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Fascismo, antifascismo e a deslegitimação do liberalismo no debate público

A palavra fascismo está mais uma vez em voga. Com a atual crise no governo Bolsonaro, grupos que se vêm denominando “antifascistas” têm pautado o atual debate político brasileiro nos últimos dias e a famosa acusação de fascismo novamente vem à tona. Antes de abordarmos os rótulos em si, precisamos definir bem o que é fascismo e o que é o movimento “antifa”.

O fascismo, como sabemos, é uma ideologia totalitária e ultranacionalista oriunda da Itália, criada pelo finado ditador Benito Mussolini. O fascismo se caracterizava pela sua repulsa completa ao individualismo, ao liberalismo e ao comunismo, ou como o próprio Mussolini pode definir em sua obra A Doutrina do Fascismo: “Fascismo é, portanto, oposto a todas as abstrações individualistas baseadas no materialismo do século 18; e é oposto a todas as utopias e inovações jacobinas. Não acredita na possibilidade da “felicidade” na Terra como concebida pela literatura economicista do século 18 e, portanto, rejeita também a noção teológica de que no futuro a família humana encontrará um descanso final de todas as dificuldades. Essa noção é contrária à experiência que expõe a vida como um processo continuo e fluido de evolução. Na política o Fascismo busca realismo; na prática deseja lidar apenas com os problemas criados espontaneamente por condições históricas e que possam ter ou aparentam ter solução. Apenas entrando no processo da realidade e controlando as forças que a regem, o homem pode agir sobre os homens e a natureza. Por ser anti-individualista, a concepção Fascista da vida expressa a importância do Estado e aceita o individual apenas enquanto os interesses deste coincidam com os interesses do Estado, que defende a consciente e universal vontade do homem enquanto entidade histórica. O Fascismo é oposto ao liberalismo clássico que surgiu como reação ao absolutismo e exauriu sua função histórica quando o Estado se tornou a expressão da consciência e vontade do povo. O liberalismo negou o Estado em prol do indivíduo; O Fascismo reassenta os direitos do Estado como expressão da real essência do indivíduo. E se a liberdade é para o indivíduo o atributo dos homens vivos e não de manequins abstratos inventada pelo liberalismo individualista, então o Fascismo luta pela liberdade, pela única liberdade digna de se ter: a liberdade do Estado e dos indivíduos neste inseridos. O conceito Fascista de Estado abraça a tudo; fora deste conceito nenhum humano ou valores espirituais podem existir, muito menos ter valor”.

Ou como define o historiador britânico Roger Griffin: “um gênero de ideologia política cujo núcleo mítico em suas várias permutações é uma forma palingenética de ultranacionalismo populista” tendo três elementos principais: o mito do renascimento, o mito da decadência e a postura ultranacionalista.

Em resumo, como podemos observar, podemos simplificar definindo o fascismo como um regime totalitário, ultranacionalista, antiliberal, que nega o indivíduo e limita todo conceito humano e valores à participação do Estado, não podendo haver qualquer valor, nem mesmo espiritual, fora do aparato estatal.

Já o movimento “antifa” é um movimento que surge nos Estados Unidos na década de 30 e desde o seu nascimento sempre foi formado por grupos de esquerda, sendo um movimento composto por comunistas e anarquistas. Em paralelo a isso, em 1932, tivemos o surgimento do primeiro grupo “antifa” da Alemanha (e primeiro a usar o termo “antifa”), o chamado Antifaschistische Aktion, que surge como um braço direito do partido comunista alemão.
O movimento surge inicialmente como um grupo de esquerda para combater a ascensão do nazismo nos Estados Unidos e na Europa. Após a Segunda Guerra, o grupo se espalha pelo mundo inteiro. As atuações dos “antifa” são pautadas no que eles chamam de ação direta, uma tática violenta na qual vão atrás de supostos “fascistas” e difusores de discurso de ódio para impedi-los por meio da agressão física.

Dito isso, já tendo definido os dois termos, voltemos à atualidade. Apesar de termos duas definições bem estabelecidas, para fins políticos tais conceitos são constantemente banalizados com o intuito de rotular adversários -e é nesse ponto em que liberais demonstram sua maior fraqueza ao serem contestados.

O grande problema do movimento “antifa” e do seu conceito é a forma como definem “fascismo” e “antifascismo” e é aí onde começa a banalização do termo. A palavra fascismo é usada desde o pós-guerra como arma para fins de difamação do seu adversário. Militantes de esquerda utilizam a palavra para se referir a todos aqueles que discordem de seus ideais, englobando liberais, conservadores, anarcocapitalistas e até mesmo pessoas da própria esquerda, sendo uma arma de destruição de reputações. Tais rótulos não começaram agora com o governo Bolsonaro; se formos pegar o histórico, todos aqueles que se apresentaram como oposição ao PT desde a redemocratização foram rotulados de tal forma. O meu amigo André Assi Barreto fez em 2018 um ótimo artigo que compilou algumas imagens que demonstram isso. Deixo aqui algumas delas, que servem para demonstrar como os adversários da esquerda sempre foram tratados.

