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Falsa dicotomia, Chico Buarque e a liberdade

Nunca fui de esquerda, sempre fui liberal.

Nas décadas de 60 e 70, o jogo era duro, havia a censura, havia a ordem unida, havia uma distância de anos-luz do Brasil com o resto do mundo. Havia, no entanto, gostemos dele ou não, Chico Buarque de Holanda.

Na época da ditadura, nós, jovens, éramos como o rouxinol em uma mina de carvão, os primeiros a sentir quando o ar rareava, quando a coisa ficava preta.

Na hora do sufoco, de repente, alguém lembrava de colocar no toca-discos ou no toca-fitas uma música do Chico.

Era parecido com respiração boca a boca, era massagem no coração e também na alma.

A batida dos sambas de protesto, a voz vibrante eram uma descarga de desfibrilador que trazia de volta o ritmo certo e voltávamos à vida.

Sim, quase todos os jovens brasileiros de classe média e alta foram sustentados emocionalmente com futebol, sexo, drogas, rock&roll e Chico Buarque de Holanda.

Assisti hoje a um documentário no Netflix sobre o Chico. Para mim, Chico é o melhor compositor musical brasileiro, o cara que marcou época, a minha época.

Aquela época em que se começa a ter sonhos que, no Brasil, vinham e vêm com pesadelos. Desde sempre, como disse outro dia, o problema do Brasil chama-se falsa dicotomia. Tem os que cantam o amor e lembram que não se ama sem carregar a dor que assombra a nossa alma a todo momento. Falsa dicotomia, a dor e o amor fazem parte da mesma receita. Quem leva um ganha o outro de presente.

Chico Buarque de Holanda era homem que driblava a censura como Pelé e Garrincha driblavam as parrudas zagas dos países estrangeiros.

Quando os censores e os zagueiros se davam conta, Chico Buarque, Pelé e Garrincha já tinham chutado em gol e não restava outra coisa senão ou cantar junto ou aplaudir meio encabulado aquilo que devolvia vida para o nosso povo.

Falsa dicotomia, poderia ser título de música da época da bossa nova ou dos sambas da classe média carioca, que narravam com um certo naturalismo ascético e uma tímida visão estética o que se passou no Brasil depois da morte de Getúlio Vargas.

Getúlio, o primeiro populista demagogo brasileiro, aquele que deixou a vida para entrar para a história, nos legou um país dividido entre os que acreditam que a liberdade se justifica quando se usa o intelecto para criar o que é intangível; e os que entendem que a liberdade serve para produzir o que é material.

Falsa dicotomia entre corpo e mente, entre razão e emoção, entre arte e economia, como se uma não dependesse da outra, e todas não dependessem dessas coisas, indivisíveis como elas, que são a vida e a liberdade.

Falsa dicotomia seria o título de uma música triste, uma opereta ou, como gostava Chico Buarque, uma ópera urbana, retratando como um povo que tem uma das almas mais criativas do mundo é tão sofrido, tão pobre.

Chico Buarque, que salvou gerações da morte cerebral, como a minha, jamais poderia escrever a letra desta que é a música que falta no seu repertório.

Chico Buarque é de esquerda, é um gênio brasileiro, cuja genialidade não permite que ele enxergue a mais óbvia das obviedades: que a liberdade é indivisível.

É de liberdade que precisam os criadores de todos os tipos, inventores, empreendedores, trabalhadores, cientistas, arquitetos, engenheiros, até banqueiros e clérigos, indivíduos, artistas de todos os talentos que trazem à existência seus sonhos, às vezes pesadelos na forma de valores.

Valores que podem ser intelectuais, espirituais e materiais, com o propósito de transformarem a dor do esforço e do trabalho em amor e o amor em felicidade.

Chico Buarque dizia no documentário que sua luta sempre havia sido por liberdade e que acreditava que a democracia era o caminho.

Vamos para mais de três décadas de democracia. Continuamos sem liberdade, pelo menos como eu gostaria.

O estado brasileiro, com ou sem ditadura, com ou sem democracia, continua o mesmo: não temos liberdade para realizarmos nossos sonhos sem sermos vistos como pecadores.

Chico Buarque escreveu uma música para aqueles que costumavam tirar a liberdade de expressão usando a censura, prerrogativa exclusiva que se arrogam os governos autoritários.

Penso que ela continua atual, porque serve também como música de protesto para esse estado democrático em que vivemos no Brasil, antes e durante o governo Bolsonaro.

Aí vai…

Amanhã vai ser outro dia
Amanhã vai ser outro dia
Amanhã vai ser outro dia
Hoje você é quem manda, falou, tá falado
Não tem discussão, não
A minha gente hoje anda
Falando de lado e olhando pro chão, viu?
Você que inventou esse estado
Que inventou de inventar toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar o perdão
Apesar de você amanhã há de ser outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder da enorme euforia?
Como vai proibir
Quando o galo insistir em cantar?
Água nova brotando
E a gente se amando sem parar
Quando chegar o momento, esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido, esse grito contido
Este samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza de desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada nesse meu penar
Apesar de você amanhã há de ser outro dia
Inda pago pra ver o jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir antes do que você pensa
Apesar de você
Apesar de você amanhã há de ser outro dia
Você vai ter que ver a manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar vendo o céu clarear
De repente, impunemente?
Como vai abafar
Nosso coro a cantar na sua frente?
Apesar de você
Apesar de você amanhã há de ser outro dia
Você vai se dar mal, etcetera e tal
Laraiá laraiá lá
Laraiá laraiá, laraiá laraiá
Lá laiá lá
Laraiá laraiá, laraiá laraiá
Lararará
Apesar de você…

Nesses tempos de estado gordo, de falsa polarização, criaram outra falsa dicotomia, como é essa entre dois populistas demagogos, Lula e Bolsonaro, sendo um pior que o outro, mas ambos monstros do lago. Vale a pena aproveitar mais essa música metafórica dele, Chico Buarque, com Milton Nascimento:

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Pai, afasta de mim esse cálice, pai
Afasta de mim esse cálice, pai
Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta
Pai (Pai)
Afasta de mim esse cálice (Pai)
Afasta de mim esse cálice (Pai)
Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa
Pai (Pai)
Afasta de mim esse cálice (Pai)
Afasta de mim esse cálice (Pai)
Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
De muito gorda a porca já não anda (Cálice)
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta (Cálice)
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade
Pai (Pai)
Afasta de mim esse cálice (Pai)
Afasta de mim esse cálice (Pai)
Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Talvez o mundo não seja pequeno (Cálice)
Nem seja a vida um fato consumado (Cálice)
Quero inventar o meu próprio pecado (Cálice)
Quero morrer do meu próprio veneno (Pai, cálice)
Quero perder de vez tua cabeça (Cálice)
Minha cabeça perder teu juízo (Cálice)
Quero cheirar fumaça de óleo diesel (Cálice)
Me embriagar até que alguém me esqueça (Cálice)

A esquerda não presta, mas é genial.

Roberto Rachewsky

Roberto Rachewsky

Empresário e articulista.