Investimento do governo federal e teto dos gastos

No último debate do SBT, o candidato do PT culpou o teto de gastos pela queda do investimento do governo. Fui checar os dados para ver se a tese se sustenta ou se é só mais uma tentativa do PT de terceirizar a crise que o governo Dilma criou. Os dados estão disponíveis na página da Secretaria do Tesouro Nacional (link aqui) e descrevem o investimento do governo federal por órgão de janeiro de 2007 a julho de 2018. Olhar dado mensal é sempre perigoso, pois existem padrões sazonais que podem distorcer comparações mês a mês. Para evitar esse problema, comparei o investimento acumulado em doze meses.

Repare que a grande queda ocorre em setembro de 2014, antes de Levy e na época em que a presidente em campanha garantia que não havia problemas fiscais no país. A queda se aprofunda durante 2015 e 2016. No final de 2016, já no governo Temer, ocorre uma pequena subida; em 2017 a trajetória de queda é retomada. Sei que esse negócio de causalidade é complicado, mas me parece bem difícil responsabilizar uma emenda aprovada no final de 2016 por um fenômeno que começa em 2014.

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O próximo exercício foi comparar o investimento do governo federal ano a ano. Fica fácil ver que a queda iniciada em setembro de 2014 não evita que o investimento em 2014 fique maior que o de 2013, dando a impressão de que o corte começou em 2015 com Levy. Repare que o aumento em 2016 e a queda em 2017 também aparecem na figura com dados anuais.

Uma última pergunta que fiz foi quando ocorreu a maior queda. De acordo com os dados em 2015, a queda foi de 34,3% e em 2017 foi de 31,9%. Os valores são próximos, mas há uma diferença importante: para explicar o aumento do investimento no final de 2016, é preciso olhar os dados com mais cuidado do que estou olhando. Para explicar o aumento do investimento entre setembro de 2013 e setembro de 2014, basta lembrar que 2014 foi ano eleitoral.

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Em resumo, a observação dos dados permitiu concluir que a trajetória de queda do investimento do governo federal começa bem antes da aprovação do teto de gastos e antes da chegada de Levy ao governo. Também foi possível constatar que a maior queda proporcional aconteceu de 2014 para 2015, antes da chegada de Temer ao Planalto. Ao culpar o teto de gastos pela queda no investimento do governo federal, o candidato do PT ignora os dados ou propõe uma nova forma de causalidade onde o futuro causa o passado. Deve ser uma espécie de economia quântica… ou só cara de pau mesmo.

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