A esperança liberal de Roberto Campos

Estive com ele, pessoalmente, apenas uma vez. Não o conhecia de modo formal, nem nunca usufrui de sua companhia, que se dizia deliciosa. Mas sempre fui apreciador, entusiasmado, da lucidez fantástica do raciocínio, da lógica cortante dos argumentos, da ironia ácida e da clareza transparente da exposição. Lembro-me de dois episódios notáveis. Um debate televisivo, […]

Estive com ele, pessoalmente, apenas uma vez. Não o conhecia de modo formal, nem nunca usufrui de sua companhia, que se dizia deliciosa. Mas sempre fui apreciador, entusiasmado, da lucidez fantástica do raciocínio, da lógica cortante dos argumentos, da ironia ácida e da clareza transparente da exposição.

Lembro-me de dois episódios notáveis. Um debate televisivo, nos anos 1960, com Carlos Lacerda, o maior tribuno de sua época de quem eu era admirador, no qual Roberto Campos conseguiu sobrepujá-lo. Discutia-se o plano econômico do Governo Castello Branco. O outro foi um autêntico massacre em que Campos enfrentou, também na TV, em 1985, o ex-militar e comunista convicto, Luiz Carlos Prestes. O debate girava em torno da disputa Capitalismo x Socialismo. Cheguei a ter pena da pobreza de razões, inferioridade intelectual e indigência retórica do dito Cavaleiro da Esperança, afinal de contas um personagem símbolo da esquerda no Brasil.

Acompanhei, por anos, os artigos em O Globo e li diversas de suas obras, inclusive as mil e tal páginas da monumental “Lanterna Na Popa”. No último fim de semana, em busca de leitura nas minhas estantes, deparei-me com um livro que ainda não havia lido. O título é “Reflexões do Crepúsculo”. Editado pela Topbooks, em 1991, é um conjunto de pequenos ensaios escritos durante os dois anos anteriores. O Brasil ainda vivia a experiência reformista do Governo Collor, o primeiro eleito democraticamente após a Constituição de 1988.

Apesar do habitual e pragmático ceticismo, Roberto Campos não deixava de alimentar certa esperança de que, enfim, o Brasil tomaria rumo mais liberal, em consonância com a queda do Muro de Berlim, ocorrida no interregno em que escrevia. Isso a despeito dos defeitos da Constituição de 1988, nacionalista, estatizante e corporativista.

No entanto, hoje, certamente Campos estaria profundamente decepcionado com os caminhos que o Brasil vem trilhando. Ele não chegou a assistir o renascimento dos cinco “ismos” que invectivava na política brasileira e que atualmente ressurgem gloriosos: populismo, estruturalismo, protecionismo, estatismo e nacionalismo, todos redivivos nos governos petistas.

Em sua diatribe contra o socialismo, entre inúmeras outras boutades, Roberto Campos afirmava, em 14 de outubro de 1990: “O comitê encarregado de controlar o abastecimento de mil produtos de uso comum em Moscou verificou que 996 estão em falta nas prateleiras. A única coisa abundante é a escassez”.

Como antevendo a atual situação da Venezuela Bolivariana, escrevia em novembro de 1989: “O socialismo prometeu o Paraíso. Mas não consegue garantir o abastecimento de papel higiênico”.

A leitura daqueles ensaios constitui um repositório incrível de bom senso, raciocínio cristalino e deliciosa mordacidade. Há alguns disponíveis na Estante Virtual a preços convidativos. Vale a pena.

Nota: Artigo publicado originalmente com o título “Revisando Roberto Campos” 18em novembro de 2013.

  • Thiago Cortês

    “O socialismo prometeu o Paraíso. Mas não consegue garantir o abastecimento de papel higiênico”.

    Profético!