fbpx

O Banco Central voltou!

O segundo aumento consecutivo da Selic em 0,75 pontos marca uma guinada correta e necessária na política monetária. O discurso de que a inflação resulta de um choque e voltará naturalmente a um patamar mais baixo não mais corresponde às decisões do Copom. Isso é bom, mas seria ainda melhor se representantes do Banco Central (BC) parassem de dizer que está tudo bem ou coisas do tipo (ver aqui). Entendo que a intenção pode ser acalmar o mercado, mas, na prática, a falta de consistência entre discursos e ações pode fazer mais mal do que bem.

Para ilustrar o tamanho da virada na política monetária, fui buscar as decisões do Copom em relação à Selic desde janeiro de 2001. A decisão mais frequente é manter a taxa inalterada: ocorreu em 68 das 184 reuniões consideradas; em seguida vem a decisão de subir ou descer 0.5 pontos – cada uma ocorreu 27 vezes. A mais extrema foi aumentar em 3 pontos; ocorreu duas vezes: outubro e dezembro de 2008, quando o BC resolveu tirar o atraso de decisões que deveriam ter sido tomadas anteriormente. A maior queda foi de 2,50 em agosto de 2003, seguida por uma queda de 2 pontos em setembro do mesmo ano. A decisão de subir a taxa em 0,75 pontos ocorreu em apenas 7 ocasiões. A última antes das decisões deste ano foi em 2010, quando a Selic estava em torno de 10% ao ano. A figura abaixo mostra a variação da meta de Selic e quantas vezes cada variação ocorreu.


Diante dos números, é difícil negar o caráter excepcional das decisões do Copom nas últimas duas reuniões. Minha leitura é que a razão para essa pressa é que o BC tenha finalmente percebido que segurou a Selic por muito tempo em um valor muito baixo e que, sem uma mudança drástica na política monetária, poderia perder o controle das expectativas e, por consequência, da inflação. Entendo que alguns colegas não gostem da minha leitura, afinal estamos em crise e as expectativas de inflação não deram sinais de alerta. Quanto à crise, bem… o que não faltam são exemplos de inflação fora de controle com desemprego nas alturas e PIB caindo ou patinando. Se não acredita em mim, dê uma olhada no vizinho do norte ou do sul.

Em relação às expectativas, o problema é que os modelos de previsão perdem poder diante de mudanças de regime. O próprio Paulo Guedes anunciou a mudança de regime em 2019 e reforçou em 2020 e, na presença de incerteza, não preciso dizer que a pandemia mandou a incerteza lá para cima. Essa é a razão de o “pessoal do mercado” ter errado consistentemente para baixo a previsão de inflação.

Para visualizar o que estou dizendo, peço que o leitor se coloque no lugar de um empresário que depende de insumos importados, de forma que uma desvalorização do real representa um aumento nos custos de produção. É razoável supor que a decisão do empresário de repassar para os preços o aumento dos custos dependa do que ele espera acontecer com o câmbio. Se ele entender que a desvalorização é passageira, o repasse para os preços deve ser pequeno ou mesmo nulo; se entende que é permanente, talvez ele tente repassar para os preços no menor prazo possível. Como a natureza da desvalorização, transitória ou permanente, depende do regime, é justo supor que a decisão de ajuste de preços por conta da desvalorização também dependa do regime. Se o exemplo for representativo, as estimativas de que o efeito do câmbio nos preços é baixo, realizadas com dados do regime anterior, talvez não valham mais no regime de “juros baixos e câmbio desvalorizado”.

A questão é saber o tamanho do atraso que o BC deve recuperar e quanto tempo há para que o ajuste possa ser feito sem comprometer a credibilidade da política monetária.

Estimativas de colegas sugerem que a Selic deve chegar em 6,5% ao ano para estancar a pressão nos preços. O problema é que essa estimativa depende da previsão de inflação e esta, como nos mostra a experiência recente, não é muito confiável. O lado bom é que a atual direção do BC conta com a confiança do mercado, o que dá uma margem maior de manobra. Tombini e Mantega devem ficar intrigados com a paciência que turma tem com Campos e Guedes. O lado ruim (e perigoso) é que ainda não sabemos o tamanho do rombo fiscal causado pela pandemia e pela política de usar o orçamento para agradar os amigos, tocada pelo atual governo.

Embora a principal alavanca para controlar a inflação ainda seja a política monetária, é inegável que a pressão fiscal ajuda a jogar os preços para cima. Na falta de ajuste fiscal, resta ao BC apertar a política monetária. No atual modelo (que é o padrão nos bancos centrais de economias desenvolvidas) isso significa aumentar a meta para a Selic. Até quando o BC vai conseguir segurar a inflação com política monetária, é coisa que não sei dizer, mas se esse dia chegar, temo que vamos ficar sabendo rapidamente. Se permitem terminar com um conselho, torçam para esse dia nunca chegar.

Roberto Ellery

Roberto Ellery

Roberto Ellery, professor de Economia da Universidade de Brasília (UnB), participa de debate sobre as formas de alterar o atual quadro de baixa taxa de investimento agregado no país e os efeitos em longo prazo das políticas de investimento.