As lições do reencontro entre ET e Elliot

Circula na internet um vídeo de celebração do Ano Novo em que os protagonistas do famoso filme de Steven Spielberg aparecem se reencontrando 37 anos depois.

O filme traz a importância da amizade e da família, a despeito das mudanças tecnológicas que se sucedem no mundo.

Lembrei-me dos cubanos.

Em 1982, quando o filme foi lançado, Cuba produzia quase nada do que precisava e não tinha dinheiro para comprar no exterior. Vivia, desde o início do golpe comunista, dependente de ajuda externa. Essa ajuda vinha da URSS, que também mantinha seu povo a pão, água e terror, mas com suas riquezas minerais conseguia financiar um imenso programa armamentista e de financiamento de movimentos golpistas e de regimes comunistas noutros cantos do mundo.

Em 1982, não faltava nada em Cuba. Quero dizer: não faltava ração para os milhões de escravos cubanos. Os socialistas cumpriam as cotas de comida. Um frango inteiro por mês. Uma dúzia de ovos por semana. Conseguiam distribuir roupas e sapatos, papel higiênico e sabonetes. Algumas famílias comprovadamente fiéis aos valores da revolução eram premiadas com ventiladores!

Cuba estava no apogeu de seu desenvolvimento. Nenhum cidadão comum morria de fome em Cuba, mas ninguém tinha condições de escolher o que comer, ou onde morar, ou mesmo o que sonhar para sua própria vida. O socialismo em sua plenitude!

Em 1982, toda programação na TV, na imprensa e nos eventos culturais exaltava o regime. Todos os cidadãos eram voluntariamente obrigados a concordar com tudo o que viam e ouviam. Concordar explicitamente! Uma pessoa calada era, por si só, suspeita de estar tramando algum golpe contra o regime.

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A máquina de propaganda comunista tinha como garotos propaganda os artistas, os jornalistas, os políticos e os intelectuais de esquerda que, após visitas cuidadosamente coreografadas pelo regime, voltavam para seus países relatando mil maravilhas.

Nas prisões, milhares de acusados de serem dissidentes, reacionários, golpistas e lacaios dos americanos agonizavam. Muitos ainda eram fuzilados; mas nada disso importava para a esquerda ocidental − os comunistas continuavam resistindo ao imperialismo estadunidense!

E como os Estados Unidos estavam em 1982?

Para ter uma noção de como eles estavam, podemos olhar para o Brasil. Por mais atrasados que fôssemos na década de 1980, já começávamos a experimentar avanços constantes e construtivas.

Pergunto a você, leitor: como era sua vida naquela década? Em quais presidentes você votou? Quais os produtos tecnológicos de que você dispunha? Quais as marcas mais conhecidas no mercado? Como você se comunicava com seus amigos, parentes, colegas e clientes? Como você pesquisava sobre algum assunto? Como você comprava alguma coisa que não tinha numa loja próxima de sua casa ou trabalho?

Pois é…

Se sua vida deu um salto de qualidade de lá para cá, imagine a dos americanos, que desfrutam de um alto nível de capitalismo desde sua fundação, que criam quase todos os confortos que chegam até nós.

Em 1982, os cubanos iam ao cinema ver filmes de glorificação do golpe que lhes escravizou e dos heróis que perseguiram seus compatriotas.

Naquele ano, os americanos iam ao cinema ver a relação de amor entre uma família comum e um alienígena, e também centenas de outros filmes, sobre os mais diversos assuntos, muitos deles com críticas ao governo daquele país, todos financiados e produzidos por empresas privadas.

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As dezenas de milhões de americanos que lotaram as salas de cinema para ver ET representavam uma sociedade de indivíduos livres, de mercado pulsante, diversificado, com cidadãos comuns podendo comprar quase tudo, podendo fazer escolhas e com fortes princípios de amizade e família.

No Brasil, a “terrível” ditadura militar preparava a volta da democracia. O presidente ainda era um general, mas todas as lideranças da esquerda tinham plena voz na imprensa e no Congresso. O comunista Leonel Brizola seria eleito governador do Rio de Janeiro no ano seguinte. Lula já mentia na TV e recebia mesada da Odebrecht. 

De 1982 para cá, tivemos oito eleições presidenciais. Passamos das fitas k7 para CDs, e depois para os MP3, e hoje apenas “baixamos” as músicas da internet para ouví-las pelo celular. Nossos carros, nossas casas, nossas vidas mudaram para melhor. Nas favelas, os barracos têm aparelhos de ar-condicionado e máquinas de lavar-roupas. A quase totalidade dos jovens e adultos tem um celular conectado à internet. Pobre faz churrasco regado a engradados de cerveja. Conseguimos levar para a cadeia dois ex-presidentes corruptos.

Em Cuba, um Castro ainda manda no país. As pessoas não têm acesso nem a uma fração das tecnologias que um brasileiro comum tem. Não há cubanos obesos porque eles mal conseguem comida suficiente para sobreviver. Meninas se prostituem por itens de higiene pessoal. Trinte e sete anos depois do apogeu do regime comunista, os cubanos ainda precisam demonstrar fidelidade ao partido para ganhar um ventilador. A ração de comida é a mesma. O aborto continua sendo a principal ferramenta de controle da mortalidade infantil − morrem poucos bebês porque muitos deles são assassinados antes de nascer.

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Tudo em Cuba hoje é do mesmo jeito que em 1982, que em 1972 e que em 1962. 

Mas o que o vídeo do reencontro do ET com Elliot destaca mesmo são as relações de amizade e de família, coisas que também foram destruídas pelos socialistas em Cuba.

Ao implantar um regime de patrulhamente ideológico constante, em que praticamente cada quadra de cada bairro, de cada cidade, tem um comitê fiscalizador da atividade privada, o socialismo destruiu relações de confiança. Todo cidadão passou a ser um potencial delator do seu vizinho, colega ou familiar. Inventar acusações sobre alguém torna-se uma boa forma de vingança por qualquer desavença. Uma piada pode levar um cubano a dar explicações ao representante do partido em seu bairro. Uma reclamação pode colocá-lo numa lista negra. Uma tentativa fracassada de fuga certamente o leva para a prisão. O regime ainda oferece prêmios para os delatores.

No livro A Ilha Secreta do Doutor Castro, dos jornalistas franceses Corinne Cumerlato e Denis Rousseau, que residiram em Cuba, há um valioso relato sobre a disseminação da discórdia social e familiar promovida pelo socialismo.

O vídeo do reencontro de ET com Elliot não é comovente apenas pela mensagem de amizade e de família, mas por nos lembrar que ainda existem países cujos cidadãos perderam até isso para uma ideologia nefasta, que tantos entre nós ainda ousam defender. 

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João Cesar de Melo

João Cesar de Melo

É arquiteto e artista plástico.