Como podemos ver, nunca foi incomum o uso de rótulos como “fascista” e “nazista” por parte de militantes de esquerda com o intuito de deslegitimar seus adversários. No atual momento de tensão, não teria como ser diferente. No último dia 31 de maio, grupos “antifas” se uniram com torcidas organizadas para fazer aquilo que eles chamavam de “protesto contra o fascismo”, protesto esse que acabou se tornando uma verdadeira batalha campal entre grupos que se diziam antifascistas e apoiadores do governo.

Diante de tal confronto, diversos influenciadores não só relativizaram a violência como participaram desse jogo retórico produzido pela esquerda, no qual todos aqueles que se opõem ao movimento “antifa” automaticamente são taxados de fascistas. Vimos isso, por exemplo, por parte dos influenciadores Felipe Castanhari e Felipe Neto, dois dos maiores digital influencers do Brasil:

Outra coisa interessante é o uso da expressão “Protesto pró-democracia”, que infelizmente se tornou mais uma expressão vaga na boca de militante, visto que, entre aqueles que a empregam, vemos partidos como PCdoB, PT, PSOL, PCB, PCO e similares, partidos que já fizeram diversas declarações em prol de ditaduras e regimes totalitários, como o regime cubano, o regime norte-coreano, a ditadura de Nicolás Maduro na Venezuela ou até mesmo a ditadura de Ahmadinejad no Irã, que degolava homossexuais. O termo “democracia” é simplesmente um termo banal na esquerda; serve única e exclusivamente para rotular como antidemocráticos todos aqueles que discordam das suas ideias. Vamos lembrar que até mesmo a ditadura mais totalitária da atualidade é chamada de República Democrática da Coreia. Nunca houve uma preocupação real com as liberdades individuais ou com o direito ao voto.

Como podemos ver, os termos na esquerda são utilizados não de acordo com seu real significado, mas como anti-conceitos. Fascista e anti-democrático são todos aqueles que discordam deles. Por que fazem uso desse jogo retórico? Pois bem, o nazi-fascismo é algo repudiado por qualquer pessoa minimamente decente. Ninguém em sã consciência pode concordar com a segregação, com o racismo e com o extermínio de pessoas. Ser considerado um fascista é a pior coisa que pode acontecer para a reputação de alguém. O termo fascista nesse caso é tão somente uma arma para destruir reputações alheias. Quando vemos discursos como “desça a porrada em um fascista” ou “com fascista só se dialoga na ponta do fuzil”, temos que ter em mente que eles não estão se referindo ao conceito real de fascista, mas sim aos seus divergentes e assim tentam justificar todo e qualquer tipo de agressão e perseguição a esse terceiro, afinal “ele é um fascista, vale tudo para derrotar o fascismo”; “você está dizendo que um fascista não merece apanhar?”.

O termo “antifa” (que como demonstrei acima, está atrelado e é uma criação do movimento comunista) serve para o caso de você se opor a ele e ser imediatamente rotulado de fascista, afinal, “como alguém poderia ser contra um movimento anti-fascista sem ser fascista?”. É essa a armadilha retórica na qual eles querem te inserir e, quando liberais evidenciam o óbvio de que não há ideologia mais antifascista do que o liberalismo, eles retrucam com “não existe antifascismo sem anti-capitalismo”. No final, é uma eterna armadilha, mas é meio óbvio que há uma diferença gritante entre ser antifascista e ser do movimento “antifa”. Você não precisa ser “antifa” para se opor ao fascismo. O muro de Berlim, por exemplo, criado para “proteger” a Alemanha Oriental socialista e impedir que os alemães pulassem para o lado ocidental, era chamado de “Muro de proteção antifascista“; mas qual lado era liberal e qual era totalitário? Qual se aproximava mais do fascismo? O mesmo lado que os supostos antifascistas defendiam.

O mesmo jogo retórico é também utilizado com termos como feminismo ou movimento LGBT. Alegam que se você não é feminista ou se você é antifeminista, você automaticamente é machista – e mais uma vez jogam sujo e de forma desonesta apelando para a etimologia da palavra, como se tais movimentos se limitassem a isso (o que não é verdade, são movimentos muito mais complexos e que cujas atuais correntes majoritárias pertencem ao espectro da esquerda). Em resumo, sim, você pode ser contra o fascismo sem ser “antifa”, contra o machismo sem ser feminista e contra a homofobia sem ser do movimento LGBT.

