Em vez de um “empurrão” para maior poupança, que tal se o governo saísse da frente?

A Folha de S.Paulo traz hoje uma grande reportagem sobre o “imediatismo” do brasileiro, segundo pesquisa, e a defesa do “nudge”, ou “empurrão” do governo como solução para o problema. Abaixo, os principais trechos: O brasileiro é imediatista e tem baixíssima tendência à poupança, mostram cálculos inéditos feitos a partir de levantamento do Datafolha. Eles medem o […]

A Folha de S.Paulo traz hoje uma grande reportagem sobre o “imediatismo” do brasileiro, segundo pesquisa, e a defesa do “nudge”, ou “empurrão” do governo como solução para o problema. Abaixo, os principais trechos:

O brasileiro é imediatista e tem baixíssima tendência à poupança, mostram cálculos inéditos feitos a partir de levantamento do Datafolha.

Eles medem o excesso de peso dado ao presente -o que os economistas chamam de “present bias”, ou, em termos simples, imediatismo.

O resultado do estudo é relevante para a formulação de políticas públicas, porque indica a resistência das pessoas a abrir mão de consumo no presente em troca de poupar e elevar recursos no futuro.

O levantamento mostra ainda que 65% não poupam para o futuro —mesmo entre os mais ricos, cerca da metade não faz reservas.

Uma explicação é que há pouco incentivo para poupar porque aposentadoria e FGTS repõem ou superam a renda atual na maior parte dos casos, segundo o professor do Insper Ricardo Brito, especializado em finanças e decisões de poupança.

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“Os homens das cavernas passaram muitos anos consumindo imediatamente tudo que caçavam.” Com o aumento da expectativa de vida, segundo ele, a necessidade de pensar no amanhã cresceu muito rapidamente.

“Nosso cérebro não se ajusta na mesma frequência que a tecnologia avança. Comer um pedaço de pizza agora parece muito mais atraente do que esperar para comê-lo daqui a 40 anos, quando irei de me aposentar.”

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Se a decisão é difícil para os indivíduos, governos têm chamado para si a tarefa de decidir por eles -no que é chamado de “paternalismo libertário” por economistas e cientistas políticos.

Aqui estamos diante de uma típica falácia dos economistas intervencionistas: eles olham as “falhas” humanas e esquecem que o governo também é formado… por seres humanos falhos! Eles partem de modelos abstratos e teóricos como se, do lado de lá, do poder, as medidas fossem ser tomadas sempre por gente esclarecida e bem-intencionada, uma premissa otimista, para dizer o mínimo, ou risível, para ser mais realista.

O “nudge” não é novidade no debate de política econômica, e vários têm pregado justamente isso: que o governo dê um “empurrão” para que os indivíduos façam “a coisa certa”. Mas talvez a melhor saída não seja essa. Talvez o mecanismo de incentivos é que esteja totalmente equivocado.

Pensemos na poupança, tema principal da matéria. Com carga tributária de quase 40% e péssimos serviços públicos (olha a realidade aí!), o explorado trabalhador precisa pagar tudo em dobro: saúde, educação, segurança etc. Como sobrar para a poupança?

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O maior “despoupador” do país é justamente o governo! Se for para aumentar a poupança nacional, o caminho mais evidente é reduzir drasticamente os gastos públicos, não usar o governo para dar “cutucões” nas pessoas, como se elas só não poupassem mais porque são ignorantes ou imediatistas (não nego que muitos sejam e a cultura não ajuda).

No fundo, é um misto de cultura, de mentalidade, com instituições. E estas não ajudam, pois tornam o foco do brasileiro mais imediatista mesmo. O próprio estado de bem-estar social costuma incentivar um comportamento de mais curto prazo, pois a “rede de segurança” do “papai” estado estará lá para a eventualidade de um fracasso. Quanto maior forem as benesses desse sistema, maior será a negligência para com o presente.

Enfim, há muito que ser dito sobre o assunto, que produz bons debates. Na teoria, acho perfeitamente possível defender alguns “empurrões” para estimular um comportamento mais racional ou austero, lembrando que as virtudes do capitalismo apontam justamente nessa direção, as tais “virtudes burguesas”: temperança, foco no futuro, sacrifício pessoal etc. Tudo aquilo que está “fora de moda”.

Mas se na teoria não há diferença entre teoria e prática, na prática há, e muita. Os responsáveis pelos tais “empurrões” serão seres humanos igualmente imperfeitos, provavelmente até mais, pois buscam o poder e a estabilidade do setor público. Seus interesses podem não coincidir com aqueles do povo que estará levando o “empurrão”. Esse “empurrão” pode muito bem ser para o abismo. Até os planos quinquenais soviéticos pareciam bonitinhos no papel.

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Na imagem típica dos defensores do “nudge”, temos um elefante pai ajudando o filhinho. Mas o estado não é nosso pai. Uma imagem mais verídica poderia ser um bichão paquidérmico “arrombando” o pobre coitado do indivíduo, fraco demais para se defender.

Por isso que apresento uma alternativa: em vez de “empurrão”, que tal se o governo simplesmente saísse da frente e deixasse o povo viver de forma mais livre, e preservando mais para si o fruto do seu próprio trabalho, arcando ainda com as consequências de suas escolhas? Liberdade e responsabilidade individuais: uma fórmula mais eficiente, e também mais justa.

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