A imprensa no Brasil: em quem acreditar?

Prevejo e prenuncio que a política de submissão irá carregar consigo restrições à liberdade de expressão e à de debate no Parlamento, em plataformas publicas e discussões na imprensa, pois alguém vai dizer – na verdade, de vez em quando já ouço dizerem – que não podemos permitir que a ditadura nazista seja criticada por políticos ingleses comuns e ordinários. Então, com uma imprensa sob controle direto (em parte) e indireto (em potencial), com todos os instrumentos de opinião pública dopados e anestesiados para o consentimento, nós seremos apenas conduzidos pelos próximos passos da nossa jornada. (05.10.1938 – Winston Churchill, em discurso na Câmara dos Comuns após o retorno do primeiro-ministro Chamberlain de Munique, reduzindo a pó o acordo firmado com a Alemanha nazista em relação à Tchecoslováquia.)

Neste momento me encontro trabalhando na segunda edição do livro Churchill e a ciência por trás dos discursos. Peço desculpas ao leitor por minha insistência ao novamente citar as palavras de Winston Churchill e sem querer parecer repetitivo, mas por força desta tarefa, me vejo viajando entre os anos 1930 e este primeiro terço do século XXI. Ao me deparar com a citação uma imprensa sob controle direto (em parte) e indireto (em potencial), com todos os instrumentos de opinião pública dopados e anestesiados para o consentimento, não pude deixar de perceber a atualidade desta frase.

A hegemonia cultural, um dos pilares da estratégia de expansão do comunismo desenhada por Antonio Gramsci (1891-1937), alcançou todas as estruturas sociais do país. Nas universidades, nos colégios, no judiciário e na imprensa, a corrente ideológica dominante pertence ao pensamento social democrata, socialista ou comunista. Apenas recentemente, talvez de 5 anos para cá, o pensamento liberal começou a ocupar espaços, proporcionando uma ruptura no pensamento dominante.

Neste artigo não entrarei nos aspectos históricos de como chegamos até este ponto e dedicarei alguns comentários ao papel da imprensa atual e suas perspectivas futuras. Durante os últimos 40 anos, a imprensa brasileira foi um dos pilares fundamentais para o exercício e a própria existência da democracia no país. Essa base moral e verdadeira vem se decompondo rapidamente nos últimos 5 anos e em minha opinião, por três fatores: seu comprometimento ideológico com a esquerda, a dependência econômica das verbas de publicidade de governos, sindicatos e empresas públicas e pela subversão do conceito de democracia.

O comprometimento ideológico é um fenômeno que vem sendo construído ao longo das ultimas décadas e prevê a tomada do poder através das estruturas educacionais e jurídicas. Elaborada como estratégia do Foro de São Paulo para toda a América Latina, foi colocado em andamento e acelerado nos diversos governos esquerdistas em todo o continente. A academia brasileira, formada e formadora de professores em todos os níveis e em todas as áreas, tornou o pensamento socialista hegemônico. A própria essência da universidade hoje se encontra subvertida e o outrora ambiente livre para discussões passou a ser uma ditadura de pensamento. Resultado direto disso é que toda a formação do jornalismo brasileiro possui o viés socialista e uma novilíngua habita as redações. Atentados terroristas são noticiados como “carro avança sobre pessoas” de forma a aliviar a culpa do assassino. O desarmamento é mostrado como algo necessário quando a manchete diz que “arma mata pessoas…”. O próprio senso da justiça é subvertido quando o “criminoso” passa a ser chamado de “jovem” ou “suspeito”.

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Este compromisso ideológico se traduz no apoio a partidos específicos, no nosso caso, PT, PSOL, PCdoB e seus aliados temporais. Para defendê-los basta não aplicar o mesmo peso às denuncias de corrupção, usar critérios incoerentes e dar a notícia para causar impacto, não para estabelecer verdades. No caso do agora senador Flávio Bolsonaro, relacionado em uma lista do COAF com outros vinte políticos por movimentações financeiras suspeitas, dezesseis nomes estão à sua frente, sendo que o líder, o deputado estadual do PT do Rio, André Ceciliano, teve uma movimentação financeira 38 vezes maior. Por sinal, Ceciliano foi reeleito e confirmado como presidente da ALERJ. Onde está a indignação dos meios de comunicação e da esquerda em geral? A propósito, se Flavio Bolsonaro for culpado, deverá perder seu mandato e deverá pagar por seus crimes.

Esse relacionamento ideológico promíscuo é a raiz da produção do que o presidente americano Donald Trump apelidou de fake news. Diga-se de passagem, a frase de Ésquilo (525 a.C-456 a.C.) “na guerra, a verdade é a primeira vítima” não é nova e a mentira fez e faz parte do mundo real. A guerra do século XXI, por enquanto, não é realizada com armas de forma generalizada, mas estamos vivendo uma guerra de ideias, de conquista do poder e de posições. O jogo da mentira tomou as redações e uma espécie de “vale-tudo” está em curso. Quando lemos algo, temos que relacionar vários veículos, checar as fontes e pesquisar, para depois poder estabelecer algum juízo minimamente razoável. É claro que grande parte das pessoas compra o que lhes dizem e agem como papagaios digitais, repartindo as fake news como se verdade fossem. A produção da mentira não é, infelizmente, exclusividade da esquerda.

