A “democracia brasileira” precisa respeitar o mandato do presidente Bolsonaro

O ser humano é um complexo misto de virtudes e vícios. Não acredito naquilo que intelectuais e engenheiros da perfectibilidade humana creem, num mundo ideal romantizado, uma espécie de Alice no país das maravilhas. 

Muito mais sensato e prudente parece-me ser a lógica da realidade. Não existe sistema político ou econômico perfeito. 

Não creio que nascerá e governará em lugar algum um presidente perfeito, impecável, capaz de atender e resolver as mais variadas demandas de um conjunto de indivíduos com visões de mundo, necessidades e expectativas bastante diversas e distintas. Nem Jesus Cristo cumpriu tal proeza.

Entretanto, não é preciso ser nenhum semideus para constatar que se encontra uma relação direta entre liberdade política e a respectiva sustentação da liberdade econômica, e vice-versa. Elas se reforçam mutuamente.

Inquestionável para mim é que é a liberdade econômica aquela que permite geração de renda e prosperidade sustentável. São os processos de destruição criativa nos mercados que criam crescimento econômico e favorecem o desenvolvimento social.

Especialmente no capitalismo de compadrio brasileiro, somente com a efetiva liberdade econômica, com maior competição no mercado nacional, é que se conseguirá impedir a tradicional concentração de poder econômico e enfraquecer as relações nada republicanas entre governantes e empresários ineficientes. Isso é o que debilita a criação de maiores possibilidades para a concentração de poder político. 

De fato, um crescimento sustentável só se torna possível com a incessante destruição criativa, tanto na economia quanto na política. 

Foi exatamente pela falta de liberdades políticas que o sistema comunista soviético ruiu, apesar da imensa utilização de reserva de mão de obra para a indústria pesada, que aumentou a renda por algumas décadas, contudo, não logrou adotar novas tecnologias e permitir a destruição criativa nos mercados e no regime político. 

O espetacular crescimento chinês, a meu juízo, padece desse mesmo mal, tendo em vista que são as liberdades – políticas e econômicas  – que conduzem ao crescimento. Não conjecturo um crescimento chinês de maneira realmente sustentável.

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Trazendo o contexto acima para a seara brasileira, surpreendo-me negativamente com a facilidade com que aflora um pensamento “mágico”, tacanho, limitado e reducionista de alguns brasileiros, até mesmo de gente que se diz “inteligente”. 

Óbvio que pode ser considerado até natural, pois a máscara ideológica, tanto de esquerda como de direita, cega, e o que é pior, mata e deixa matar muita gente! Foi o que fizeram eficientemente os regimes comunistas e fascistas, amplamente à disposição para quem se pressupõe a conhecer a verdade dos fatos.

Pelo estudo sério e exame isento da história das civilizações, a fim de compreender o presente e projetar o futuro, é infrutífero descolar-se do passado, uma vez que somos amarrados a uma espécie de herança institucional que não pode ser completamente abortada.

Num país carente de estudo e de muita leitura, minado pela cultura do “copia e cola”, não causa espanto que a turma do mundo ideal, perfeito, difunda e queira gozar de todos processos de avanços sociais e tecnológicos, anulando seus reais ônus e, assim, abdicando da assunção de correspondentes e vitais responsabilidades.

No Brasil, impossível se consertar mais de 400 anos de patrimonialismo, intervencionismo e clientelismo, sem compreender que mudanças políticas e econômicas são incrementais, já que não há feitiço capaz de alterá-las num mágico piscar de olhos. 

Numa nação onde se consolidou por vários séculos uma cultura extrativista, digna da colônia portuguesa, em um país gigante e diverso, a mudança institucional é sempre dolorosa e morosa. Não há como se ter um cenário diferente e positivo, de fato, sem reformas estruturantes, como a da Previdência, a tributária e, especialmente, uma reforma no anacrônico sistema político nacional.

Por aqui, entretanto, todo mundo só fala em democracia, Estado de direito, direitos humanos e outras senhas para a impunidade. 

Ironicamente, são quase sempre os mesmos que não querem respeitar a vontade popular expressa pela voto da população brasileira que elegeu o presidente Bolsonaro. A democracia só serve quanto atende aos interesses e posições – interesseiras – de uma face da maça vermelha?

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Evidente que não há um presidente ideal e nunca haverá – o que não me impede de constatar que as reformas estruturantes e microeconômicas que estão sendo planejadas e implementadas estejam realmente contribuindo para deslocar o país para a rota de uma economia de mercado mais pujante, que seguramente é aquela que conduz ao crescimento econômico e que deve induzir a um maior desenvolvimento de oportunidades e melhoria das condições sociais dos brasileiros.

