital dos verdes mares bravios ficou na vigésima terceira posição entre as vinte e sete cidades listadas. Não creio que seja motivo para comemorar.

Alguém pode argumentar que por estar em sétimo lugar no ranking de números de empresas, era de se esperar que Fortaleza tivesse uma posição intermediária no ranking de crescimento de empresas. Além da base maior, o grande número de empresas pode sugerir que existem menos oportunidades para abrir novos negócios. Argumentos dessa natureza podem ajudar a explicar as primeiras colocadas na lista de crescimento do número de empresas, mas perdem força para explicar o desempenho de Fortaleza diante do fato de que todas as capitais com mais empresas que Fortaleza mostraram um crescimento do número de empresas maior que o de Fortaleza.

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Roberto Ellery

Roberto Ellery

Roberto Ellery, professor de Economia da Universidade de Brasília (UnB), participa de debate sobre as formas de alterar o atual quadro de baixa taxa de investimento agregado no país e os efeitos em longo prazo das políticas de investimento.