Outro ponto importante que demonstra a decomposição da solidez da imprensa é a enorme transformação que a tecnologia produziu nos últimos anos e que segue em curso. Até pouco tempo a origem da notícia era o veículo de mídia que informava o mundo dos acontecimentos e eventualmente se posicionava. Hoje a mídia é produzida, divulgada, confirmada ou desmentida pelo público. O jornalista está completamente perdido neste universo e frequentemente, quando se posicionam, o fazem como se ainda estivessem naquele mundo anterior, deixando claro seu fracasso, sua arrogância, sua falta de compreensão e de atualização. O que se vê é uma massa de jornalistas que, para manterem seus empregos, informam e comentam sobre desastres ecológicos, crises financeiras, eleições e a moda em Paris da mesma forma. Provavelmente seu campo de conhecimento é o futebol  (recuso-me a dizer esporte pois no Brasil o jornalismo esportivo só fala de futebol) e ele se arvora a ter de falar sobre o que não entende ou o que não gosta. Consequentemente, temos análises e comentários rasos, com alto grau de desconhecimento e onde ele tecerá comentários baseados em seu ideário básico, frequentemente equivocado e ultrapassado. Isso quando não se utiliza de “especialistas”, termo genérico para alguém chamado às pressas para dar uma opinião sobre algo que entende superficialmente, momento em que este “especialista” terá seus 15 minutos de fama (que falta que faz o Andy Warhol).

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A internet e o universo virtual são o novo mundo, muito real. O sustento financeiro da mídia, proveniente dos anúncios publicitários, diminuiu radicalmente. No Brasil, só o governo federal investiu, entre 2010 e 2017, a quantia de R$15,2 bilhões, uma média de R$ 1,9 bilhões por ano, sendo que entre 2010 e 2015 esta média era de R$ 2,04 bilhões. Somente a Rede Globo, campeã em verbas, recebeu entre 2000 e 2016 cerca de R$ 10,2 bilhões. Não estão contabilizados nesta conta os governos estaduais, as prefeituras e as estatais estaduais, todas em crise, nem os sindicatos de empregados e patronais, o sistema S e outros monstrengos paraestatais que vão diminuir de tamanho ou desaparecer. Fica evidente o esforço que a Rede Globo faz para desestabilizar o governo Bolsonaro em seu início, uma vez que a fonte, com certeza, vai diminuir radicalmente. Sendo assim, verbas em queda e um mundo em transformação estão fazendo com que a mídia tradicional tenha que ou mudar, ou diminuir de tamanho, ou desaparecer.

Por último, o resultado da soma de uma formação pobre e ideologicamente incorreta e um futuro econômico incerto colocaram os veículos num canto perigoso do ringue. “As piores batalhas em uma guerra são as últimas, quando o inimigo nada mais tem a perder”, já disse Churchill. Encurralado, o jornalismo tradicional já morreu e não sabe disso, não está sabendo se reinventar e não consegue enxergar um novo horizonte, em que pese alguns jornalistas já entendam a realidade em torno de si. No Brasil, alguns veículos tentam mudar o contexto do próprio país, procurando manter a nação e os brasileiros em um obscurantismo messiânico, em uma pocilga ética e em um mundo sem esperanças para que possam reinar absolutos, pautando a sociedade e impondo sua agenda, fazendo e desfazendo reis e rainhas.

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O mundo mudou e o Brasil se deu conta disso. O momento está para realizarmos uma completa mudança de conceitos e de rumos. Tudo o que foi feito até agora nos trouxe aqui, com coisas boas e ruins. Temos um país relativamente desenvolvido e uma grande economia, mas um nível educacional pífio, corrupção desenfreada e valores éticos e morais invertidos e deturpados. A hora é de transformação e parte da imprensa, por motivos ideológicos, econômicos ou simples mesquinharia e preguiça mental, quer que nada mude para que possam sobreviver em um mundo que não existe mais.

Quando Churchill, em 1938, disse no parlamento inglês que “prevejo e prenuncio que a política de submissão irá carregar consigo restrições à liberdade de expressão e à de debate”, estava alertando a Inglaterra a entender a realidade: Hitler não iria honrar compromissos e a guerra era iminente. Estamos no meio de uma guerra de ideias e a hora é de compreender o momento como uma oportunidade de expor as ideias liberais, os conceitos da Escola Austríaca e da liberdade econômica, apresentar os diversos autores e pensadores liberais, sem deixar de analisar a realidade e sem nos transformarmos em tribos de zumbis amorfos como a esquerda costuma produzir. Afinal, somos indivíduos e não uma massa.

O jornalista húngaro Joseph Pulitzer (1847-1911), reconhecido pelo trabalho voltado a um jornalismo que tinha como tema central a corrupção política e questões relacionadas ao conflito capital e trabalho, disse certa vez que “com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”. Cabe a nós, liberais, o papel de lutar pela propagação e real compreensão das ideias liberais.

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