A parábola do Surfista Prateado: como uma sociedade pode tornar-se autocrática

Desde o surgimento do mundo como o conhecemos, a sociedade sempre buscou ser guiada por um líder, alguém capaz de nos guiar rumo ao progresso. Isso não é algo exclusivo dos seres humanos: todas as espécies animais possuem o mesmo instinto, o que torna a busca por um líder algo inerente aos seres animais.

Essa busca por lideranças pode trazer tanto efeitos positivos quanto negativos. De maneira sadia, a busca por líderes pode alçar ao poder estadistas que contribuíram bastante para o desenvolvimento de nações, como Winston Churchill, Ronald Reagan e D.Pedro II.

Por outro lado, essa busca pode trazer ao poder o surgimento de ditadores, como Lênin, Hitler e Mao Tsé-Tung. Estes últimos eram vistos como os homens que recuperariam a glória de suas nações, fariam delas grandes potências mundiais. Ambos cativavam o público com um discurso messiânico, quase religioso. E ambos possuíam seguidores fiéis, dispostos a tudo para satisfazê-los. Eram os salvadores da pátria. Eram os homens que levariam as suas nações a um novo patamar. E, no final, os levaram a regimes totalitários.

Um livro que mostra todo o processo de formação de uma autocracia é a graphic novel Surfista Prateado: Parábola. Publicada em 1988, escrita por Stan Lee e ilustrada por Moebius, Parábola é o perfeito retrato de como uma autocracia surge, e de como uma sociedade pode transformar-se radicalmente com esta nova ordem social.

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A história se passa no futuro, quando Galactus chega no planeta Terra, através de uma nave espacial, e conclama o surgimento de nova ordem, em que ele se coloca como um deus e promete o paraíso na Terra a quem se curvar a ele. Os cidadãos apoiam Galactus e a história passa a mostrar como o fanatismo pode cegar a população.

Embora o enfoque do livro seja o fanatismo religioso, percebe-se uma clara crítica ao fanatismo político. Galactus passa a ser reverenciado como um deus e surge uma religião para deificá-lo, liderada pelo reverendo Colton Candell, um homem que busca utilizar Galactus para obter poder.

Tão logo Galactus alcança apoio, surge uma mudança bastante negativa na sociedade. A maior parte da população adere em peso ao movimento de Galactus e passa a perseguir e silenciar aqueles que ousaram resistir e que não aderiram ao movimento de massa.

Além disso, há o desprezo pelas leis humanas e por declarações de direitos humanos: para a população, a única lei que importa é a lei de Galactus.

“Surfista Prateado: Parábola” mostra o perigo de deificar as pessoas e criar movimentos de massa para elas, o que leva à radicalização política ou religiosa. O Surfista aparece como a voz da razão em meio à escuridão, tentando mostrar para a humanidade que o indivíduo possui o poder dentro de si e que por isso não se deve submeter aos desmandos de um líder, não importa qual seja o governante.

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Ao final da história, a opinião pública finalmente vira-se contra Galactus devido a eventos trágicos e parece que a humanidade aprendeu a lição. Infelizmente apenas parece. Ao ser convidado a discursar na ONU, o Surfista inicia o seu discurso dizendo que não se pode colocar um ser acima dos outros, mas a multidão presente deseja que ele se torne um líder, para que eles possam seguir tudo que ele disser. E esse fato nos traz a essa frase histórica, o ponto alto do livro:

“Isto é loucura!

Eles desejam um líder, assim como uma criança espera o leite materno.

É por isso que se tornam presas fáceis dos tiranos e déspotas.

Por que eles não procuram a verdadeira fé em si mesmos? Por que buscam outro que lhes mostre o caminho?”

Essa indagação é o retrato perfeito de como o brasileiro enxerga o poder público. Ao invés de buscar reduzir a influência do Estado nas suas vidas, as pessoas buscam em líderes alguém para resolver magicamente os problemas do país. E isso explica o porquê de o Brasil ser o paraíso do populismo.

O povo brasileiro é aquele que desconfia dos políticos, mas ama o Estado. É aquele que critica a deificação de um político, mas idolatra outro. É aquele que decide deixar que burocratas decidam o que é melhor para ele. E, não bastasse a onda populista, os últimos anos trouxeram o aumento do radicalismo político e, com ele, do fanatismo. Os bolsonaristas radicais em nada se diferenciam dos seguidores de Galactus: são devotos de um líder (no caso, Bolsonaro), apoiam toda e qualquer declaração dele, e buscam intimidar e silenciar vozes opositoras. O bolsonarismo tornou-se o que ele mais criticava no petismo: um movimento autoritário, que busca trazer uma agenda autocrática ao país, e que não se importa em descer o nível do debate público para alavancar sua agenda.

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Surfista Prateado: Parábola é uma obra atemporal e, acima de tudo, necessária para os tempos em que vivemos. Em uma época em que o coletivismo domina parte da direita brasileira, não podemos nos esquecer da menor minoria da Terra: o indivíduo. Pois é no indivíduo livre que encontra-se o verdadeiro poder, que nenhum autocrata pode tirar, por mais que tente: a razão e o amor pela liberdade. Como disse Ludwig Von Mises: “Ideias, e somente ideias, podem iluminar a escuridão”.

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Erick Silva

Erick Silva

É graduando em Administração pela UFRRJ e ex-coordenador local do SFL Brasil.