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Contas Nacionais do segundo trimestre de 2019: Stay cool e siga com as reformas

As contas trimestrais divulgas pelo IBGE trouxeram um surpreendente crescimento do PIB. Enquanto as expectativas apontavam para um crescimento de no máximo 0,2% ou mesmo queda, o número apurado mostrou um crescimento de 0,4% em relação ao trimestre anterior. A notícia é boa, mas não é para soltar fogos. O cenário é de recuperação lenta; isso é bom dado que nas contas referentes ao primeiro trimestre havia uma ameaça de novo mergulho da economia em uma recessão. Também é bom evitar a tentação de creditar o resultado a expectativas positivas por conta da agenda de reformas que está andando – ainda é cedo para isso.

A figura abaixo mostra o crescimento do PIB em comparação com o trimestre anterior e com o mesmo trimestre do ano anterior. Fica claro o padrão de recuperação lenta. Aqui cabe lembrar que, ao contrário de alguns colegas de profissão, eu não considero que a recuperação lenta seja um problema; pelo contrário: uma recuperação rápida provavelmente seria a construção de uma nova crise no futuro próximo, repetindo um padrão que já é comum no Brasil e na América Latina. A melhor notícia do número do PIB é que devem cair as pressões para que a equipe econômica aposte em uma agenda de estímulos de curto prazo.

A figura abaixo mostra o crescimento de cada setor. O setor de serviços mantém o ritmo de crescimento que vem seguindo desde o começo da recuperação. Indústria e Agropecuária que encolheram no trimestre anterior passaram a crescer neste trimestre. O crescimento espalhado em todos os setores, mesmo que baixo, sinaliza para uma recuperação equilibrada.

Por ser particularmente sensível a crises internas e por ser um dos setores com mais capacidade de pressionar o governo por políticas de estímulos de curto prazo, é válido dar uma olhada mais cuidadosa no comportamento da indústria. A figura abaixo mostra o crescimento na indústria de transformação, construção e extrativa desde 2014. Dois pontos merecem atenção: (i) o crescimento da indústria de construção e (ii) a queda da indústria extrativa.

A recuperação da construção pode ser um sinal de recuperação da confiança e costuma antecipar uma recuperação do emprego. É fato que o governo tem anunciado medidas de estímulo para o setor, porém não é trivial determinar se o crescimento já pode ter sido uma resposta a esses estímulos. Se for uma resposta aos estímulos, podemos ter problemas nos próximos períodos. Como bem deveríamos saber, bolhas não levam muito longe. Caso a recuperação tenha uma dinâmica própria, o governo deveria rever os estímulos para não contaminar um processo saudável. Em qualquer caso o governo deveria rever estímulos à construção.

A queda da indústria extrativa, que cresceu durante boa parte da crise, ajudando a evitar um desastre ainda maior, frustrou um crescimento que poderia ter sido maior que o anunciado, mas reforça a tese de que a recuperação está ocorrendo mais por fatores internos do que por fatores externos. Não há problema em crescer com a ajuda de fatores externos, pelo contrário; mas é importante que a dinâmica interna da economia também aponte para o crescimento.

A figura abaixo mostra o crescimento dos principais componentes da demanda. Destaque para o investimento (Formação Bruta de Capital Fixo) que voltou a crescer e desde o último trimestre de 2017 vem crescendo; mas a queda na taxa de crescimento no trimestre anterior ligou um sinal amarelo para a possibilidade de reversão desse padrão. Um novo ciclo de queda do investimento seria um forte indicador de uma volta ao quadro de recessão. O crescimento de 5% do investimento pode ser um sinal de que o trimestre anterior foi apenas um susto. A queda no consumo do governo em contraste com um aumento do investimento e do consumo das famílias pode ser vista como um sinal de que não estamos em uma nova bolha.

No setor externo, o valor das exportações continua acima do valor das importações, o que não quer dizer muita coisa, mas pode ser útil em tempos de volatilidade cambial. O aumento da taxa de investimento, que chegou a 15,9%, não foi acompanhado pelo aumento da taxa de poupança, que caiu de 15,8% para 15,2%. Nada que preocupe, mas sinaliza que vamos ter de pegar dinheiro no resto do mundo para financiar o aumento da taxa de crescimento ou vamos ter de arrumar um jeito de aumentar a taxa de poupança.

Em resumo, os números mostram uma recuperação lenta, mas aparentemente equilibrada e que não decorre de choques externos. Aparentemente, o primeiro trimestre de 2019 foi mais um susto do que uma reversão da recuperação iniciada em 2017. O desafio continua sendo manter a agenda de reformas e fugir das tentações de adotar estímulos de curto prazo.

Roberto Ellery

Roberto Ellery

Roberto Ellery, professor de Economia da Universidade de Brasília (UnB), participa de debate sobre as formas de alterar o atual quadro de baixa taxa de investimento agregado no país e os efeitos em longo prazo das políticas de investimento.