Bolsonaro, Roda Viva e a revolta contra as máquinas

Não se fala de outra coisa, seja para denegri-lo ou apoiá-lo. A entrevista de Jair Bolsonaro para o programa Roda Viva é o grande tema do momento. De todos os temas ali abordados, quero destacar o que se falou sobre a agropecuária. O “jornalista” Leonêncio Nossa foi quem perguntou a Bolsonaro sobre o agronegócio, questionando […]

Não se fala de outra coisa, seja para denegri-lo ou apoiá-lo. A entrevista de Jair Bolsonaro para o programa Roda Viva é o grande tema do momento. De todos os temas ali abordados, quero destacar o que se falou sobre a agropecuária.

O “jornalista” Leonêncio Nossa foi quem perguntou a Bolsonaro sobre o agronegócio, questionando o deputado sobre como resolver o desemprego no campo. O “jornalista” citou dados que tratam de milhares de desempregados em virtude da mecanização do campo: “como resolver isso?”

A resposta de Bolsonaro atacou o ponto central. Como recordou o deputado, antes se reclamava, com razão, das condições precárias dos boias-frias nas plantações de cana. Pois bem, vieram as máquinas e agora se reclama do desemprego que elas geraram. Uma máquina agrícola substitui centenas de trabalhadores. Bolsonaro respondeu que trabalhador, quando vê que sua atividade vai desaparecer, tem que se preparar para fazer outra coisa. Resposta simples e direta. Bolsonaro não pediu por mais intervenção do governo. É o indivíduo que sabe decidir o melhor para sua vida, e não é necessário que os burocratas isolados em Brasília planejem tudo.

O que fazer diante das máquinas? Proibi-las por ato governamental? O modo como o “jornalista” formulou a pergunta deixa claro que ela tem como pressuposto que as máquinas geram desemprego e, portanto, pobreza.

Pensemos na realidade concreta das máquinas no campo. São necessários milhares de trabalhadores, em diversas especialidades, para fabricar uma máquina agrícola. Enquanto para fabricar uma foice ou uma enxada, basta um ferreiro em sua oficina. Mesmo que a colheitadeira seja fabricada no exterior, há aqueles que trabalham na venda dessas máquinas, há os mecânicos que as consertam, aqueles que vendem as peças de reposição, aqueles que transportam o combustível da máquina e o posto que o vende. A cadeia de trabalho para que uma máquina opere no campo é enorme, imensamente maior do que a cadeia que produz enxadas e foices. E melhor, são trabalhos que exigem mais qualificação e rendem mais. Um mecânico precisa ter muito mais conhecimento técnico do que um boia fria, contudo, o mecânico ganha maiores salários. As máquinas geram outros tipos de trabalhos ao mesmo tempo em que multiplicam a produtividade e a geração de riqueza.

Sim, num primeiro momento as máquinas extinguem certos tipos de emprego. Mas precisamos entender que cada pessoa é um ser racional, que sabe tomar decisões, e aprendem a fazer outras coisas, criam outros negócios. Na necessidade as pessoas buscam por novas ideias e soluções para os problemas que aparecem. Isso é um processo descentralizado, de certa forma “caótico”, mas no fim há se chega num ponto de equilíbrio em que novas profissões substituem as antigas, e novos empregos são gerados como resultado das iniciativas dos indivíduos em tempos de mudança.

O pior dos cenários seria uma revolta contra as máquinas, e mais desastroso ainda seria clamar para que um estado todo poderoso fosse conclamado para manter os empregos dos boias-frias. Isso seria planificação centralizada da economia, algo que o século XX está ali ao nosso lado para mostrar que este é o pior dos cenários. Mas a pergunta do jornalista é eco daquelas que gostariam de ver o estado intervindo pra manter os empregos ameaçados.

As máquinas no campo multiplicaram a produção de alimentos. Aboli-las ou limitá-las seria condenar milhões à fome e à miséria. Na verdade, as máquinas são a solução para um sério problema: a demanda por alimentos cresce com o crescimento da população. Aumentar a produtividade com tecnologia é uma necessidade, não um luxo, ou maldade de fazendeiros.

Diante da tecnologia, o melhor que o estado pode fazer é não atrapalhar, não criar barreiras para que as pessoas criem novos negócios diante do fim das antigas profissões. Nisso, Bolsonaro foi certeiro.  

*Antonio Pinho é professor, jornalista e Doutorando em Letras.

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