Deturparam Darwin, ignoraram Spencer

220px-Herbert_SpencerDarwin nunca disse que o homem veio do macaco, nem que suas descobertas comprovam a inexistência de Deus. Darwin nunca quis contestar a fé, até porque, ele próprio era crente. Suas intenções foram as mesmas de qualquer cientista sério: entender como a natureza funciona.

Muito antes da publicação de seus trabalhos, o francês Georges-Louis Leclerc definira o conceito de espécie e o sueco Carlos Liceu classificara o homem como homo sapiens, ou seja: Darwin não apresentou nenhuma novidade revolucionária. Ele apenas catalisou os trabalhos que já haviam sido feitos.

Darwin foi vítima de interpretações ideológicas tanto da esquerda quanto da direita. Marx e Engels, ao citarem Darwin em seus escritos, deturparam-no tal qual os nazistas fizeram com Nietzsche. Hitler, precisando de uma referência filosófica para justificar suas obsessões, interpretou à sua maneira a “vontade da potência”. Os comunistas, precisando de uma referência científica para embasar seus devaneios político-sociais, criaram suas próprias versões sobre os trabalhos de Darwin, conseguindo, com isso, diminuir a influência do cristianismo sobre as massas e até sobre a intelligentsia europeia, atraindo o rebanho essencial para a religião que eles mesmos − Marx e Engels −, fundavam: o comunismo.

As verdades: A “luta pela sobrevivência” de Darwin não tem qualquer relação com a “luta de classes” descrita pelos comunistas. Darwin, em nenhum momento de seus trabalhos, vitimiza ou glorifica alguém; e deixou claro que seus estudos não se alinhavam às ideias comunistas quando recusou o convite para escrever o prefácio de O Capital. Darwin, enquanto cientista, nunca fez qualquer julgamento moral ou de valor sobre o homem ou sobre sua sociedade, nunca mencionou o termo “raça humana” e inúmeras vezes salientou que não existem espécies mais evoluídas que outras. Seu trabalho foi apenas no sentido de explicar como as espécies evoluem ao longo do tempo. Marx e Engels interpretaram a obra de Darwin em função de suas conveniências, fantasiando, até, que o naturalista inglês criticava, por meio de suas publicações, o sistema social e econômico de seu país.

Devido as citações e interpretações tendenciosas de Marx e Engels, uma parte da direita deu as costas para os trabalhos do naturalista enquanto a outra parte passou a vê-lo como herege, portanto, como inimigo, o que motivou acusações absurdas. Olavo de Carvalho chegou a dizer que o trabalho de Darwin “serviu de fundamento ideológico à matança organizada de uns 200 milhões de seres humanos”, tentando nos fazer crer que ele exercia a mesma sociopatia de Lenin, Stalin e tantos outros líderes comunistas. Não! Absurdas também são as acusações de racismo, já que o próprio Darwin, tanto em seu diário de bordo de sua viagem de volta ao mundo quanto em sua autobiografia, registra seu repúdio à escravidão, principalmente ao falar de sua passagem pelo Brasil.

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Darwin é inocente de todas as acusações.

A pior consequência da deturpação promovida contra Darwin foi a exclusão de seu trabalho na argumentação do conceito de livre mercado. Sim, a Teoria da Seleção Natural das Espécies comprova biologicamente a metáfora da Mão Invisível! Quem lê com serenidade o trabalho de Darwin enxerga que as relações de mercado são perfeitos reflexos de todas as relações da natureza.

Ter Darwin junto a Smith na mente nos faz enxergar claramente que o mercado é um ecossistema como qualquer floresta, savana ou colônia de corais. A natureza se autorregula. O mercado também. Empresas são comparáveis a animais tentando sobreviver e se reproduzir, competindo entre si e interagindo umas com as outras assim como fazem todas as espécies de seres vivos. Crises econômicas são apenas momentos de ajustes tais como incêndios, enchentes, deslizamentos, tempestades e erupções vulcânicas. A natureza precisa desses eventos para eliminar indivíduos fracos e doentes assim como o mercado precisa de suas crises para eliminar empresas mal viciadas e administradas. A obra de Darwin evidencia que na natureza não existe Estado, nem líderes, nem qualquer força centralizadora de decisões. As “coisas” simplesmente acontecem na medida em que os personagens interagem entre si, adaptando-se ou não ás mudanças de ambiente. Deus entra nessa relação na medida da fé de cada um, participando ou apenas sendo o criador de toda essa ordem.

Para formular a Teoria da Seleção Natural, Darwin desenvolveu diversos experimentos, a maioria muito simples, porém, esclarecedores. Um deles consistiu em demarcar um retângulo de 60 por 90 centímetros no quintal de sua casa, retirar a vegetação existente e acompanhar a germinação das plantas no solo exposto onde, causalmente, havia sementes. Com gravetos, Darwin marcava cada plantinha que germinava… Ao final de alguns meses, verificando também a ação dos diversos agentes naturais (clima, insetos e lesmas) contabilizou que das 440 mudas que germinaram, apenas 284 sobreviveram, com cada uma chegando a um diferente nível de desenvolvimento. Concluiu, então, que a dinâmica da vida naquele pequeno território era definida por um processo de seleção natural, com as estratégias (ter um gosto amargo para evitar os animais e resistência as intemperes) de cada plantinha sendo determinante para sua sobrevivência. Qual economista não enxerga similaridade dessa experiência com a dinâmica do mercado?

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A verdade: Darwin nos oferece biologicamente a comprovação de tudo o que Adam Smith afirma. Utilizando as ideias de Darwin para entender o mercado, veremos como as empresas surgem, se desenvolvem e dão origem a muitas outras com diferentes adaptações da mesma forma como acontece na natureza.

