Por que o capitalismo promove o povo?

Riqueza é deveras subjetiva, mas não se confunde com um relativismo absoluto. O “enriquecer” varia de sujeito para sujeito, de cultura para cultura, época para época e desse modo progride, mas ela se trata – assim como uma miríade de outros eventos e fenômenos – de um Universal: há o conceito de riqueza em todas as sociedades; no medievo, por exemplo, o dinheiro sequer poderia ser identificado como um bem de riqueza, não como hoje, mas a terra era o símbolo-mor do rico, do nobre. Mesmo os maiores burgueses eram considerados “vilões[1]” (villion), isto é, plebeus, sem sangue azul ou importância, mas até nesse cenário havia o conceito de riqueza – homens enriqueciam de várias formas, algumas semelhantes às de hoje, outras nem tanto.

O conceito de “riqueza” se mantém, porém, intacto. Isso se deve ao fato das pluralidades confirmarem a unidade da ideia de riqueza; grosso modo, é ter, em uma grande soma, algo de valor. Essa característica impera sobre o subjetivo. Dessa forma, podemos fazer comparações de períodos diversos na História sem cair em anacronismos aberrantes, uma vez que as particularidades culturais e temporais estão abaixo do Universal, que é a riqueza.

Se compararmos o pobre contemporâneo dos EUA, do Brasil, ou do Japão, Rússia, Polônia, França, etc., com o pobre da década de 1950, perceberemos algo muito notável: eles estão mais ricos. A mesma comparação pode ser feita com os pobres do Brasil de 1950 com os de 1910, os de 1880[2]… todos estão bem mais ricos que aqueles que, décadas antes, viviam. Por quê?

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O que há nesses países hoje que não havia, ou não existia em grande quantidade, ontem? A resposta é simples: tecnologia. Técnicas criadas para a facilitação de trabalhos, comunicações, esquemas, melhoras na saúde, infraestrutura, comércio e afins, suportadas por uma grande revolução científica, foram responsáveis pela melhora de vida da população nas últimas décadas e séculos; porém, a tecnologia não flutua suspensa no nada e dependente apenas dela mesma. Por mais que o progresso técnico e científico não seja nada periférico na questão, é necessário enfatizar um dos maiores impulsionadores do progresso contemporâneo: o egoísmo.

Ego”, tanto em latim como no grego, significa “eu”. O egoísmo, bem dosado, é capaz de alavancar qualquer melhora do indivíduo para ele mesmo, e de forma espantosamente rápida, se comparada com o esforço comunitário para a melhoria de alguma coisa. Foram a preocupação e vontade de ter mais, ganhar mais, se garantir mais, que levaram homens a construir verdadeiros impérios com suas empresas. Duvida?

Antes da Máquina a Vapor[3], por exemplo, quanto custava um tecido? O tempo de produção levava muitas horas a mais, causando, enfim, pouca fabricação de tecidos para o mercado, para as pessoas. Era mais caro e mais demorado ter roupas, principalmente roupas de qualidade. O que ocorreu no século XIX? Mais roupas para a população, roupas estas que, décadas antes, seriam de quantidade mais rara e de preço mais alto. Quem ganhou com isso? O empresário, claro, mas mais do que ele, foi uma massa de pessoas que, no tempo de seus pais e avós, encontrariam mais dificuldade para ter certas quantidades de vestimentas; o empresário ficou rico, mas a população também.

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A riqueza, nesse caso, consiste em uma melhora de vida, uma melhora substancial e material. Materialmente, os ingleses do final do século XIX estavam bem melhores que os do final do XVIII, assim como, nesse início de século, os mesmos ingleses estão melhores do que em 1916. Pobres, atualmente, não morrem de fome no inverno, ou em outra época do ano, não por conta da boa vontade de burocratas, funcionários públicos que procuram melhorar a situação da população mais carente, mas por causa do substancial aumento da produção mecanizada, diminuindo o tempo e aumentando a quantidade de vendas, e, por consequência, diminuindo o preço.

Quanto custava um meio para facilitar sua comunicação com o mundo nos anos 90 do século XX? Os olhos da cara, comparando com hoje. Rádios, televisões, jornais… tudo que você consegue hoje com um pouco mais de mil reais em um celular. Onde entra o funcionário público nessa riqueza atual? Onde entra seu empenho e seu trabalho na construção de um celular que sintetizou rádio, telefone, computador, televisão, gravador, correio… tudo em um aparelho que cabe em seu bolso? Sabe quanto uma pessoa gastaria para ter tudo isso em 1996?

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Agradeçam aos burgueses, aos grandes capitalistas. Sem eles, apostem, ainda estaríamos penando para comprar um par de botas, produzidas artesanalmente por algum sapateiro, incapaz de fazer calçados para mais 100 pessoas por mês.

[1] No mesmo sentido de “aldeões”.

[2] Essa realidade não se aplica a todos os países citados, contudo. Guerras, ditaduras ou mudanças fortes e abruptas podem interromper o processo aqui apresentado.

[3] A ciência e a tecnologia não dependem do sistema capitalista para existirem, mas um sistema que dá lucro, prestígio social e meios para conseguir mais qualidade de vida incentiva o crescimento tecnológico, pois privilegia os sujeitos que conseguem melhorar e agilizar as coisas.

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Hiago Rebello

Hiago Rebello

Graduando em História, Licenciatura, pela Universidade Federal Fluminense, colunista do Instituto Liberal.