O fato de a equipe econômica e de outros ministros técnicos estarem fazendo um trabalho muito bom, como o que ocorre na infraestrutura, não quer dizer que é compulsório dar o amém a tudo aquilo que o presidente fala e faz.

As instituições nacionais foram extremamente aparelhadas por interesses socialistas e social-democratas durante décadas e é bem verdade que parte da população elegeu o governo que aí está justamente para desideologizar o aparato esquerdista que foi montado. 

Discordo amplamente – e tenho escrito sobre! – das declarações infelizes do capitão, quanto a assertivas sobre violência, sobre seu enviesado entendimento a respeito de processos eficazes na educação, sobre o real nepotismo na indicação de seu filho à embaixada americana, entre outros temas.

Similarmente, abomino aqueles ideológicos dissimulados que só enxergam a trave no olho do opositor. Essa trupe acusa sem parar o presidente de racismo, homofobia, misoginia e de grosseria, mas tem memória curta – e ideológica – para lembrar as declarações do ex-presidente, ex-presidiário condenado, quando falava sobre “as “mulher” do grelo duro” e a cidade de Pelotas, como sendo aquela “exportadora de viados”. Ao menos têm-se honestidade nas palavras e um português um pouco melhor.

Mais grave ainda a intransigente defesa esquerdista nacional de regimes autoritários como o cubano, o venezuelano e de outros tantos ditadores e terroristas conhecidos!

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Pelo menos em nível de política econômica, o capitão mostrou humildade em reconhecer que o caminho do intervencionismo e das políticas nacional-desenvolvimentistas, preferida por ele e seus colegas militares por muito tempo, foi a causa do não desenvolvimento e da vanguarda do atraso.

É exatamente essa (i)lógica de tais dissimulados socialistas, que não querem enxergar que o desemprego e a estagnação econômica, com a institucionalização da grande corrupção e do achaque aos cofres públicos, são resultado de duas décadas de fracassadas políticas nacional-desenvolvimentistas dos governos Lula e Dilma. Esse grupo ainda não se deu conta da lógica da realidade, em que o mundo é mais importante para o Brasil do que o Brasil para o mundo!

Parece-me imperativo que se respeite a alardeada “democracia brasileira” – que precisa de enormes reparos e avanços institucionais de verdade – e deixem o presidente eleito cumprir o seu mandato de quatro anos. Já em 2022 o povo irá voltar às urnas!

Novamente, não há presidente perfeito que agrade amplamente a gregos e troianos, mas para os que não veem, enxergando a queda na taxa de juros, a inflação baixa, a redução vertiginosa no número de homicídios e estupros e a necessária celebração de acordos de comércio com o mundo, entre outros feitos, esses estão simplesmente exortando o protagonismo de suas paixões ideológicas!

Barbárie de verdade é o que se tem visto no duradouro Estado de compadrio brasileiro e, mais especificamente, no roubo da saúde, educação e segurança efetuado pela organização criminosa que solapou a esperança e a renda dos brasileiros durante mais de duas décadas passadas. 

É preciso defender o país e não crenças políticas, apurando e punindo crimes de toda espécie e todos aqueles que os cometeram, sejam filhos, amigos ou estranhos ao poder. Aqui tolerância zero!

A despeito de toda a resistência – não armada – fico imaginando como o país estaria nesse momento, sendo (des)governado pelos ideais da suposta superioridade moral, da excelsa bondade humana, e pela turma realizadora da maior corrupção da história desse país, com sua tradicional e nefasta política econômica do nacional-desenvolvimentismo.

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Alex Pipkin

Alex Pipkin

Doutor em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS. Mestre em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS Pós-graduado em Comércio Internacional pela FGV/RJ; em Marketing pela ESPM/SP; e em Gestão Empresarial pela PUC/RS. Bacharel em Comércio Exterior e Adm. de Empresas pela Unisinos/RS. Professor em nível de Graduação e Pós-Graduação em diversas universidades. Foi Gerente de Supply Chain da Dana para América do Sul. Foi Diretor de Supply Chain do Grupo Vipal. Conselheiro do Concex, Conselho de Comércio Exterior da FIERGS. Foi Vice-Presidente da FEDERASUL/RS. É sócio da AP Consultores Associados e atua como consultor de empresas. Autor de livros e artigos na área de gestão e negócios.