A “Destruição Criativa” de Schumpeter também é óbvio reflexo do que ocorre na natureza, quando eventos naturais e a competição entre espécies possibilita tanto a destruição quanto o surgimento ou aperfeiçoamento de novas espécies. A mesma dinâmica responsável pela extinção de bilhões de espécies de seres vivos ao longo da história do planeta também é responsável pela extinção de milhares de empresas ao longo da história do capitalismo. Enquanto espécies animais e vegetais precisam se adaptar constantemente às mudanças de ambiente, empresas e profissionais também precisam estar em constante adaptação ao mundo ao redor. O que a preguiça-gigante e a Remington, fabricante de máquinas de escrever, têm em comum? Ambas desapareceram porque não souberam se adaptar as mudanças de ambiente.

A “Arvore da Vida” de Darwin, com suas ramificações ilustrando o surgimento e o desaparecimento de espécies pode ser facilmente visualizada no ambiente do mercado. A Ford não foi fundada do nada, depois de um estalar de dedos de alguém. A empresa foi resultado (resultado!) da catalisação de inúmeras influências, percepções e experiências que levou seu dono a formular um produto e um método de produção. A partir dela, outras marcas de automóveis surgiram, a maioria delas desenvolvendo características e produtos próprios em função dos mercados almejados por cada empresa. Consideremos também que muitas ramificações da Ford foram interrompidas simplesmente porque não conseguiram se adaptar aos mercados – ambientes − nos quais pretendiam se estabelecer. A maioria das fabricantes de veículos que surgiram ao longo do século XX não existe mais, foram substituídas por empresas mais modernas assim como ocorre na natureza, onde cada espécie extinta é substituída por outra mais adaptada ao ambiente. A mesma verdade: Animais competem por território, alimento e sexo assim como empresas competem por mercados. A natureza é a mesma para todos!

Precisamos também fazer justiça a Lamarck. Sua controversa (entre os biólogos) “Lei do Uso e Desuso” deveria ser vista, do ponto de vista da filosofia econômica, como uma verdade absoluta. Em sua “lei”, Lamarck afirma que espécies vão criando ou descartando adaptações e características de acordo com as mudanças de ambiente ao longo do tempo, o que se encaixa perfeitamente na história de qualquer empresa bem-sucedida, que precisou criar produtos, conceitos, linguagens, embalagens e até novas estruturas internas para se manter no mercado. Para sobreviver, uma empresa pode ter que inventar um produto que, pouco tempo depois, não terá mais razão de existir. Fabricantes de brinquedos evidenciam esta lei todos os anos.

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A percepção de que as ideias de Adam Smith e de Lamarck se entrelaçam foi manifestada com muita clareza ainda no século XIX por Herbert Spencer. Inglês avesso a bajulações, rejeitava honrarias oficiais, tinha aversão ao Estado, repudiava medidas paternalistas e teve grande parte de sua produção intelectual financiada por ninguém menos que John Stuart Mill. Imerso em seu ostracismo, descreveu as primeiras e contundentes relações entre economia e estado, sempre amparadas por suas percepções da natureza. Spencer, porém, acabou cercado de inimigos: os trabalhistas se irritaram com sua posição contra o socialismo; os conservadores o interpretaram como um herege por sustentar suas ideias nas obras dos evolucionistas. Por isso, foi deixado de lado, esquecido… e o mundo perdeu uma grande expressão na defesa da liberdade econômica.

Devemos esperar que agora, que até o Papa Francisco afirmou que as ideias de Darwin não se chocam com a fé cristã, os liberais e conservadores voltem-se para o que a Teoria da Evolução das Espécies tem a acrescentar à defesa do livre mercado e da liberdade individual, lembrando o que Darwin concluiu: o único direito que a natureza nos oferece é o de lutar pela vida e pelo privilégio da reprodução.

Coincidindo com as ideias liberais, a Evolução Natural das Espécies rechaça qualquer ideia de que a centralização de decisões – Estado − tenha condições de arbitrar sobre as relações de um ecossistema, seja ele social, econômico ou cultural. A Teoria da Evolução das Espécies desmascara todas as “boas intenções” socialistas. Adam Smith e Charles Darwin esclareceram um mesmo processo sob dois pontos de vista diferentes, os quais devem ser fundidos para se melhorar a sustentação das ideias liberais.

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Comentários

  1. Eu sinceramente nunca vi a relação que os liberais vêem com religião. Liberdade para escolher sua religião ou não, ok, mas sinto o liberalismo muito mais próximo de um ateísmo. Do mesmo jeito que a religião argumenta que sem deus ou o conceito de algo superior, não há amarras morais e éticas; do mesmo jeito criticam o liberalismo quanto à interferência do estado e livre mercado. Sabemos que as duas críticas são falsas por diversos motivos.
    O comunismo pelo seu caráter religioso, bem enfatizado no artigo, apenas é ateísta pois não tolera concorrência e tem que ser a única salvação na mente do doutrinado, ou logo suas incongruências seriam descobertas.
    Em um canal de opinião do youtube – um adendo, tenho aversão desses canais, hoje as pessoas não lêem mais; não tenho paciencia para ver um vídeo de 5 minutos para alguém emitir uma opinião, quiçá meia hora como muitos – um sujeito cita a mão divina do mercado e desfaz dela, dizendo que é ateu. Então tece várias críticas à meritocracia. Eu pensei em discorrer que o argumento dele é paralelo aos argumentos contra a teoria da evolução, mas me limitei a questionar, sem a meritocracia, quem decide qual funcionário é promovido? Os valores específicos e arbitrários de alguém? Isso é realmente mais justo?

  2. “É penoso ouvir roucos cantarem e ver mancos dançarem; mas saber de mentes
    limitadas que filosofam é insuportável”.