Em 2017, realizei na Universidade Tiradentes em Aracaju/SE a primeira edição do Liberty Open (conferência anual que ocorre aqui no estado). Na ocasião, nosso evento foi invadido por militantes do PSOL e da Juventude do PT, que nos atrapalharam do início ao fim e chegaram até a agredir fisicamente um colega nosso e ameaçar terceiros. No dia seguinte, fomos surpreendidos com uma das maiores calúnias que alguém podia ter concebido. Acusaram um evento libertário de ser uma marcha neonazista, inventaram que mulheres foram agredidas e que o evento seria para difundir discurso de ódio. Jornais locais e sites de extrema-esquerda profissionalizados na difusão de notícias falsas como o Jornalistas Livres espalharam a mentira, chegando ao ponto da calúnia ser reproduzida pela OAB/SE, que dias depois teve que se retratar. Nós da organização fomos caluniados, difamados e ameaçados de morte durante semanas, endereços foram vazados e alunos intimidados dentro da própria universidade – tudo isso por conta de uma acusação falsa e criminosa. Eles chegaram até a entrar com um processo disciplinar contra a gente na universidade, mas perderam feio. Não esperavam que a gente tivesse a filmagem de todas as palestras (ver aqui a confusão), evidenciando que éramos inocentes. Vocês acham que os esquerdistas nos caluniaram por ignorância e ingenuidade? Claro que não; o intuito era meramente destruir nossa reputação e deslegitimar o nosso discurso. Para quem quiser saber mais detalhes a respeito, concedemos esta entrevista para o Students for Liberty na época.

Muitos liberais cometem erros ao lidar com esse tipo de acusação, apresentando geralmente uma postura passiva, defensiva e tentando se explicar ou se justificar para os seus opositores, como se eles cometessem tal erro por ignorância ou desconhecimento. Esse é um erro comum daqueles que eu classifico como vítimas da Síndrome de Estocolmo liberal. Isso é um grande erro; primeiro porque na guerra política jamais devemos nos explicar para o inimigo, mas somente para aliados e para a plateia. O esquerdista (ou qualquer pessoa politizada) que te chama de fascista não te chama assim por ignorância, mas porque ele tem o interesse de te deslegitimar, de invalidar o seu discurso e te apresentar como inescrupuloso para a plateia. É um claro ato de desonestidade e desvio de caráter, jamais ingenuidade. Se o esquerdista te criticasse por aquilo que você de fato é (um liberal ou conservador), te rotulando corretamente, ele não conseguiria destruir sua imagem, ele estaria te tratando como uma alternativa legítima no debate político e te apresentando como algo aceitável para a plateia – mas esse não é o interesse deles. Justamente por isso o apelo para rótulos como fascista e nazista, para que a plateia te enxergue como aquilo que há de pior na sociedade, pois para a plateia muito pior do que ter ideias de que ela discorda é ter a sua moral atacada, ser visto como uma pessoa imoral e sem caráter. Há também um medo da polarização, como se fosse de alguma maneira possível acabar com ela. A polarização é, sempre foi e sempre será a regra na política real. Não é errado polarizar, é errado mentir e difamar. Caso tenha a verdade ao seu lado, polarize, pois quem não polariza tende a perder, como diz a 13ª regra do pensador marxista Saul Alinsky em seu manual Regras para radicais: “Escolha o alvo, congele-o, personalize-o e polarize-o”. Seu adversário fará isso com você, mas por meio de mentira; polarize também, mas fazendo uso da verdade.

Muitos liberais ainda insistem na tentativa de diálogo. A grande questão é que o pressuposto básico do diálogo é que ambos os lados queiram dialogar. Havendo um lado que já deixa claro que não está aberto ao diálogo, toda tentativa desse tipo será em vão. Em um debate político com uma plateia neutra, aquele que mantém a postura incisiva contra seu adversário, atacando sua moral e sua reputação, tende a sair vitorioso, visto que no debate político, ao contrário do debate intelectual, o propósito é persuadir a plateia e isso não vai mudar. Nós liberais temos uma grande vantagem na guerra política que raramente usamos ao nosso favor: estamos ao lado da verdade nesse caso. Sempre que nosso adversário tentar nos enquadrar ou difamar, devemos expor para a plateia o quão inescrupulosos nossos adversários são, escancarar a verdade, mostrar que o sujeito que te rotula de fascista na verdade é o mesmo que até há pouco tempo aplaudia um ditador iraniano negacionista do holocausto, que apoia algumas das ditaduras mais sanguinárias do século 21 e sente saudades daquelas do século 20, apoiando os maiores genocidas da história, além das claras similaridades entre o nazismo e o socialismo, muito bem demonstradas pelo austríaco Friedrich Hayek no O Caminho da Servidão. Não podemos dar espaço para que difamadores desenvolvam suas acusações pautados em artifícios retóricos e sofismas. Devemos reagir a altura e mostrar para a plateia aquilo que eles de fato defendem.

Finalizo com uma frase do ex-fundador da New Left americana e hoje teórico conservador David Horowitz: “Eles nos chamam de racistas, fascistas, nazistas e homofóbicos. Nós os chamamos de progressistas”. Há uma verdadeira disparidade na forma de tratamento e um claro medo que os liberais têm de reagir, mesmo estando ao lado da verdade.

*Sobre o autor: Lucas Sampaio é um liberal radicalmente pragmático, defensor da polarização e adepto dos métodos da Guerra Política de David Horowitz e Saul Alinsky. Estudante de Direito e Presidente da Juventude Libertária de Sergipe, membro da Rede Liberdade. Faz análises políticas sob um viés liberal/libertário e escreve sobre realpolitik, Guerra Política, Guerra de Narrativas, táticas de persuasão, como debater e como difundir as ideias de liberdade de maneira prática e sem ideologismos.

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