MILITANTES DE ALUGUEL

Nivaldo Cordeiro*

Só quem, como eu, um dia foi militante do PT pode ter a noção exata do abismo que separa os dias de hoje, das glórias cessantes do poder petista, daqueles tempos épicos do final dos anos setenta e começo do anos oitenta. Todo mundo então dava o sangue para viabilizar o partido. Fiz da minha casa núcleo do PT, saindo de porta em porta dos vizinhos a cadastrar títulos de eleitor para viabilizar o partido. Dei muitas festas em casa para arrecadar fundos para o partido. Era puro entusiasmo de uma idéia que parecia a salvação nacional.

 

No comício memorável pelas Diretas Já, realizado na Praça da Sé, tive participação intensa. Era do grupo do Eduardo Jorge, antigo secretário de Saúde da gestão Luiza Erundina. Levamos uma grande bandeira vermelha com o pentagrama estampado. Foi memorável. Nós, do PT, vaiávamos o que entendíamos por “direita”: Tancredo, Montoro e toda a social democracia. Vaia especial para Leonel Brizola, um traidor, sonora.

 

Quando chegava os tempos de eleições estávamos lá, panfletando cedo nas filas de ônibus e portas de fábrica. Fazíamos corpo-a-corpo. No dia do pleito fazíamos boca-de-urna. E, encerradas as eleições, revezávamos como fiscais de apuração, noite a dentro, que não havia essa de urna eletrônica e sempre suspeitávamos que poderiam roubar os nossos preciosos votos. Bons tempos, românticos. Era um auto-engano delicioso. Mal sabíamos que estávamos a construir esse governo safado, ladrão e descarado que tem sido Lula Lá.

 

Enquanto professor universitário induzi muitos jovens alunos a votar no PT. Terá sido esse o meu maior pecado, desencaminhar a juventude que a mim estava confiada enquanto professor. Fui desonesto e malicioso, mas o fazia em absoluta inocência, aquela dos desinformados cheios de boas intenções. Minha geração pagou o preço de ser vítima da revolução gramsciana posta em marcha nos anos sessenta e acabei por desempenhar um papel nessa farsa grotesca. Faço minha penitência por isso, embora tenha consciência de que fui usado, jovem e desinformado que era.

 

Lembrei de tudo isso ontem na Avenida Paulista. Por ela caminhei algumas quadras, da Rua Augusta até a Joaquim Eugênio de Lima. Vi alguns “militantes” do PT. Pareciam em luto, com o mastro das bandeiras a meio pau. Todos militantes de aluguel. Ninguém ali como nos velhos tempos, trabalhando gratuita e voluntariamente em favor da causa socialista, tão cara a todos nós outrora. Ficou provado que não se pode enganar a todos por todo o tempo.

 

Por isso que o PT vai perder em São Paulo, em Pernambuco, no Rio Grande do Sul, locais em que teve momentos de esplendor eleitoral. Os eleitores, assim como os antigos militantes, deram-se conta da farsa. Lula é uma farsa, Olívio Dutra é uma farsa, Mercadante é uma farsa e Humberto Costa é uma farsa. Todo o PT é uma farsa. E é por isso que Geraldo Alckmin está no segundo turno. Espero que os paulistas enxotem esse sonso e tonto Suplicy, que não é digno de representar São Paulo no Senado da República, consagrando Guilherme Afif Domingos, valoroso combatente da causa da liberdade.

 

Em penitência pelos meus erros do passado faço do meu palanque eletrônico uma tribuna para gritar em alto e bom som: Fora, Lula! E leve junto seus sicários, isto é, se a polícia não os pegar antes. Acabou a farsa, acabou a festa. Alckmin vem aí.

 

Amanhã será um novo dia. Podemos repetir aqui, com sinal invertido, a canção de Chico Buarque:

 

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar

 

 

* Economista, articulista [ www.nivaldocordeiro.org] – 29.09.2006 

Ajude o Instituto Liberal no Patreon!
Bernardo Santoro

Bernardo Santoro

Mestre em Teoria e Filosofia do Direito (UERJ), Mestrando em Economia (Universidad Francisco Marroquín) e Pós-Graduado em Economia (UERJ). Professor de Economia Política das Faculdades de Direito da UERJ e da UFRJ. Advogado e Diretor-Executivo do Instituto Liberal.