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Crescimento no Brasil e no mundo em 2020 de acordo com os números do FMI

Com a divulgação dos dados do FMI referentes a 2020, é possível avaliar o tamanho do estrago que a pandemia causou no crescimento econômico pelo mundo. Considerando os países com mais de dez milhões de habitantes em 2020 e excluindo a Venezuela por motivos óbvios, a média das taxas de crescimento em 2019 foi de 2,98%. Em 2020, essa mesma média foi de -3,29%. Em 2019, a maior taxa de crescimento entre os países da amostra foi de 9,4% em Ruanda. O pior desempenho foi do Zimbabwe, com queda de 7,4%. Em 2020, o melhor desempenho foi na Etiópia, que cresceu 6,1%, e o pior foi no Peru, onde o PIB teve queda de 11,1%. A mediana das taxas de crescimento caiu de 2,3% em 2019 para -3,6% em 2020. A figura abaixo mostra a distribuição do crescimento em 2019 e 2020, o deslocamento para a esquerda da parte em vermelho mostra queda geral do crescimento em 2020.


Dos oitenta e oito países da amostra, em apenas dezenove foi observado crescimento do PIB em 2020. Dos países que cresceram, dez estão na África subsaariana, quatro são países emergentes da Ásia, dois do Oriente Médio, um pertence ao grupo dos países avançados, um é parte da Comunidade de Países Independentes e um é emergente da Europa. Nenhum país da América Latina e Caribe cresceu em 2020. Mesmo considerando apenas os países que cresceram, a média das taxas de crescimento, 2,4%, foi menor que a média de crescimento de todos os países da amostra em 2019. A figura abaixo mostra a variação do PIB em cada um dos países onde houve crescimento.

No Brasil, o PIB teve queda de 4,1% em 2020. O resultado foi melhor do que o previsto pelo FMI em meados do ano passado. Em termos relativos, o Brasil melhorou de posição no ranking dos países da amostra. No ano de 2019, cerca de 78% dos países tiveram melhor desempenho do que o Brasil. Essa proporção caiu para cerca de 57% em 2020. A figura abaixo mostra a variação do PIB em todos os países da amostra com alguns destaques. O eixo horizontal mostra a variação do PIB e no eixo vertical é possível ver a proporção dos países com variação do PIB menor do que a do país em destaque. Desta forma, a figura mostra que cerca de 91% dos países cresceram menos do que a China e cerca de 48% e cerca de 52% cresceram menos do que os Estados Unidos.

Considerando apenas os países da América Latina e Caribe, o Brasil teve o terceiro melhor desempenho. A menor queda ocorreu na Guatemala, seguida pelo Haiti, Brasil, Chile e República Dominicana. O pior resultado foi no Peru com queda de 11,1% no PIB. Se o leitor está desconfortável com a retirada da Venezuela da amostra, este é um bom momento para informar que o PIB venezuelano caiu 35% em 2019 e 30% em 2020. A figura abaixo mostra a variação do PIB nos países da América Latina e Caribe que estão na amostra.

Dos grupos de países considerados pelo FMI, a América Latina foi o que teve o pior desempenho em termos de média das taxas de crescimento do PIB. Em 2019, o pior desempenho ocorreu no Oriente Médio. A pandemia pegou em cheio nuestra America em um momento em que as coisas já não estavam bem.

Entre os países do BRICS, apenas na China o PIB cresceu em 2020. O Brasil ficou no meio, com desempenho pior do que China e Rússia e melhor do que Índia e África do Sul.

Os números mostram que a pandemia teve um forte impacto no crescimento dos diversos países. O resultado contrasta com os números observados durante a Gripe Espanhola, em que a média das taxas de crescimento foi positiva nos três anos da pandemia (ver aqui). O Brasil ficou na parte de baixo da amostra em termos de variação do PIB, mas estamos perto do meio. Em termos relativos, foi uma melhora: em 2019 estávamos na parte de baixo, mais para o fim do que para o meio. Uma melhora relativa no meio de uma queda tão forte não deve servir de alento para um país que está em mais uma década perdida, mas sugere que podia ter sido pior.

Roberto Ellery

Roberto Ellery

Roberto Ellery, professor de Economia da Universidade de Brasília (UnB), participa de debate sobre as formas de alterar o atual quadro de baixa taxa de investimento agregado no país e os efeitos em longo prazo das políticas de investimento.