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Erasmo de Roterdã e o bom governante (parte II)

Para ler a primeira parte, clique aqui. 
Nesta parte do estudo, em que apenas arranhamos a superfície do legado de Erasmo de Roterdã, voltamos a 1516, quando nosso protagonista visita os Países-Baixos e é nomeado conselheiro do príncipe Carlos V (1500-1558), a quem escreve A educação de um príncipe cristão. Na carta a Carlos, a quem Erasmo classifica como “Ilustríssimo Príncipe”, há conselhos riquíssimos que bem podem nos ser úteis nos dois atuais.

Já no primeiro parágrafo, Erasmo cita Aristóteles (384 a.C – 322 a.C): “[…] nenhum tipo de sabedoria é classificada por Aristóteles como mais excelente do que a que ensina como ser um príncipe benevolente […]”. Logo mais, Erasmo traz à luz o pensamento de Xenofonte (354 a.C – 354 a.C), que valoriza o governo sobre cidadãos livres, algo que, para ele, dialoga com a natureza humana. Aqui vemos em Erasmo outra vez a valorização da liberdade dos cidadãos, um contraponto a qualquer ideia socialista, ou de qualquer ideologia totalitária, de controle das liberdades.

Em seguida, o jovem de Roterdã cita o grande historiador grego [Lúcio] Plutarco (46 d.C – 120 d.C), que reforça a importância do trabalho de bem aconselhar um príncipe: “E Plutarco tem boas razões para crer que nenhum homem presta ao estado maior serviço que aquele que equipa a mente de um príncipe com os princípios mais elevados, dignos de um príncipe”. Em contrapartida, lembra Erasmo a desgraça causada aos homens pelos maus conselhos que “corrompem o coração de um príncipe”.

Tendo como exemplo Erasmo, observa-se que, ao longo das gerações e da evolução do renascentismo ao estado moderno, um bom governante precisou estar cercado por pessoas literatas, sensatas, experientes e, sobretudo, honestas – e, claro, impossível não mencionar, pessoas que tinham como único imperativo a liberdade dos indivíduos. Essa obtiveram êxito. Quem cerca nosso atual presidente da República, Jair Bolsonaro, atualmente? E não me refiro a ministros que têm aqui ou ali reuniões de ministérios semanais ou seja lá com qual frequência…

O evangelista Billy Graham (1918 – 2018) foi conselheiro de inúmeros presidentes americanos. Aqui não quero tender para teologia ou fé – muito embora nosso protagonista Erasmo fosse teólogo e sua obra, que é nosso objeto de estudo, seja focada na educação de um príncipe cristão. O que levou o pastor americano, pergunto, a sentar-se à mesa dos homens mais poderosos do mundo? Se o republicano Richard Nixon foi seu mais íntimo, destaco que outros tantos recorreram ao evangelista para buscar conselhos: Harry Truman (1945-1953), George H.W. Bush (1989-1993) e George W. Bush (2001-2009), a quem muito influenciou. Até mesmo o democrata Barack Obama (2009-2017) aconselhou-se com Graham – o que derruba a narrativa de que a fé era o único motivo dos encontros. Também era, mas não o principal. Mas qual seria o tal motivo? Este: uma sabedoria oriunda de anos de retidão, de uma vida sem mácula e sem, sobretudo, interesses venais. Graham não solicitava acesso à Casa Branca; pelo contrário: era requisitado. O próprio Henry Kissinger foi conselheiro de vários presidentes dos Estados Unidos, de Eisenhower a Gerald Ford. Claro, focado nas relações exteriores; mas um exímio mentor, um guia.

Erasmo estudou a obra de Isócrates (já abordado aqui) e apresenta uma sua dissonância com o filósofo, haja vista que este, segundo Erasmo, instruía qualquer rei sem importância ou até tirano. Nosso autor finda a carta ao príncipe Carlos mencionando sua precocidade na obtenção do governo e que esse assim seria lembrado como um príncipe que não hesitaria em ser cristão, verdadeiro e correto, dispensando sempre a bajulação. Findo nosso texto com uma frase do jovem de Roterdã, de que faço uso para dar um humilde conselho a nosso presidente: “Um mal não é um mal para quem não o sente; que te importa se todos te vaiam se tu mesmo te aplaudes?”.

(Continua…)

Ianker Zimmer

Ianker Zimmer

Ianker Zimmer é jornalista diplomado pela Universidade Feevale (RS). De 2015 a meados de 2019, trabalhou no Jornal NH e na Rádio ABC. Editorial Sinos. Entre 2020 e 2021, foi assessor de imprensa do deputado federal Marcel van Hattem, na Câmara dos Deputados (Brasília). Além de colunista e autor no Instituto Liberal (RJ), é colunista dos sites Opinião & Crítica e Tribuna Diária. Atualmente exerce o cargo de Diretor de Gestão Integrada na Secretaria de Segurança Pública de Novo Hamburgo. Autor de A filosofia do fracasso: ensaios antirrevolucionários (Viseu, 2020), República Democrática do Pensamento Único (Almedina, 2021) e coautor de Introdução ao Liberalismo (Almedina, 2021).