Brasil e OCDE: trapalhadas, remendos e duas eleições fulminantes

No dia 10 de outubro, a Bloomberg publicou notícia com o título “U.S. Turns Down Brazil’s OECD Bid After Publicly Endorsing It” (“Estados Unidos rejeitam o pedido de ingresso do Brasil na OCDE após apoiá-lo publicamente”). Entre outras coisas, a nota informava principalmente o seguinte:

“O ministro das Relações Exteriores, Michael Pompeo, rejeitou um pedido para discutir-se um maior crescimento do clube das nações mais ricas, de acordo com a cópia de uma carta enviada ao secretário-geral da OCDE, Angel Gurria, em 28 de agosto e vista pela Bloomberg News. Ele acrescentou que Washington apenas suportava os pedidos de ingresso de Argentina e Romênia…

[A América] está dando prioridade para Argentina e Romênia devido aos esforços de reforma econômica e comprometimento com o livre mercado desses países…”[1]

Tal notícia caiu como uma bomba, repercutindo negativamente tanto na mídia tradicional quanto nas redes sociais. Não era para menos. Essa declaração é equivalente a uma agressão pelas costas vinda de um aliado cujo apoio, com muita dedicação (por vezes exagerada!), o Brasil vem tentando consolidar – nem tanto pelo apoio à Romênia, mas pela priorização da Argentina sobre o Brasil e pelo fato de que o argumento utilizado não faz o menor sentido.

Sejamos francos: inexiste qualquer motivo, razão, ou circunstância para entrarmos DEPOIS da Argentina em qualquer lugar que queiramos. Se isso está acontecendo na OCDE, das duas, uma: ou fomos enganados ou o governo vendeu muito mal a notícia do apoio americano. Em nenhum desses cenários, o Brasil aparece bem.

Leia também:  Bolsonaro é o que é

Não adianta querer empurrar a responsabilidade à imprensa, ainda que possa haver má vontade na mídia (e há). Quem se colocou nessa situação foi o governo. Aliás, diga-se, foram ambos os governos, tanto o brasileiro quanto o americano, que deram margem para as notícias negativas: nós, ao fazermos estardalhaço sobre o apoio à OCDE antes de ser oficial; os EE.UU., por não reforçarem a palavra empenhada no momento devido.

Os Estados Unidos e nós erramos também por um motivo comum. Trump e Bolsonaro não quiseram ser responsáveis por fechar o caixão político de Macri. Para não prejudicarem um amigo, ainda que numa causa perdida, ficamos nós com o risco da eleição americana do ano que vem.

Precisamos do apoio oficial antes de novembro de 2020, mas não creio que haja tempo hábil para isso. Estamos dependentes de o povo e os Estados americanos reelegerem Trump. Não se trata de uma posição confortável, mas foi a escolha que fizemos.

Dito isso, temos que saber reconhecer quando agimos mal. Não há demérito no erro se aprendemos com ele. O fato é que temos uma promessa de apoio. É relevante, mas nada que garanta coisa alguma. Nós erramos no alarde sobre um provável apoio dos Estados Unidos à nossa entrada na OCDE.

Leia também:  O Brasil na armadilha do atraso

Por outro lado, é preciso reconhecer que bastaria aos EUA, na hora, terem reafirmado publicamente seu apoio ao Brasil. Se tivessem feito, nada teria acontecido. O erro principal é nosso, mas Pompeo pisou na bola, também. O Brasil tem todo o direito de reclamar e de esperar que os Estados Unidos se retratem – como prontamente aconteceu.

Eu não esperava nada menos do que uma manifestação pública do Sr. Pompeo garantindo o apoio americano ao nosso ingresso junto à OCDE. Tanto ele, quanto Trump, assim procederam. Só falta o chanceler americano fazer uma visita pessoal à Brasília. É pedir muito? Pode ser que seja, mas seria justo. Isso certamente repararia o estrago causado pelo erro deles.

De bom nesse imbróglio todo foi a reação brasileira e suas consequências. É verdade não haver muito que o Brasil poderia fazer em resposta diante dessa agressão americana, ainda que tenha sido meramente involuntária. Essa é a realidade do jogo. Não adianta lamentar. Temos que reconhecer e agir de acordo com nossas possibilidades. Na primeira versão deste texto, eu havia escrito:

Dito isso, diante dessa situação, só vejo uma ação possível para o Brasil. Seria só um ato simbólico, mas com peso e significado. Nós não sairemos do bloco liderado pelos Estados Unidos, isso seria ridículo, mas podemos muito bem retaliar parando de puxar o saco de Trump publicamente.

Leia também:  Já passa da hora do BNDES pagar o que deve ao Tesouro

A mensagem aqui é simples e verdadeira: “Pode-se fazer a América grande de novo à vontade; mas não às nossas custas.” Se isso não está evidente, é melhor que se esclareça o quanto antes.

Nem foi preciso fazer isso; o que, por si, não é pouco. Apenas registramos nosso descontentamento com a situação e os resultados foram imediatos. Quando foi a última vez que contatamos um governo relevante como é o americano sobre um equívoco deles e recebemos prontamente uma resposta pública positiva? O governo brasileiro sai com a imagem melhor do que a anterior à confusão. Porém, essa história está longe de acabar.


[1] “Secretary of State Michael Pompeo rejected a request to discuss further enlargement of the richest-countries club, according to a copy of a letter sent to the OECD secretary-general Angel Gurria on Aug. 28 and seen by Bloomberg News. He added that Washington only backed the membership bids of Argentina and Romania…

  ‘[America] is working for Argentina and Romania first given these countries’ economic reform efforts and commitment to free markets…‘”
  A notícia pode ser acessada aqui: https://www.bloomberg.com/news/articles/2019-10-10/u-s-turns-down-brazil-s-oecd-bid-after-publicly-endorsing-it

Ajude o Instituto Liberal no Patreon!
Paulo Roberto Tellechea Sanchotene

Paulo Roberto Tellechea Sanchotene

Mestre em Direito (UFRGS) e em Política (CUA, EUA), tendo escrito e apresentado trabalhos, no Brasil e no exterior, sobre os pensamentos de Eric Voegelin, Russell Kirk e Platão, sobre a história política americana e sobre direito internacional. Atuou em movimento estudantil.

Deixe uma resposta